abril 30, 2007
Perguntas do Dia:
Sempre que se olha vê-se tudo, ou apenas o que interessa ?
MATAR-TE-EI
Extraordinariamente calma.
Havia passado tempo demais em cogitações que agora não faziam o mais pequeno sentido. Sabia que era o que queria, que iria ser a melhor das resoluções. Agradava-lhe a ideia, sem dúvida! Faltava ainda um pouco para se sentir bem consigo. Aproveitou para olhar tudo mais uma vez. Daqui a nada, não haveria lugar para pensar nela. Daqui a nada a campainha tocaria. Como lhe irritava aquele toque! Como lhe trazia a pior das recordações, como lhe trazia de novo tudo o que sentiu, toda a revolta.Levantou-se, olhou-se no espelho do quarto.
Primeiro toque…
Belíssima, como sempre! Elegante tal como ele gostava!
Olhou aquela gaveta uma última vez, respirou fundo, como se tomasse fôlego…
Novo toque…
Abriu a porta.
Ele era, tal como diziam as colegas na empresa, de fazer parar o trânsito! Sortuda! Como sentiam raiva dela! Brincavam, claro! Ela ria, dizia que exageravam, e que ela também não era de deitar fora, que faziam o par perfeito, que tinham tudo para dar certo! Sentiu como ele a olhou, adivinhando o que lhe ia no pensamento, enquanto tomava dele as flores…
“ – Não era para ir jantar fora?” – perguntou-lhe, beijando-a docemente. Ela sorriu, feminina, sensual, encostando-se ainda mais a ele.
“ – Hoje não, Amor! “ – sussurrou-lhe ao ouvido – “ – Hoje vamos ser só nós!... ”
“ – Se me tivesses dito, tinha trazido o vinho de que tanto gostas! “ – disse-lhe, enlaçando-lhe a cintura, tentando que ela não resistisse, que se deixasse seduzir.
“ – Ensinaste-me tanto, meu querido! Fui à loja de vinhos do teu amigo e ele arranjou-me um outro que tinha a certeza que tu adoravas. Percebeu que eu queria algo muito especial, que não era só um encontro, que teria que ser só nosso e disse-me que trouxesse aquele que está lá na cozinha e que tu saberias como o tratar para que tivesse o sabor perfeito! A música era a deles e enquanto ela ultimava o último toque no jantar que havia sido feito com o cuidado posto nas coisas que não vão repetir-se nunca mais, olhou-o e viu a expressão dele, olhando a garrafa. Sorriu. Perfeito! Ele nem se deu conta de que perdeu a segurança, a altivez, por um brevíssimo instante. Adivinhou-lhe o que ele pensou e ficou satisfeita.
“ – Tratas então do vinho? “ – perguntou-lhe – “ – Aprendi muito contigo mas deixo-te a tarefa de o abrires e chambrear.” – Sabia que ele a olharia exactamente assim, como olhou.
“ – De facto, minha querida! “ – retorquiu, enquanto já abria a gaveta onde estava o saca-rolhas – “ – Não há dúvida que não deixas nada por mãos alheias! Enquanto este néctar toma o aroma a que vamos ter direito, preparo um aperitivo? – Já era ele de novo, seguro de si, bonito como sempre.Ela aproximou-se dele e enrolando os braços no seu pescoço, encostou a cabeça ao seu peito e encetou um passo de dança. Tinha receio que ele lhe notasse uma certa ansiedade, mas, não. Já dançava, pegando-lhe na mão, encostando-a aos seus lábios.
“ – Sabes que te adoro? Que me encantaste? Sabias que não consigo resistir-te? “ – Ela fechou os olhos. Queria tudo naquele momento! Queria-o demais! Tanto que o coração batia com tanta força! Desejava-o como quando o viu pela primeira vez, ou mais ainda!
“ – Não fales! Dança comigo! “
“ – Hum! Estamos juntos, meu amor! – e levou-a para a sala, apagando a luz.
“ – Melhor assim? “ – Sedutor como nenhum outro. Ela deixou-se levar, sentindo a aragem que vinha da varanda. A noite estava amena. Adorava o Verão, adorava estar assim, sentir aquele calor e o perfume dele a fundir-se ao desejo de ambos.
“ – Quero-te! “ – beijando-a docemente no pescoço, passeando a língua, descendo devagar. Baixou-lhe as alças do vestido que caiu no chão.
“ – E eu a ti! Fica comigo! Ama-me! – não queria pensar em nada senão no prazer que experimentava. Sentiu-lhe os seios intumescidos, ávidos de paixão, de ardor, de vontade dele.
Sabia que era assim que ela o queria e que depois seria ele a sentir como ela o percorreria, felina. “ – Era para jantar, meu amor! “ – dizia-lhe baixinho, afagando-lhe o cabelo, descendo as suas mãos, desabotoando-lhe a camisa.
“ – Temos todo o tempo do mundo! Agora sente-me cheio de desejo de ti e não penses em mais nada! Entrega-te a mim… “ – e beijava-lhe o umbigo e levantava-lhe a anca com as mãos e continuava a descer, sentindo como ela respirava agora, vendo como ia afastando as coxas firmes. Não lhe resistia! Deixava de pensar no que quer que fosse. Queria-a tanto e sabia que ela o desejava, que o amava e que iam ser um só e que nada mais acontecia senão eles, juntos, fundidos, para sempre. Deitou-a no tapete, foi por de novo a música, abriu mais as portadas da varanda.
“ – És linda! “
Ela sorriu.
“ – Vem cá, vem! “ – despiu-lhe as calças, e, ao tempo que lhe tirava os boxers, ia-o beijando.
Olhou-o! Não! Não queria pensar em nada, na dor que sentiu, naquela maldita gaveta. Não voltaria atrás, não iria chorar! Agora iria desfrutar daquele que poderia ter sido, daquele que deveria ter sido, o homem da vida dela. Já o tinha louco de desejo! Foi até ao seu rosto e mordiscou-o devagarinho.
“ – Sentes-me? Sentes como te quero? “
“ – Se te sinto? És tudo para mim, tudo! ”
E foram! Ele tomou-a, entrou nela e fizeram amor como se fosse a primeira vez, como loucos!
No final, mantiveram-se bem juntos, sem nada dizer.
“ – Fica assim só mais um bocadinho! Não vás já! O jantar pode esperar! Tomamos um banho, que dizes? Eu sei o quanto gostas de fazer amor no banho!”
Ela levantou-se, sem antes lhe beijar o peito e baixinho, disse-lhe:
“ – Tomamos, sim! Vai andando que vou só mesmo ver se está tudo pronto. Jantamos assim, com esta luz da cidade, à noite! Está tudo tão sereno, já viste?
“ – Não mais do que tu! Por mais que tente, a noite não consegue ser mais bonita que tu! Hoje, então, não sei… Estás ainda mais sensual! “ – e já a puxava de novo para ele.
“ – Tonto! Vai preparando o banho que já vou lá ter! “
Tinha a cabeça a mil! Mas nada a faria deter! Tinham-lhe dito que bastavam umas gotas. Se deitasse o frasco todo talvez adulterasse o sabor do vinho e ele notaria. Ou não! Estava demasiado empolgado com o momento. Não ia chorar! Fez um esforço enorme, susteve a respiração…
Agitou levemente a garrafa.
“ – Então? Não vens? “ – olha que te vou aí buscar e é mesmo na cozinha, gritou ele, rindo.
“ – Já estou a ir, meu amor! “ – e correu e abraçou-se a ele!
“ – Tens o coração a bater com tanta força, querida! Tu não me digas que o peru fugiu!
Queres que lá vá e lhe dê uma marretada? “ – e ria e pegou nela ao colo e beijou-a de novo, muito e deitou-a na banheira e ficou a olhá-la!
“ – Adoro ver-te assim! És só minha! És única! Promete que casas comigo! “
Ela sentiu de novo aquela dor e teve receio, tanto receio que ele notasse!
“ – Prometo! Assim que a minha situação fique resolvida lá na empresa, prometo-te!
Teremos todo o tempo do mundo só para nós, tal como agora. Não vens? “
“ – Não! Vou ensaboar cada bocadinho do teu corpo bonito, posso? Quero ter-te com os meus dedos, com as minhas mãos! “
A água disfarçava as lágrimas dela. Ele deu-lhe banho que ela saboreou com o maior prazer. Cerrou as mãos com força sentindo as suas unhas cravarem-se nas palmas. Não soluçou e ele não se apercebeu do quanto ela chorava. Enxugou-a com o maior dos cuidados, vestiu-lhe o robe e então sim, meteu-se na banheira para um duche. Estava feliz, estava com ela, não pensava em mais nada nem sequer ela sabia que havia algo para pensar. Importava aquele momento. Tudo o mais ficava lá fora. Sabia que era o maior dos sacanas, mas ela não, e, isso era o que tornava tudo mais interessante. Ela adorava-o, ele tinha-a e o resto? O resto resolver-se-ia ou resolviam por ele.Tinha sido sempre assim desde sempre, desde que tudo havia acontecido. Ia jantar, talvez fizessem amor mais uma vez, deitá-la-ia, iria embora e amanhã…nem queria saber. Estava ali a tomar um belo dum banho, desfrutando dum pedaço de mulher que o amava.
“ – Vais beber o melhor dos néctares! “ – disse-lhe – “ – O meu amigo sabe de facto que este é o meu vinho de eleição! Proponho um brinde, sim, meu doce? “
“ – A nós? “ – sugeriu ela.
“ – E há melhor motivo? A nós, a esta noite, a este jantar e principalmente, a ti, meu Amor, e aos dias todos que vamos passar quando casarmos! “
Os copos tocaram-se levemente, ele ergueu mais o seu –
“ – A ti! “ – e bebeu.
Ficou a olhá-lo, simulando beber.
“ – Belíssimo, não achas? “
Ela começou a servi-lo e ele bebeu mais um pouco.
“ – Só espero que gostes! “ – foi uma colega minha que me deu a receita. Nunca tinha feito mas como sei que ela é uma óptima cozinheira, pedi-lhe ajuda.
“ – Deve estar divino, tal como tudo que fazes.” – respondeu.
Fez um leve esgar, sentindo uma ligeira indisposição.
“ – Estranho! Este talher está pesado… “
“ – Pesado? Porque dizes isso? – perguntou ela, olhando-o atentamente.
“ – Não sei, querida! Está a custar-me a segurar. Parece que não tenho força nas mãos…”
“ – Foi do esforço de há pouco! “ – retorquiu ela a rir, maliciosamente. – “- Não me digas que já não aguentas uma noite mais animada?
“ – A sério! Vou levantar-me! Não estou muito bem. Não é o jantar, fica descansada. O jantar está óptimo! Sou eu, não sei!...Que sensação esquisita!…“
“ – Bebe um bocadinho mais de vinho, amor! Vais ver que já passa! Estavas tão bem!
Olhava-o atentamente. Queria olhá-lo! Na cabeça dela ia um turbilhão de coisas, a gaveta, a carta, a ida ao Instituto, aquela imagem que ela não esqueceria nunca, mas, sempre a fitá-lo.
Ele deitou-se no sofá, que ia ficar assim, que não tinha força…
Um silêncio ensurdecedor em torno dela.
Um sofá, ele, um corpo quieto.
Desligou a música.
Custou-lhe horrores vesti-lo.
Àquela hora já o prédio estava sossegadíssimo.
Optou pelo elevador de carga. Raramente era usado. Arrastou-o, rezando a todos os santos que ninguém se lembrasse de chegar fora de horas. Era dia de semana, seria improvável.
Estudou durante meses todo o movimento do prédio. Nada poderia correr mal. Havia alguém que não merecia que algo corresse mal. Bendito lugar de garagem que dava para dois
automóveis! Conseguiu enfiá-lo no lugar ao lado do condutor, o lugar do morto. Era louca! Lugar do morto! Era de facto o melhor lugar onde o poderia ter posto. Arrancou e foi até a casa dele, uns quantos quarteirões mais adiante de sua casa. Ele guardava o comando da garagem no guarda luvas. Rezou de novo para que ninguém a visse. Louvou aos santos que haviam sobrado por ele ter uma situação económica que lhe permitia ter uma vivenda isolada. Puxou-o para o lugar do condutor. Accionou o comando da porta garagem de novo, correu, saiu, olhou em volta, ninguém! Foi a pé até casa. Chorou de raiva, chorou de prazer, chorou de revolta, soluçou.
Amanhã chegaria mais tarde à empresa. Tinha avisado a amiga que ia à clínica. Consulta de rotina, coisa para duas horas, três, no máximo. Mas não! Iria ao Instituto fazer uma visita a alguém que merecia por tudo ser feliz, que tinha conseguido vencer! Chegou ao prédio e subiu até ao quinto andar pelas escadas. Arrumou tudo, deitou o resto do vinho na sanita e fez uma, duas, três descargas. Garrafa no lixo, CD no lixo. Tomou um banho, chorou muito e então sim, soluçou como nunca o fizera! Enrolou-se na toalha, foi ao quarto, abriu a gaveta e leu a carta uma última vez, a maldita carta que encontrou por um mero acaso no mesmo porta-luvas onde ele guardava o comando da garagem:
Meu caro,
Tal como me havias pedido conversei hoje com a tua mulher.
Volto a frisar-te que não deverias desmarcar-te desta situação e que deverias tê-la acompanhado. Fi-lo por ela, porque sempre me mereceu todo o respeito e por quem sempre nutri o maior dos carinhos. Por ti, pela tua atitude, pelo teu comportamento, sabes, não to escondo, não o faria., jamais! Conhecemo-nos desde miúdos e logo que me apresentaste aquela que veio a ser depois a mãe dos teus filhos, surgiu uma empatia imensa. Infelizmente estas malditas doenças acontecem e pior ainda quando tocam aqueles que nos são queridos mais custa dar o veredicto. Imperdoável o teu comportamento! Preparei-a o melhor possível. Vai precisar de todo o apoio porque o carcinoma é maligno e com mais azar ainda, o que não é vulgar, mas que pode acontecer, atacou as duas mamas. Já a encaminhei para o meu colega lá no Instituto e posso garantir que a equipa será a melhor possível! A partir deste momento, todo e qualquer acontecimento ser-te-á dado pelo Instituto. Tens sido visto cada dia com um novo relacionamento, sabes bem ao que me refiro e não posso, não devo e nem quero pactuar com esse tipo de comportamento. Dá graças a Deus teres uns sogros maravilhosos que tomam conta dos teus filhos. Lamento que te tenhas esquecido que se tens o que tens hoje, à tua mulher se deve. Sempre te apoiou, mesmo em situações que te foram tão adversas, e, tiveste tantas! Infelizmente a tua memória é curta tal como a tua noção de amizade, dedicação e sobretudo de Amor! Não vou alongar-me mais. De nada vale! Estarei com a minha mulher sempre ao lado da tua, para o que der e vier. De ti, por tudo o que sei e vi, manterei a devida distância e peço-te que não me procures porque não te darei qualquer resposta.
Sem mais,
Jaime Pinheiro Borges
Resposta ao Desafio por: Cris
abril 29, 2007
Hoje matar-te-ei !
É hoje! Vou dar cabo dele! Ensonada levanto-me, os ouvidos cheios de ighhh iiiihgggg iiighttt, chego à casa de banho e lavo a cara. Olho-me no espelho e penso como o irei fazer. Tenho de ter calma, não posso sair lesada! Dispo-me sempre com o pensamento "hoje matar-te-ei!", sinto no corpo a água do duche, não tenho qualquer culpa, qualquer ante visão de remorso, não suporto mais o Ighttt ighhh iiiigggh!! Vou à cozinha buscar o que preciso. Tenho de ter cuidado, não fazer demasiado barulho. Subo as escadas com um sorriso de triunfo - será hoje! Nunca pensei que a ideia de me livrar do ighhh iiighh iighhtttt me libertaria desta forma! Mas como fazê-lo sem implicações para o meu bem estar! Tenho de me livrar do irritante bichinho que rói o meu colchão! Desmancho a cama, abro o fecho do colchão e encho-o com insecticida! deixo a janela aberta, é verão , não haverá problema. Fecho a porta atrás de mim! As próximas duas noites durmo no outro quarto!
Resposta ao Desafio por: Inês
Hoje matar-te-ei
Resposta as Desafio por: Paula Raposo
abril 28, 2007

Falarei contigo, beijar-te-ei e direi:
- Meu amor quanta saudade. E tu ficarás como sempre, convencido que a tua chegada é importante, eu que só quero a tua partida, e dirás ajeitando o cabelo e a roupa que amarrotei ao abraçar-te:
- Mas cheguei. E como sempre os teus maneirismos irritar-me-ão, a tua vaidade oca, a tua certeza que te quero. Como odeio as tuas certezas! E direi pegando-te na mão e começando a correr:
- Quero um café, vamos. E seguir-me-ás correndo e resmungando envergonhado:
- Que disparate, toda a gente está a olhar-nos. A mania que tens das boas maneiras, de fazer tudo tão certo que me sinto presa num aquário, dando as voltas que tu queres, sendo como tu queres. E deixarei cair a mala de propósito no meio da estrada cheia de carros, e tu ficarás para trás fazendo o que é certo e correcto, e apanharás a mala e uma pancada de um carro que colocará um ponto final no passado e em ti. E eu do outro lado da rua acenderei um cigarro, para que no fumo desapareça o que de ti em mim resta…
…Ou…
Virás como sempre encontrar-me onde sempre nos encontramos, e esperarei chegares como sempre chegas, como se a tua presença fosse imprescindível para toda a gente, especialmente para mim, e falarás pedantemente de coisas que não interessam a ninguém, dando-te ares de inteligente, monopolizando as conversas como sempre fazes, fazendo-me de vez em quando uma festa displicentemente, como se eu fizesse parte do teu público, como se eu fosse publico, como se eu fosse uma coisa tua, como se te pertencesse. Como odeio a tua mania de falares de coisas que não entendes, como se soubesses tudo. Tu que nem sabes que hoje não chegarás ao lugar onde sempre nos encontramos, porque te esperarei num canto, como uma sniper, e olhar-te-ei pela mira, tu tão minúsculo, tu tão insignificante ao meu olhar, na minha mira, e apontarei cuidadosamente e cairás, e as pessoas juntar-se-ão à tua volta e serás o centro das atenções como gostas. E eu virarei costas a ti caído, a ti passado, e irei esperar-te como se realmente te esperasse, e falarei de ti como se estivesses atrasado, e rirei de ti, sem ninguém perceber, porque sei que não virás, e ficarei triste para os amigos verem, e chegada a hora levantar-me-ei e direi:
- Digam-lhe que fui para casa…
Ou…
Ouvirei os teus passos firmes na escada, os teus passos firmes quando chegas, como que a marcar território, como se estivesses certo da minha ânsia de te ver, como se fosses um presente que te dás, tu um presente! Eu só quero a tua ausência definitiva ou o teu corpo sem ti! E ficarás parado esperando que eu te dispa, como se te desembrulhasse, como se fosses mesmo um presente, e dispo-te e olho o teu corpo que quero, e toco o teu corpo que preciso, e ouço a tua voz que odeio e abomino dizer-me coisas que não me interessam nada. Quero lá saber do teu dia! Quero o teu corpo não te quero a ti:
- Cala-te, penso, cala-te, não digas nada, quero matar esta obsessão e esta vontade pelo teu corpo, quero curar-me de ti, cala-te! E faço amor contigo sabendo que é a última vez, e é melhor do que foi na primeira vez, e é melhor do que sempre foi porque te amo, porque te odeio, porque para te apagar de mim tenho de matar-te, ou matar-me-ei de nojo e ódio de mim porque não consigo resistir ao teu corpo, porque não consigo resistir ao teu sexo, e me humilho e me reduzo a carne cada vez que estou contigo, e digo baixinho ao teu ouvido com ódio na voz:
- Hoje matar-te-ei.
E tu dizes:
- Mata-me de amor.
E sento-me no teu colo e bebo do meu copo límpido de certezas, e pego no teu, e dou-te à boca a beber uma vodka com veneno e ódio, o ódio que me tenho do desejo que te tenho, e a certeza que se não te matar morrerei lentamente, e espero que fiques frio, imóvel e calado, finalmente calado. Levanto-me e lavo-me de ti. Olho-te e já nem corpo és, e digo-te sabendo que pela primeira vez me ouvirás sem me interromper
- Eu disse-te que hoje te matava….
Resposta ao Desafio por: Encandescente
Hoje matar-te-ei
Mato-me! (Faço-o em cada espera que adio.)
Mato-nos! (Se não somos corpos geminados, nem raiz à flor da pele, só me resta expungir isto que somos e não somos.)
Mato isto que nos tem. Mato também o que não temos. Mato tudo, gulosa de coisa nenhuma. Mato o desejo. Mato o tempo. Mato o fado. Mato-te matando-me. Mato-nos. Mato a memória. Mato o fim. Mato o início. Mato o meio. Mato tudo de permeio. Mato esta espera desesperada. Mato o não. Mato o sim. Mato o medo. Mato a coragem. Mato tudo. Tudo!
Que adiantava estar aqui, livre, a dar-me por inteiro, se não terraplenasse toda a história? Que adiantava querer renascer se não enterrasse o que foi? Que adiantava querer-te sem ser esta folha rasa de coisa nenhuma, pronta a ser manuscrita de números mínimos e máximos em cada linha, como que tabelada num qualquer auto-de-fé? Que adiantava querer-me sem ser folha em branco? Que adiantava querer-te morto de desencontros, preenchido de intermitências?
Não consigo? Pois já sei… Mas ainda assim mato-me. Mato-te. Mato-nos. E nos teus braços sou criança ainda, no teu corpo sou gestação.
Matei-nos? Não! Renasci-nos...
Resposta ao Desafio por: Hipatia
abril 27, 2007
Tracei o teu destino !
Resposta ao Desafio por : Peciscas
Resposta ao Desafio por: Psique
abril 24, 2007
abril 23, 2007
Dia Mundial do Livro (2)
Bernardo Soares in: Livro de Desassossego
"Ler é esquecer. A Leitura é a maneira mais agradável de ignorar a vida"
Finúrias
Dia Mundial do Livro
é caso para dizer: Portugal no seu melhor
Portugal no seu melhor
“Agora mandaram-me pra casa. Isto tá tudo ruim im todo lado, eu sei lá menina, se são os chineses ou se é o caralho, a menina desculpe lá mas eu num sei, eu num sei que bolta deu aqui...”
"A casa da minha neta esteve em perigo de vida. Isto é um pé de mónio!"
" - Então e quanto gasta em mercearia por mês?
- Ai eu sei lá... são mais de 500 euros que fodo..."
“- Conte lá como se conheceram ?
“Ando aqui à 39 anos, bim da tropa, conheci aqui a minha esposa, olhei pra ela, gostei e disse : “bou-te comer”, e comi “
“- O fogo está a crescer e está a cerca de 5, 10 metros de sua casa ?
“Tá...não. Tá, tá e bou sair bou abandonar, que tenho uma consulta agora às cinco e meia...é assim.”
“Os homes ganham dez, as mulheres fodem binte. Quem tem culpa caralho ! As cagalhonas que bão trabalhar asim como uma pessoa...”
“Eu bou-me lá dentro infelizmente eles cagam tudo, as sanitas estão um caos, os senhores biram? Falam em democracia isto num é democracia, isto é uma bergonha pra Portugal”
abril 22, 2007
abril 20, 2007
Quero pensar o passado e esquecer o futuro...
Hoje não quero estar para ninguém.
Quero estar comigo, habituar-me à ideia de que existo.
O telefone está desligado da ficha, se a campainha tocar não atendo. Vou ficar sentado no sofá, a televisão desligada, sem música no aparelho, quieto, sem me mexer, apenas a pensar no passado e a esquecer o futuro. Lá em baixo chamam pelo meu nome, buzinam, atiram pedrinhas à janela, não sabem que eu não estou. Não sabem, mas continuam.
Hoje não estou para ninguém.
Hoje não quero estar para ninguém.
Quero pensar no passado e esquecer o futuro.
Do passado já sinto os cheiros...
Quero fazer casinhas com as peças do dómino.
Quero criar pirâmides com o baralho de cartas.
Quero jogar ao Monopólio, passar pela casa partida e receber 2.000$00, comprar a Rua Augusta e o Rossio para os encher de Hotéis (se bem me lembro o Rossio valia 20 contos!)
Quero comer gelados ás escondidas da Mãe Hortense.
Quero os caramelos que o Pai Albano trazia de Espanha (daqueles moles que não se colam ao céu da boca)
Quero correr atrás da menina (não me recordo do nome dela) a dizer: "ao menos um beijinho...ao menos um beijinho".
Quero ver o Topo Gigio com o meu irmão Filipe, os dois sentados no chão. (Ficávamos mais perto da televisão)
Quero sair à noite com o meu irmão Vitor (ele não deixa, diz que sou pequeno)
Quero tomar banho com os primos no tanque gigante da Tia Cândidinha e apanhar sol em cuecas na varanda.
Quero jogar ao berlinde e à bola com os amigos no parque em frente à casa.
Quero os abraços do pai, quero os beijos da mãe.
Quero o mano Filipe e construir mundos com os legos.
Quero ser o Sandokan
Quero vestir-me de Drácula no carnaval (Ganhei o 1º Prémio – um carro telecomandado e um par de meias. A mãe gostou muito das meias)
Quero aprender a andar de bicicleta e de patins.
Quero tocar cornetas de plástico de todas as cores.
Quero que a mãe nos mande lavar os dentes e que nos mande deitar.
Quero chapinhar os pés numa poça de água em altas gargalhadas.
Quero com o Filipe, escutar as conversas dos mais crescidos. ( não percebíamos as palavras, mas era giro)
Quero ouvir a trovoada lá fora, e ver a mãe cheia de medo com as mãos na cabeça a dizer "Ai, Meu-Deus" (muito me ria)
Quero ir para a escola com o lanche na sacola
Quero...
Hoje não estou para ninguém.
Hoje não quero estar para ninguém.
Quero estar comigo, habituar-me à ideia de que existo.
O telefone está desligado da ficha, a campainha se tocar não atendo.
Hoje quero pensar no passado e esquecer o futuro
Do passado já sinto os cheiros...
-Quero...
abril 19, 2007
Uma crónica corajosa
"O cancro ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me?"
Excertos de "Crónica do hospital", de António Lobo Antunes, publicada no último número da Visão.
Comprem e leiam, sente-se o tremor em todo o texto que não é só do Lobo Antunes, mas de todos os Antónios, Franciscos e Marias que passam pelo mesmo!
abril 18, 2007

Foto: Revelando
Escrevo à noite quando a cidade está calada,
e na noite decoro a cidade com as palavras,
que fazem a nossa história...
abril 17, 2007
Um Sonho...
Não...não vou contar, não vos quero perturbados !
Frase do Dia
De cara lavada...
Mas digam lá se esta cor cócó não é tal e qual a minha cara ?
Obrigado Mushu
(depois pago-te em...géneros, mas isso é uma conversa só nossa)
abril 16, 2007
(imagem da última vez que foi visto em público)
Bem vindo ó...Palhaço
abril 14, 2007
E se quando acabar de coçar o nariz e ele lhe cair? Ganda sorte. Nunca mais vai ter que cheirar a cagadela do gato preto que se dirige para outro lado para disfarçar. À mesa, quando a dona descobre que só tem 12 costoletas, procura logo o bichano, que entretanto deu à soleta porque a dita cuja estava tão salgada, tão salgada que lhe deu a volta à tripa. Eles apertam as mãos por cima da mesa porque não podem apertar o pescoço à dona da casa. Aldra! Antes tivessem ido comer à sogra! O sal que o moçoilo que saiu (o 13º) deitou para trás das costas, foi para não o atirar aos olhos da p...da cozinheira! Nunca mais havia de cozinhar, caraças, tal o ardor nos olhos! Quem lhe mandou ser parvo e ter aceite o convite para jantar?
Reconhecer o número 13 é sinal que ainda há lá no fundo a lembrança da professora que por acaso é a cozinheira que salgou as costoletas, a tal que também era a dona do gato...
Encontrar um trevo de quatro folhas é uma tentativa de tentar purgar-se do mal estar daquele malfadado jantar, dass!!! Foi o marido, o desgraçado, que saiu pelo lado contrário da cama. Olha se ele sai pelo lado dela e a acorda? Ela ainda o obrigava a comer as 11 costoletas que sobraram e aquilo nem para croquetes serve (como se ela soubesse fazer croquetes!!) Bendito vinhaço! Antes a ressaca a lembrar o dito jantar da véspera.
Trazer a pata de coelho no bolso é sinal que no vizinho se comeu um ensopado daqueles! Porque não foram convidados para jantar lá? E eles que tanto insistiram!
Quando três homens acendem os cigarros com o mesmo fósforo estão a ser solidários. A seguir vão pensar na melhor estratégia para matar o raio da velha que tinha um gato que deu de frosques, que se cagou todo por causa duma maldita costoleta tão salgada!
Se, durante o fim de semana, virem uma senhora na padaria a falar com a amiga dizendo que fez um jantar maravilhoso mas que, não sabe porquê, ninguém comeu, e ela que até estava aflita porque eram treze à mesa e o estafermo do gato tirou-lhe uma costoleta e que se ela o apanha ainda o esgana, não acreditem.
Se acreditarem, azar vosso! Seria muito pior do que hoje ser sexta feira 13. Mas, se virem o gato, por favor, digam-lhes que a dona está na padaria.
Que por tudo não se lembre de passar por lá!...
Por: Cris
abril 13, 2007
-Quando uma pessoa tem comichão no nariz, é sinal de que é preciso coça-lo.
-Um gato preto que cruze o seu caminho significa que o animal se dirige para algum lado.
-À mesa, 13 é sinal de má sorte quando a dona de casa dispõe apenas de 12 costeletas.
-Apertar as mãos por cima da mesa significa que as 2 pessoas são preguiçosas.
-Cantar antes do pequeno - almoço é prenúncio de uma discussão com um vizinho - se este pretendia dormir até tarde.
-Atirar sal para trás das costas pode dar a impressão de que quem o faz tem caspa.
-Reconhecer o número 13 é indício de que se frequentou a escola.
-Encontrar um trevo de 4 folhas é sinal de que se andou de gatas.
-Sair da cama pelo lado contrario significa, provavelmente, que se bebeu demasiado na véspera.
-Trazer uma pata de coelho é sinal de que se é bom atirador - ou se tem um amigo que o é.
-Quando 3 homens acendem os cigarros no mesmo fósforo, tal facto indica que têm apenas um fósforo ou que são escoceses.
A Sexta-feira ainda não terminou, se não vos acontecer nada entretanto, possivelmente acontecerá durante o fim de semana...eu sei do que falo, garanto-vos !
abril 12, 2007
Depois da crónica “Elogio do subúrbio” do António Lobo Antunes, que eu aqui postei ! Deixo-vos agora com o "mesmo subúrbio” (em tom de carta ao António), por: (RAP) Ricardo Araújo Pereira. Um subúrbio de hoje, que segundo o Ricardo, na época do António era bem mais bonito, e tinha gajas mesmo mesmo boas !
Boa leitura
Quando eu era pequeno também vivia em Benfica, António, mas já não vi nada do que tu contas. Nem quintinhas, nem casas baixas, nem o cheiro dos cabedais do sapateiro (a gente já nem ia ao sapateiro: quando os sapatos se estragavam, iam para o lixo - e o lixo, parecendo que não, tem muito menos graça que a loja do sapateiro, além de que cheira pior) nem senhoras beatas que transportam a Sagrada Família numa caixa, de casa em casa (aliás, no meu tempo, nenhum desconhecido nos visitava a casa, excepto três senhores encapuzados que, uma noite, passaram por lá. Mas também deviam ser gente religiosa porque, apesar de não trazerem a Sagrada Família, levaram um terço de prata da minha mãe) nem acácias, nem cegonhas, nem pavões,
Eu tinha a mercearia do senhor Fernando (a primeira vez que vi um rato foi na mercearia do senhor Fernando, uma ratazana grande e bonita, com um rabo muito comprido e ar feliz. Os produtos do senhor Fernando eram mesmo bons) um maluco que tinha sofrido um desgosto de amor no tempo em que não era maluco (maluco era o que nós lhe chamávamos. Tu, que és médico, provavelmente designá-lo-ias com um termo clínico qualquer, tipo « chalupa », ou assim) seja como for agora era maluco e dedicava-se a recolher papelão e ficava doido ( admitindo que os malucos podem ficar doidos ) sempre que alguém no bairro comprava um electrodoméstico, não saía da porta do prédio, à espera que deitassem fora a caixa de cartão
- Tem caixotes?
estava sempre a perguntar a quem encontrasse na rua
- Tem caixotes?
repara, António, que não te estou a imitar, não repeti a frase para obter qualquer efeito estilístico, o que se passa é que o maluco, coitado, era mesmo muito repetitivo
- Tem caixotes?
olha, lá está ele outra vez
(uma vez, o irmão do maluco, que não era maluco, descobriu que a mulher o enganava e deu-lhe um tiro. E o maluco contou a história e disse, com a sua voz arrastada de maluco:
- O meu irmão é maluco) e além do maluco havia também um bêbado, que dizem que era médico em S. José (uma vez parti a cabeça, fui de urgência para S.José e estive sempre à coca de ver se me aparecia o bêbado, não fosse ele amputar-me uma perna em vez de me coser a cabeça) e havia ainda a senhora da padaria, que acumulava as funções de padeira com porteira do meu prédio e chefe do centro de inteligência da rua. Reunia informações junto de todas as aus congéneres porteiras e relatava uma súmula aos clientes que levassem pão num valor superior a 50 escudos. Uma vez, o marido da porteira, que era da GNR, afixou na entrada do prédio um papel azul de 60 linhas com selos fiscais e tudo, e escreveu à mão a frase «As órdes da porteira são para serem cumpridas». Depois desse dia nunca mais andei de elevador com a porta aberta
E foi essa padeira que, um dia, quando fazia comigo o rescaldo de um erro de um certo Dínamo de Kiev-Benfica, disputado na véspera (além de conhecer profundamente a vida dos meus pais e de toda a vizinhança, a padeira também sabia muito de futebol) me respondeu, na altura em que eu manifestei preocupação pelo facto de o Rui Águas ter partido um pé:
- Ai partiu? É que eu julgava que fosse fractura.
Foi nesse momento que eu decidi que ia escrever textos humorísticos, e que um dia haveria de inventar alguma coisa tão engraçada como «Ai partiu? É que eu julguei que fosse fractura». Ainda espero por esse dia. E é capaz de ser por isto, António, por tu teres vivido num subúrbio muito melhor que o meu, que hoje és um grande escritor e eu sou só um palerma. Assim não vale, pá.
Ricardo Araújo Pereira
abril 11, 2007
“Dois terços das pessoas que fazem dieta ganham mais peso do que aquele que perderam em cinco anos” (estudo publicado na American Psy Journal)
"Come para viver, pois não vives para comer"
Meus Amigos(as), podem já largar as Dietas, os ginásios e as caminhadas, porque a vossa Gordura não tem cura. Julgam que estão no séc. XVI, onde a Gordura era Formosura !?
A fórmula “gordura é formosura” já passou à história !
Cuidem-se...não comam !
Ou sejam Felizes como as minhas Amigas !
abril 10, 2007
"Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo
- Vííííííííítor
num grito que, partido da Rua Ernesto da Silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos. Cresci junto ao castelito das Portas que nos separava da Venda Nova e da Estrada Militar, num país cujos postos fronteiriços eram a drogaria do senhor Jardim, a mercearia do Careca, a pastelaria do senhor Madureira e a capelista Havaneza do senhor Silvino, e demorava-me à tarde na oficina de sapateiro do senhor Florindo, a bater sola num cubículo escuro rodeado de cegos sentados em banquinhos baixos, envoltos no cheiro de cabedal e miséria que se mantém como o único odor de santidade que conheço. A dona Maria Salgado, pequenina, magra, sempre de luto, transportava a Sagrada Família, numa caixa de vivenda em vivenda, e os meus avós recebiam na sala durante quinze dias essas três figuras de barro numa redoma embaciada que as criadas iluminavam de pavios de azeite. Cresci entre o senhor Paulo que consertava com guitas e caniços as asas dos pardais, e os Ferro-O-Bico cuja tia fugiu com um cigano e lia a sina nas praias, embuçada de negro como a viúva de um marujo que nunca deu à costa. Os meus amigos tinham nomes próprios tremendos
(Lafaiete, Jaurés) e habitavam rés-do-chão de janelas ao nível da calçada onde se distinguiam aparelhos de rádio gigantescos, vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. O cão da fábrica de curtumes acendia latidos fosforescentes nas noites de julho, quando o pólen da acácia me chovia nas pálpebras, eu, morto de amores pela mulher do Sandokan, descobria-me unicórnio trancado na retrete da escola, e o brigadeiro Maia, de boina basca, descia à Adega dos Ossos a gesticular contra o regime. Na época em que aos treze anos me estreei no hóquei em patins do Futebol Benfica, o guarda-redes enchumaçado como um barão medieval apontou-me ao pasmo dos colegas
- O pai do ruço é doutor
no que constituiu de imediato a minha primeira glória desportiva e a primeira tenebrosa responsabilidade, a partir do momento em que o treinador, a apalpar-me os músculos com os olhos, preveniu numa careta de dúvida
- Sempre estou para ver se lhes chegas ó ruço que o teu pai no ringue era lixado para a porrada.
O dono da Farmácia União jogava o pau, a esposa do proprietário da Farmácia Marques era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me fazia esquecer a mulher do Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o Papagaio Loiro na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava « Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?», e eu escrevia versos no intervalo do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava o Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.
Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, nenhuma cegonha na palmeira dos Correios
(já não existe a palmeira dos Correios, a quinta dos Lobo Antunes foi vendida)
o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob as marquises e sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota de vivenda em vivenda com a Sagrada Família na sua redoma embaciada, o Lafaiete e o Jaurés jogam ao virinhas na Calçada do Tojal cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há pavões nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o Papagaio Loiro no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que junto do seu tronco, se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe chamar
- Antóóóóóóóónio
e um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver e sumir-se-á lá em cima no quarto, a sonhar que ao menos a mulher do Sandokan não o obrigaria nunca a comer puré de batata nem sopa de nabiças durante o tormento do jantar."
António Lobo Antunes In: Livro de Crónicas
( As crónicas do António têm o poder de encantar...pelo menos a mim!)
No teman nada
Gentes honestas y ejemplares
No hay peligro
Sus muertos están bien muertos
Sus muertos están bien guardados
No hay nada que temer
No se los pueden sacar
No pueden salvarse
Hay guardianes en los cementerios
Y también
Alrededor de las tumbas
Como alrededor de las camas-jaulas
Donde duermen los chicos de poca edad
Y es una precaución sabia
En su último sueño
Uno nunca sabe
El muerto podría soñar todavía
Soñar que está vivo
Soñar que no está muerto
Y sacudiendo sus sábanas de piedra
Liberarse
E inclinarse
Y caer de la tumba
Como un niño de la cama
Horror y catacumbas
Recaer en la vida
Imagínense eso
Todo otra vez en cuestión
El afecto y la desolación
Y la sucesión
Tranquilícense buenas gentes
Honestas y ejemplares
Sus muertos no volverán
A divertirse sobre la tierra
Las lágrimas han sido vertidas de una vez por todas
Y ya no habrá
No habrá que volver nunca más sobre eso
Y nada en el cementerio
Será saqueado
Los potes de crisantemos seguirán en su sitio
Y ustedes podrán holgazanear con toda tranquilidad
Con la regadera en la mano frente al mausoleo
En los dulces trabajos campestres del eterno dolor.
(Jacques Prévert - tradução de Rodolfo Alonso)
abril 09, 2007
Duas exposições da autoria do fotógrafo Georges Pacheco a decorrer no Silo-Espaço Cultural do NorteShopping ( Porto)
O Olhar dos cegos
A Memória das Lágrimas
Quero iniciar-me na pintura mas preciso da vossa ajuda. Não sei pintar mas não é isso que interessa, apenas quero lançar tintas na tela e ver a borrada que "Dali" sai. E então depois pode ser, que verdadeiras obras "Dali" nasçam... As energias têm de sair por algum lado, o sexo ajuda mas não sai tudo!!! E estando ocupado sempre ajuda a não pensar, que é uma coisa que me cansa em demasia! (nem vos conto o quanto)
Obrigado e Boa semana
PS- Só quero pintar com tintas acrílicas, manias...










