abril 11, 2007

Café com Aroma

Fiquemos em abraço
na quentura do café
largado nos lábios

Amemos no aroma
que envolve
o nosso espaço

Fiquemos...

abril 10, 2007

Está aí alguém !?
Elogio do subúrbio

"Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo
- Vííííííííítor
num grito que, partido da Rua Ernesto da Silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos. Cresci junto ao castelito das Portas que nos separava da Venda Nova e da Estrada Militar, num país cujos postos fronteiriços eram a drogaria do senhor Jardim, a mercearia do Careca, a pastelaria do senhor Madureira e a capelista Havaneza do senhor Silvino, e demorava-me à tarde na oficina de sapateiro do senhor Florindo, a bater sola num cubículo escuro rodeado de cegos sentados em banquinhos baixos, envoltos no cheiro de cabedal e miséria que se mantém como o único odor de santidade que conheço. A dona Maria Salgado, pequenina, magra, sempre de luto, transportava a Sagrada Família, numa caixa de vivenda em vivenda, e os meus avós recebiam na sala durante quinze dias essas três figuras de barro numa redoma embaciada que as criadas iluminavam de pavios de azeite. Cresci entre o senhor Paulo que consertava com guitas e caniços as asas dos pardais, e os Ferro-O-Bico cuja tia fugiu com um cigano e lia a sina nas praias, embuçada de negro como a viúva de um marujo que nunca deu à costa. Os meus amigos tinham nomes próprios tremendos
(Lafaiete, Jaurés) e habitavam rés-do-chão de janelas ao nível da calçada onde se distinguiam aparelhos de rádio gigantescos, vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. O cão da fábrica de curtumes acendia latidos fosforescentes nas noites de julho, quando o pólen da acácia me chovia nas pálpebras, eu, morto de amores pela mulher do Sandokan, descobria-me unicórnio trancado na retrete da escola, e o brigadeiro Maia, de boina basca, descia à Adega dos Ossos a gesticular contra o regime. Na época em que aos treze anos me estreei no hóquei em patins do Futebol Benfica, o guarda-redes enchumaçado como um barão medieval apontou-me ao pasmo dos colegas
- O pai do ruço é doutor
no que constituiu de imediato a minha primeira glória desportiva e a primeira tenebrosa responsabilidade, a partir do momento em que o treinador, a apalpar-me os músculos com os olhos, preveniu numa careta de dúvida
- Sempre estou para ver se lhes chegas ó ruço que o teu pai no ringue era lixado para a porrada.
O dono da Farmácia União jogava o pau, a esposa do proprietário da Farmácia Marques era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me fazia esquecer a mulher do Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o Papagaio Loiro na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava « Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?», e eu escrevia versos no intervalo do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava o Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.
Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica. Os pavões calaram-se, nenhuma cegonha na palmeira dos Correios
(já não existe a palmeira dos Correios, a quinta dos Lobo Antunes foi vendida)
o senhor Silvino, o senhor Florindo e o senhor Jardim morreram, ergueram prédios no lugar das casas, mas eu suspeito que por baixo destes edifícios de cinco e seis e sete e oito e nove andares, num ponto qualquer sob as marquises e sucursais de banco, o senhor Paulo ainda conserta, com guitas e caniços, as asas dos pardais, a dona Maria Salgado ainda trota de vivenda em vivenda com a Sagrada Família na sua redoma embaciada, o Lafaiete e o Jaurés jogam ao virinhas na Calçada do Tojal cercados de vasos de manjerico e madrinhas de chinelos. Não há pavões nem cegonhas e contudo a acácia dos meus pais, teimosa, resiste. Talvez que só a acácia resista, que só ela sobeje desse tempo como o mastro, furando as ondas, de um navio submerso. A acácia basta-me. Arrasaram as lojas e os pátios, não tocam o Papagaio Loiro no sino, mas a acácia resiste. Resiste. E sei que junto do seu tronco, se fechar os olhos e encostar a orelha ao seu tronco, hei-de ouvir a voz da minha mãe chamar
- Antóóóóóóóónio
e um miúdo ruço atravessará o quintal, com um saco de berlindes na algibeira, passará por mim sem me ver e sumir-se-á lá em cima no quarto, a sonhar que ao menos a mulher do Sandokan não o obrigaria nunca a comer puré de batata nem sopa de nabiças durante o tormento do jantar."

António Lobo Antunes In: Livro de Crónicas

( As crónicas do António têm o poder de encantar...pelo menos a mim!)
NADA QUE TEMER

No teman nada
Gentes honestas y ejemplares
No hay peligro
Sus muertos están bien muertos
Sus muertos están bien guardados
No hay nada que temer
No se los pueden sacar
No pueden salvarse
Hay guardianes en los cementerios
Y también
Alrededor de las tumbas
Como alrededor de las camas-jaulas
Donde duermen los chicos de poca edad
Y es una precaución sabia
En su último sueño
Uno nunca sabe
El muerto podría soñar todavía
Soñar que está vivo
Soñar que no está muerto
Y sacudiendo sus sábanas de piedra
Liberarse
E inclinarse
Y caer de la tumba
Como un niño de la cama
Horror y catacumbas
Recaer en la vida
Imagínense eso
Todo otra vez en cuestión
El afecto y la desolación
Y la sucesión
Tranquilícense buenas gentes
Honestas y ejemplares
Sus muertos no volverán
A divertirse sobre la tierra
Las lágrimas han sido vertidas de una vez por todas
Y ya no habrá
No habrá que volver nunca más sobre eso
Y nada en el cementerio
Será saqueado
Los potes de crisantemos seguirán en su sitio
Y ustedes podrán holgazanear con toda tranquilidad
Con la regadera en la mano frente al mausoleo
En los dulces trabajos campestres del eterno dolor.

(Jacques Prévert - tradução de Rodolfo Alonso)
Voltando ao Post de ontem...

Onde está a porcaria das dicas !!?

(Estais todos a dormir, dasss...)

abril 09, 2007

Não deixem de ir Ver

Duas exposições da autoria do fotógrafo Georges Pacheco a decorrer no Silo-Espaço Cultural do NorteShopping ( Porto)

O Olhar dos cegos

A Memória das Lágrimas
Venham de lá as vossas dicas, por onde hei-de começar ?

Quero iniciar-me na pintura mas preciso da vossa ajuda. Não sei pintar mas não é isso que interessa, apenas quero lançar tintas na tela e ver a borrada que "Dali" sai. E então depois pode ser, que verdadeiras obras "Dali" nasçam... As energias têm de sair por algum lado, o sexo ajuda mas não sai tudo!!! E estando ocupado sempre ajuda a não pensar, que é uma coisa que me cansa em demasia! (nem vos conto o quanto)

Obrigado e Boa semana

PS- Só quero pintar com tintas acrílicas, manias...

abril 07, 2007

Abençoada Páscoa...

abril 05, 2007

O Regresso...

Tentei rebocar os meus pés até ao fim do mundo, como eles não me acompanharam...voltei !
Partindo, ficando...

Porque se parte sempre, mesmo ficando ?
Porque se fica sempre, mesmo partindo?
Vontades...

Gostava tanto de morrer a dormir...tal e qual o meu Avô. E não a gritar como os passageiros da camioneta que ele ía a conduzir.

abril 01, 2007

março 30, 2007

Com esta chuva, só apetece cantar..


Bom fim de semana

Paneleiragem no Futebol

Simão e Quaresma abraçam-se no avião

Tomai a Verdade

"Ah... Os olhares incomodados, escandalizados, quando se diz a verdade feia e comum mas que todos calam..."

Sigo o traço
abstrato
imaginado
na calçada da mente...

Traço recto
ligeiramente ondulado
contínuo
ténue
quase mancha

Sigo a mancha, abstrata, imaginada, na calçada da mente...

Convite

Sábado, 31 do corrente pelas 21h30, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de S. Mamede de Infesta, para participarem na apresentação do 1º volume da ANTOLOGIA de poesia, DezSete iniciativa da Edium Editores

Até lá

março 29, 2007

Interrogações

Será a fronteira entre o que vemos, fazemos e dizemos, e o que imaginamos o que fazemos, vemos e dizemos, tão ténue que em certas circunstâncias o espírito se deixa iludir, enganar ?
Leituras

“O cabrãozito do puto continua a fugir-me, a rebelar-se (tal pai tal filho). Com desvairadas manhas e mentiras. Veremos as que hoje me traz, pois agora não o largo debaixo de olho. Mandei-lhe de manhã ir levantar o depósito duma garrafa (2$00, se tanto) ali ao supermercado e levar-me depois a massa à paragem dos autocarros. Fazer as nossas camas, depois. Nada. Logo, se não arranja desculpa, álibi que preste, ponho-o a jejum – o que até convém porque o dinheiro nicles.”

In: “Diário Remendado” (1971-1975) Luiz Pacheco
Pensamentos
"Merda para o Sol...nunca mais chove !"

março 28, 2007

Fnac...

Hoje ao ler um post da Psique ,
veio-me à memória, uma situação também passada no mesmo sítio...

Certa vez meti-me com uma bela moça, daquelas mesmo belas. Estava sentada no café da Fnac, lendo. Embora não seja meu hábito meter-me com quem quer que seja, mas por vezes não se pode deixar fugir a ocasião, o momento era oportuno, eu estava mesmo colado à mesa dela, ambos sós, apenas lendo, e olhando de soslaio de quando em vez. Eu não tinha nada a perder, mesmo sabendo de ante-mão que a coisa ia dar para o torto, porque a sorte nunca está do meu lado nem nunca esteve, muito menos quando se trata “delas”, mas valia a pena arriscar, vale sempre a pena arriscar. Embora tenha sido delicado no trato pois sou um cavalheiro, o resultado foi este:

“Desculpe menina, esse livro tem uma bela passagem a páginas tantas, se achar bem posso ler-lhe!”

Sorriu, e disse baixinho “olhe, vá à merda” continuou a leitura, eu levantei-me e fui...

A verdade é que eu não reparei que livro ela estava a ler, isso também não era o mais importante, caso ela aceitasse o convite para me ouvir ler a “tal passagem”, eu encontraria numa página, qualquer coisa de “belo”!

Desde então tenho tido mais cuidado nas aproximações, porque tenho receio que elas abram demasiado a boca, e isso é desconfortante para mim (desconfortante só nesta situação), por isso estou sempre com um pé atrás, sempre preparado para pôr-me ao fresco. Tenho tido mais sorte nas aproximações com termos bem badalhocos, elas gostam assim. É lamentável que elas já não apreciem o cavalheirismo. É a mudança dos tempos. O meu Avô tinha razão!

março 27, 2007

Dia Mundial do Teatro

Gosto de sair da monotonia da vida, e de entrar neste Mundo fantástico!

Não percebeis nada do que escrevo...

ou estais todos malucos !?

março 26, 2007

Não gosto de dias claros...

(Foda-se, nunca mais muda a hora !!!)