julho 07, 2007

Bom Fim de Semana...




desafio (Texto XIII)

No 52...já ninguém mora !

Cheguei e sentei-me.
Coloquei a mala a meus pés e olhei de frente a casa. Quase nada mudara. Fiquei ali a contemplá-la durante um bom bocado. Parece que o tempo voltara atrás e que ainda via em alguns dos rostos que passavam, as feições de crianças que por ali andavam. O vento soprava de mansinho e o cheiro a Verão invadia o ar. Quase não havia carros ou pessoas na rua. Olhei à minha volta e reparei que cada cantinho daquele largo, escondia um segredo. Sorri. Relembrei o dia em que te encontrei pela primeira vez.
Estava sentada no passeio em frente à minha casa e tu caminhavas do outro lado da rua. Em passos fortes, seguros, compassados. Trazias no rosto a calmaria de uma noite de Verão. Olhei-te e perdi-me na imensidão do teu ser. Não consegui tirar os olhos de ti. Continuaste caminhando e a certa altura paraste e olhaste-me de soslaio. Fingi que não vi. Apercebendo-te do meu pouco à vontade, viraste-te para mim e sorriste. Fui incapaz de não te sorrir. A rebeldia das águas do mar em dias do mais rigoroso Inverno, estava agora no meu peito. Senti-me voar. Quis dizer-te Olá, mas a minha boca recusou a mexer-se e os lábios a colaborar. Continuaste a andar. No dia seguinte, no outro, no outro e no outro, esperei-te. Não vieste. Por força do destino, 3 meses depois fomos obrigados a mudar de casa. Estive fora do país 10 anos.
A única coisa que sabia era que moravas no n. 52 da Rua das Papoilas. Durante todo esse tempo perguntei-me por ti. Onde estavas? Como? Terias mudado? Já não terias aquela farta cabeleira loura? Apercebi-me que fazias parte de mim, como nenhuma outra pessoa. Adormecia e acordava a ver-te sorrir. Há um mês, decidi voltar e procurar-te. Trouxe as malas cheias de saudade e aqui estou; no mesmo largo, a contemplar a tua casa e a ganhar coragem para ir bater na tua porta...para te dizer olá. Atravesso a estrada e respiro fundo. Levanto a mão de punho fechado e bato à tua porta. Uma velhinha da casa ao lado, vem à janela e pergunta:
-Oh menina, quem procura?
A família e o menino mudaram-se ontem .
No 52...já ninguém mora!

Texto enviado por: Senhora do Vento

julho 05, 2007

Desafio (Texto XII)

No 52...já ninguém mora !

Estando eu caminhando, na rua, em direcção a um encontro importante e embranhado em pensamentos e ideias, oiço uma voz idosa chamar, Se o jovem não se importava de dar uma ajudinha, voz essa cuja origem demorei ainda um instante a descobrir.
- Deparei-me com um senhor de óculos de um amarelo escuro, já quase plenamente calvo, com aspecto cansado, e estranhamente envergando uma abundância de agasalho para o tempo de praia que fazia. Apelidou-me de jovem pois já devia ter percorrido uns setenta anos, e indagou-me acerca da localização do Centro de Pesquisas Farmacêuticas e Químicas. Acrescentou, Sei que é por aqui mas um rapaz fez-me já andar às voltas com o que me indicou, disse-me que era para esse lado, e o malfadado homem apontou para o sítio de onde vim. Eu disse, É verdade, pode-se ir por lá, mas venha comigo que é mais perto por aqui, e vou lá passar. Ofereci-me também para levar o mais pesado dos sacos que carregava, ao que acedeu. Lá dentro iam batatas.
- Já antevia um passeio silencioso dado o evidente carácter pacato do meu interlocutor, mas porém assim não foi. Antes contou-me que a sua demanda era quase sem esperança. Por morar num lugar junto de uma descuidada fossa séptica a céu aberto, a sua saúde ter-se-ia degradado. De médico em médico, hospital em hospital, e já neste centro de investigação de farmácia tinha buscado auxílio em vão. Queixava-se há anos de um frio imenso e petrificante dentro de si, É por isso que ando devagar. Explicou-me que ninguém lhe detectava o problema que, Pode ser a nível capilar, sim, mas de certeza que é na minha pele, pois se vivo naquelas condições sanitárias!. Isto dizia debalde aos doutores, que o rechaçaram sempre, sempre ignorado. Mesmo eu só lhe soube dizer, entre as suas frases, que o que ele pensava tinha lógica, que o seu mal era por demais estranho, e que fazia bem buscar apoio em sítios diferentes.
- Condescendente das minhas réplicas inconsequentes, continuou o seu relato, explicou como tinha sido despedido de um emprego estável na junta de freguesia, onde não suportava estar no inverno ao ponto de congelar; como tinha acompanhado o frio cancro que lhe tomou a esposa, que viu friamente morrer, pleno de frio. De tudo isso sobrou o frio, confessou-me, e olhou absorto o caminho.
- De súbito, levou as mãos a um saco e mostrou-me o seu conteúdo, visto que eu era um "jovem que parecia compreender". Tinha uma série de objectos oriundos da fossa. Desabafou, Se pudesse até fazia com que analisassem as minhas roupas, a ver se não encontravam magotes de gases! E de novo se calou.
- Como faltasse ainda um pouco de caminho, e presumia que o silêncio iria entristecer o meu companheiro aflito de memórias, perguntei onde ele morava, ao que me respondeu, Na Pontinha, essa bela terra, com desapontamento na voz. Admirei-me, e foi quase com um inapropriado entusiasmo que lhe revelei que já lá tinha morado uns anos, na avenida dos Bombeiros Voluntários. Esses são outros, reclamou, ligando para lá, eles analisam o perigo da fossa, mas calam-se quando pergunto porque não lhe arranjam solução. Se já lá morou talvez conheça então a tristeza do beco das Fontanelas... Pergunto se lá morava há muito. Fez um silêncio como quem chama a atenção ao que vai ser dito, e seco, de orgulho e impotência, exclamou, 40 anos.
- Quase chegados ao seu destino, perguntei-lhe se alguém o aguardava no centro, ao que ele replicou que, Não, venho com Deus ou com o Diabo. Parados à entrada que lhe indiquei, esfregou a cara e, encarando-me, prosseguiu a reflexão, Se mesmo o amigo me ajudou a vir até aqui, e eu retribuiria se pudesse, porque é que não há uma única alma que olhe para o meu caso? E, depois de uma pausa breve: Porque é que nós não podemos viver em paz?
- Desejando o melhor para o outro, despedimo-nos, balbuciei algo contra o egoismo humano, e de tão estupefacto só depois me lembrei da pessoa que me esperava, e só mais tarde ainda reparei que tinha inadvertidamente privado o homem do seu saco de batatas!

No dia seguinte, procurei à hora do jantar a moradia do malogrado senhor, que tinha ficado agradecido apenas por lhe ter indicado o caminho e com ele ter conversado durante uns minutos. O que para mim tinham sido breves instantes, teriam talvez sido bem mais na sua idosa mente, bastante sensível a quem quer que lhe desse atenção, neste mundo. E tendo também isso em conta não poderia nunca deixar de lhe entregar as devidas e esquecidas batatas.
- Descobri o beco que antes tinha enganosamente admitido conhecer, após reviver velhas sensações de quando era ali morador, inocente de todas as reviravoltas que a vida tem para toda a gente. O beco era consideravelmente grande, com prédios baixos, desiguais e afastados, notando-se um cheiro nauseabundo que não esperava encontrar, mas que seria de esperar se me recordasse apenas das palavras do velhote. O sítio estava deserto, mas ouviam-se algumas pancadas, lentas, arrastando-se tarde fora e secas. Reparei que provinham de um indivíduo de boné, tichârte e calças sujas que, paciente, pregava umas tabuinhas na porta de uma casa velha, caindo aos bocados. De repente, levantou um vento inesperadamente frio, não forte, mas penetrante e incomodativo. Aproximei-me e encarei o sujeito do martelo, a quem perguntei onde habitava o senhor, o qual tentei descrever da melhor forma que me era possível. Ele pareceu não reagir, não colaborar. Decidi-me a acrescentar, numa última tentativa, o que se revelou a característica decisiva, Um senhor que tinha uma estranha doença que o fazia ter frio a toda a hora, disse eu atabalhoado. A isto, ele olhou-me pela primeira vez e disse, Ah, procura o Baltasar, chamavam-lhe o Baltasar do gelo. Ele vive aqui, é engraçado. Ou pelo menos vivia, hoje de manhã finou-se. Houve um incêndio grave na cozinha que o levou. Agora aqui no 52... já ninguém mora.
- As palavras ressoavam nos meus ouvidos quando me afastava, senti o peso das batatas e perguntei-me sobre a importância que afinal uns meros quilos de batatas podem ter neste mundo, se no tempo de os transportar ao outro lado da cidade, morre uma pessoa.
Tomou conta de mim um grande lamento, mas descansei quando imaginei o senhor Baltasar perante as fortes, laranjas, quentes labaredas, sorrir pela primeira vez desde que perdeu a mulher, sentir pela primeira vez a pele desde que perdeu a saúde. O senhor Baltasar enfrentando, entregando-se à chama, a única que nos últimos anos de vida o compreendeu e aqueceu.
- Atirei-me num passo mais ritmado e segui o meu caminho.

Texto enviado por: SilentFreak

Divagações (Identidade)

Não escrevo para saber quem sou, mas sim para saber no que me estou a transformar !

Ditos...

" A sorte do Governo é que, se a Europa correr mal, o campeonato de futebol começa já para o mês que vem."

(Fernando Sobral - Jornal de negócios)

julho 04, 2007

O Mistério do Nº 52

Não sei se conseguirei escrever aqui o que se passou ou o que ainda se passa no famoso nº 52. Mas sou o único que o pode fazer. Todos os outros estão mortos ! O diário em meu poder é a prova disso mesmo. Mais tarde ou mais cedo acabarei por contar, e acabarei por ter o mesmo fim. Por agora, que perdure o mistério durante mais algum tempo para quem lá passa, e que todos continuem a pensar que no 52...já ninguém mora ! (os cadáveres lá continuam a aparecer, um a um, sem sinal algum de violência...)

Desafio (Texto XI)

No 52...já ninguém mora !

Uma sexagenária habitante de Alfama, no nº 52 da Rua da Regueira, foi ontem roubada e violada por um indíviduo que de acordo com a Polícia Judiciária se pôs em fuga após ter perpetrado os crimes. De acordo com testemunhas oculares, estava a D. Lucinda à sua porta a limpar a gaiola do canário que lhe alegra os dias e apareceu-lhe um homem bem posto, uma estampa de homem mesmo, a dizer que precisava de verificar as ligações do gás natural e com umas falas tão meigas que até lhe elogiou os cabelos todos branquinhos que está bom de ver, menina, ela o deixou entrar sem alarido nenhum. O sujeito era um finório e mal se viu lá dentro pôs-lhe as mãozinhas no ombros, apertou como tenazes e perguntou o lugar do dinheiro como se os poucos mais de 200 euros que ela recebe de reforma dessem para arrecadar em algum lugar. Aquele malandro, que não tem outro nome, irritou-se e sacou-lhe o lenço que lhe cobria os ombros e amordaçou-a e ainda a empurrou contra a mesa que ela tinha no meio da saleta sempre com uma jarrinha de flores e depois, desatou a abrir portas e gavetas num alvoroço que se devia ouvir no fundo da rua. Mas bem vê a menina que ali somos só velhotas sem ninguém e sem forças para fazer fosse o que fosse. Danado que estava atirou-se a ela e rasgou-lhe a blusa e a saia à custa de muito murraça, daquelas que ecoam prédio acima e, grande sacana, pôs-se nela à força que era coisa que ela já não julgaria possível desde que o seu falecido tinha ido, vai para mais de dez anos. E depois aquela coisa horrível que não vi, mas ó menina, ouvi os polícias que aqui estavam dizerem que ela morrera asfixiada que aquele canalha, não satisfeito, meteu-lhe o coiso ainda a pingar pelas goelas adentro e ela nem forças teve para o morder todo e arrancar-lho em pedaços que era o que ele merecia e ficou-se ali como um passarinho. Agora o senhorio é muita gente que está em partilhas e depois querem vender isto por andares e no 52 que era só o rés-do-chão dela, já não mora ninguém.

Texto enviado por: maria_arvore

Desafio (Texto X)

No 52...já ninguém mora !

E, sim, era como um suspiro esta coisa de lhe bordejar a porta pela noitinha e tentar ainda sentir o cheiro a leite-creme queimado com um velho ferro de passar a ferro. Como no tempo em que nos abria a porta de mansinho, puxando o nagalho ao cimo da escada que destrancava a velha fechadura enferrujada. Ou de quando lhe saltávamos ao quintal atrás dos magnórios e das peras e ela fazia de conta que não sabia que estávamos lá. Ou de quando nos contava histórias do fantasma que habitava a casa, morava lá no sótão e só descia pelas vésperas para ajudar a pôr a prece em dia. Ou então de como tinha sido o tempo em que ali havia uma família e gente que se beijava e abraçava pelo correr das horas, enquanto pelos velhos corredores ainda havia passos pequeninos a dizer que a vida havia de continuar para além das vidas que partiam. Ou de quando enfim deixou de poder estar sozinha e afinal parecia que já ninguém tinha espaço para ela e como foi mirrando ao cimo das escadas, à espera que pela noitinha alguém viesse espreitar-lhe as cores e o estado e as maleitas. E depois, quando partimos a estudar longe e já ninguém lhe bordejava a porta, deixou-se ficar cada vez mais sozinha e já nem o velho fantasma lhe fazia companhia nas ladainhas. Morreu sozinha ao cimo das escadas, amparando a solidão de tia velha. E foi quando ela nos faltou que a casa pareceu pesar-nos uma tonelada de mágoas e já pouco importa que seja nossa. Era nossa antes, quando ela lá estava, com os seus fantasmas e as suas histórias. Agora é uma casa que nos tem, mas onde não pertencemos. A casa que herdamos, mas não merecemos. E mesmo quando puxamos o nagalho ao cimo da velha escada rangente para deixar que a porta se abra, ainda assim a escada queixa-se como se nos dissesse que não somos de lá. E é por isso que voltamos a fazer leite-creme queimado – que nunca vai saber ao mesmo – e replantamos a nespereira e a pereira do jardim. Mas até os frutos sabem diferente. E não há vésperas, claro: nenhum de nós aprendeu a rezar de forma a que até os fantasmas nos seguissem as preces. E a tia-avó partiu e não deixou fantasma. E mesmo que haja gente pela casa, no 52 já ninguém mora.

Texto enviado por: Hipatia

julho 02, 2007

Ser x estar

Desafio (Texto IX)

"No 52...já ninguém mora !"
Participem e divulguem
Enviem os vossos textos para:
O gato parou de repente e o rato aproveitou para fugir,
Fizeram o que faz toda a gente
Evitaram passar em frente,
Que daquele local, daquela soleira,
Nada de bom nunca viera ou houvera de vir.
No bairro de São Nicolau toda a gente conhece a Azinhaga do Mijo,
E a casa amaldiçoada fica no centro
Da antiga e outrora afamada Azinhaga,
Amedrontando quer homens quer bichos.
Mil e uma histórias se contam de boca em boca
Sobre o que aconteceu,
A quem àquela porta parou
E de como ficou
Quem àquela porta bateu.
Leonor costureira e Zé do Pêxe
Foram os últimos que lá moraram,
E foi a lascívia dela e os ciúmes do Zé
Que as pragas e maldições provocaram.
Um dia chegado da faina o Zé do Pêxe foi um banho tomar,
A mulher fazia um cortinado comprido
Com tanto e tanto tecido
Que dela só os braços e a cabeça
Dava para vislumbrar.
Do banho o Zé gritava:
- Oh mêlherrr aonde tá a porra da toalha?
Mas Leonor envolta no cortinado
Entretida e absorta
Não ouvia nada de nada.
Aparece na sala o Zé com o peixe de fora
Escorrendo água, zangado:
- Nã tenho toalha nem prra secarrr o pêxe.
Seco-me mesmo à merrda do corrtinado.
Leonor deu um grito mais que aflito:
- AI ZÉ! O CORRTINADO NÃO!
Mas já ele o puxara e ficara varado
Boquiaberto, o cu descoberto
Sentado
Caído no chão.
Debaixo dos panos de pernas abertas
Leonor estava nuinha em pêlo,
E entre as pernas escondia-se o rosto
Daquele ou daquela que a devorava
E de quem só se via o cabelo.
- Ah cabrra que m'apanhas no marr
E metes logo outrro gajo cá dentrroo.
E o Zé num repente pega no facalhão
E espeta-o nas costas da costureira
Que gostava de misturar
Que gostava de juntar
Trabalho com brincadeira.
Eis que de entre as pernas da já defunta
Um vulto gritando se ergueu,
Era a Cecília, beata convicta,
Mulher muito séria,
Mãe de cinco filhos,
Casada com o Matateu.
Cecília chorando e gritando arranca das costas do seu amor,
O facalhão que o maldito
Espetara tão fundo e tão mortalmente,
Como era agora a sua dor.
Tresloucada empurra o Zé num repente
Fazendo-o ficar caído no chão,
Agarra-lhe o peixe pelas guelras
Corta-o bem rente,
E agita no ar o facalhão.
E roga a praga que dita a sorte da casa
E lança para os ares a maldição:
- Todos os homês qu'aqui entrrarrem
Capados e êmpetentes, oh Zé do Pêxe
Como tu ficarrão.
E deitando-se junto à amada
Espeta no peito o facalhão.
Na Azinhaga do Mijo ecoa ainda a maldição,
E ao passar em frente à porta
Não há macho valente
Seja bicho ou seja gente,
Que não corra com medo de ficar impotente.
E quando quem do drama não sabe
Comenta olhando a soleira tão suja:
- Há gente muito porrca e com falta de cuidado.
Já virram a merrda, o lixo acumulado,
Ninguém alimpa aquela porra?
Há sempre alguém que baixinho, a medo,
Responde tremendo como que em segredo:
- Pssiuu…Nã fales tã alto. Nã m'alembres disso agorra.
O númarro 52 tá fechado,
Há muita tempo ninguém lá mórra.
Texto enviado por: Encandescente

Desafio (Texto VIII)

No 52… Já ninguém mora !

Quando fui morar para aquela rua antipatizei de imediato com aquela figura. Um homem, já idoso, que passava tardes inteiras à janela. Cataloguei-o de imediato como o "alcoviteiro" do bairro, aquele a quem não escapa o menor acontecimento. Claro que a mulher que tinha acabado de se mudar sozinha para o prédio perto do seu lhe aguçava a curiosidade mas, de início ignorei-o. Com o passar do tempo acabei por me habituar à sua presença constante na janela. Começou por me cumprimentar com um aceno de cabeça de cada vez que eu regressava a casa ao final de um dia de trabalho e, lentamente deixei-me conquistar pelo Sr. João – era este o seu nome. Aparentemente o Sr. João tinha o dom de adivinhar os dias em que eu chegava "menos bem", pois era precisamente para esses dias que reservava o elogio mais rasgado, o cumprimento mais efusivo. Aos poucos acabei por ficar a saber a história da sua vida, o passado de boémio e "bon vivant" ainda tão presente nos olhos marotos, a vida como ferroviário, o casamento, os filhos e os netos. Em resumo, o Sr. João tornou-se uma parte da minha rotina diária. Um dia, ao chegar a casa mais tarde do que era habitual, estranhei a janela fechada, as persianas corridas. Atribui o facto ao adiantado da hora e, porque tinha amigos à espera para um fim de semana prolongado, parti sem demoras e confesso, sem pensar mais no Sr. João. Quando regressei, 4 dias mais tarde, soube o porquê da janela fechada e da persiana corrida. O Sr. João tinha sofrido um AVC fatal, tendo falecido na mesma tarde em que lhe estranhei a ausência. Agora os meus finais de dia não têm a mesma cor, regresso a casa por um caminho diferente e mais longo. Porém, esse caminho evita que passe pela janela do Sr. João... Porque afinal, no 52... já ninguém mora!!!

Texto enviado por: Atlantys

Desafio (texto VII)

Passei naquela rua vezes sem conta, e sempre que passava no número 52, o aroma a café, o som do piano, faziam-me ficar sentada em frente, na soleira, a deliciar-me com a imaginação...
Imaginava que naquela casa vivia alguém tão belo como a música que entoava sempre que por lá passava, imaginava que ele tocava para a sua amada e que no fim ela lhe retribuía a gentileza com um beijo e um abraço. A minha família mudou-se e deixei de passar pelo número 52. Anos mais tarde conheci quem vivia no nrº 52 da rua de Santiago, a rua dos meus encantos. Era um casal já idoso mas cujo olhar transmitia paz, serenidade e uma bondade extrema. Hoje passei por lá e vi um letreiro “vende-se”... e chorei chorei... pois a música já não entoa, o aroma já não acorda os meus sentidos e no 52 já ninguém mora.

Texto enviado por: Psique

Divagações...

Falta-me tempo. Mas nem eu prório sei para que raio queria o tempo. Não sei o que faria com o tempo, se o tivesse !!

julho 01, 2007

Desafio (Texto VI)

Portas à vida

Fecharam-se os postigos da casa assolarada fruto de um amor ancestral, branca e azul anil pincelada a cal . A janela do quarto traseiro, nunca mais se abriu, nem se viu mais a luz trémula da candeia que sempre acompanhou as noites da nossa vida. As paredes gritaram em silêncio, não se escuta o som firme das horas a bater no relógio de parede colocado ao canto, o único som é um sopro leve de uma brisa gelada que afaga as cortinas de chita, cosidas por ti e ressequidas pelo sol que nos acompanhou os dias e os passos. Sobre a mesa esvoaçam os poemas e os livros que leste horas a fio. Fecharam-se as portas da vida para a rua.. No 52 já ninguém mora!

Texto enviado por: Ailéh

Reflexão...


Não incomodar...

Desafio (Texto V)

Ele há cada uma...

então é assim: o Tozé , sem o saber, descende de uma linhagem de grandes senhores feudais da zona ora abrangida por todo o território entre Póvoa e Braga. Ora como isto de senhores feudais já se perdeu nas brumas, por certo as mesmas ou similares, onde se perdeu o nosso El-Rei D. Sebastião, não tinha ele a mínima ideia, nem seus pais, ou os pais de seus pais, nem sequer os pais destes últimos e por aí fora. Se tal se deveu ao esquecimento dos ramos e laços familiares entre si, ou a fortes desavenças nunca mais comentadas, como é norma entre pessoas de bem, é coisa que agora será apurada, por natural curiosidade. Aconteceu que lhe apareceu, nada mais, nada menos do que um notário à porta, acompanhado de seu escrivão como noutros tempos se fazia, a entregar-lhes documentos lacrados, herança de terras, casa e baldios, testamentados da actualidade e acreditados, confirmados, com cartas reais, com reais lacres seladas , do reinado de D. Afonso VII. Ora o nosso amigo Toze, que é republicano, dono de seu nariz, opiniões e pouco mais que com o muito trabalho se alcança neste nosso país, desconhecia por completo este ramo, estes parentes nobres e ricos, que isto de heranças, bem o sabeis vós, era aos primogénitos que todo o património cabia e sempre cuidavam de que assim continuasse..Coisas de primogénitos e profundas cisões familiares frequentes na História que ora haverão de ser desvendadas. Não acreditou ele no que via e ouvia, para mais tendo-lhe batido dois distintos e, porque não dize-lo, algo emproados cavalheiros à porta, a contar-lhe esta fabulosa "história da carochinha". Enquanto os ouvia pos-se, pelo canto do olho, a rabiar, procurando as escondidas camaras da TV, porque, pensou ele sem a mínima sombra de dúvida: "está bem de ver que estou nos "APANHADOS"".Mas não! Não estava! Não está! Ele é que nos vai..."apanhando"....Como quem caça gambuzinos. Lança o isco e nós lá vamos. Contentes, deixando a imaginação correr e correr à desfilada...E esta herança comporta mais casas do que terras...Com as baixas rendas pagas pelos inquilinos,que envelheciam, desinvestiram os últimos dos seus desconhecidos antepassados da recuperação de algumas das casas - eis aqui o exemplo de uma das portas dessas moradias - o nº 52 da Rua do Dó Maior,sita na freguesia Aikdó,no concelho de Desconcerto Total, distrito Dessinfonizado em Todos os Tons.

Parabéns Tozé. Agora estás mais rico. Não fiques com dores de cabeça. O nº 52 está velho, revelho digo eu! A cair! Se te quiseres desfazer dela, casa, aceito-a de bom grado, ou podemos fazer uma venda a baixo custo e ficas com menos um dos 123 problemas que te desabaram em cima. QUE DIZES?

Texto enviado por: Amla

junho 30, 2007

A Dor

Texto - Elipse
Voz - Toze

Desafio (Texto IV)

Eu sentia que havia algo de anormal contigo, apesar de todos que te rodeavam dizer que eram coisas da minha cabeça. Não, não era e pus-me a caminho onde as portas foram abertas. Depois de seis longas horas bem penosas, rodeada por oito médicos, ironicamente 52 vezes picada teria que aguardar pelo veredicto: se o que tinha sido descoberto fosse através do sangue, não haveria nada a fazer, se fosse através das urinas teríamos mulher. Eras tão pequenina, tão indefesa e na saída sentei-me no último degrau de uma escadaria sem fim. Chorei e as minhas lágrimas molharam o teu rosto acalmando o teu gemer já que os teus bracinhos e calcanhares ficaram numa lástima! Apesar de não ter dormido durante quatro dias e quatro noites e agarrada à esperança de que tudo iria dar certo, esperava o alô dos vários contactos que dei. Trabalhei o dobro porque é no trabalho que carrego baterias. Ainda hoje é tão nítido o teu olhar meu amigo: Fatyly telefone...é para ti mulher e ainda hoje sinto o teu abraço por trás enquanto ouvia a frase mais bela que ouvi: venha amanhã de manhã, porque vamos ter MULHER! Desliguei, rodei e foi no teu peito que dei vazão a tanta dor sufocada e em peso a secção, advogados e directores envolveram-me numa bola humana! A família emudeceu porque viram que eu tinha tido razão. Os meus pais foram os únicos que estiveram sempre presentes. Para os exames e vistorias estava no hospital às 6 da manhã e o meu pai era quem ia buscar a neta ao Rossio e a trazia para o infantário. Da boca do pai nunca ouvi uma palavra amiga ou de força, nunca me acompanhou ao hospital, talvez tenha sido a forma que encontrou para o seu sofrimento interior. Nunca soube! Mas para ela ainda hoje o avô é recordado como o pai presente mas ausente que teve. Nunca faltei, mas se entrasse depois das onze, perdia o direito ao subsídio de almoço. Ao meu chefe (já falecido) devo os 15 ou 20 minutos que chegava atrasada. Foram doze anos bem penosos onde a maioria dos exames eram feitos bem perto do hospital, ironicamente no nº. 52. Tudo foi ultrapassado porque eu venci, tu venceste, eles venceram. Hoje, apesar de "baixinha" és linda e a segunda flor mais bela do meu jardim! És o amor do teu amor que é tão alto como alto é o teu sentido de simplicidade ao enfratares a vida.Voltei à rua que tantas vezes foi molhada por lágrimas e parei naquela porta que tão bem conhecia e com a mão pousada na mesma não me contive e chorei de olhos postos sei lá onde. Senti uma mão no meu ombro...desculpe minha senhora...no 52... já ninguém mora!

Texto enviado por: Fatyly

desafio (texto III)

No 52 já ninguém mora.
Pensa-se que alguém morou no 52.
Morou?
Viveu?
Uma família feliz até um dado momento.
Um momento, uma casa, alguém.
Agora já não.
Ninguém mora no 52.
Aliás, cheguei a pensar que não deveriam existir números como o 52.
Onde já ninguém mora.
Uma rua distante, de uma cidade amargurada e perdida em solidões de moradas inexistentes.
No 52 já ninguém mora.
Nunca morou.
Texto enviado por: Paula Raposo

junho 29, 2007

Doença da Literatura...

“A literatura permitiu-me sempre compreender a vida. Mas precisamente por isso deixa-me à margem dela”.

In: "Mal de Montano" de Enrique Vila-Matas

Diálogo...

Olívio – Que tipo de trabalho é que o teu pai faz ?
Berto – Trabalha numa fábrica.
Olívio – A sério, e a fábrica é como ?
Berto – De tijolo.
Olívio – Daquelas antigas com chaminé ?
Berto – Não, sem chaminé.
Olívio - Sem chaminé, portanto.
Berto – Ele vai lá todas as manhãs.
Olívio – E que horas chega a casa ?
Berto – À hora de ponta, claro.
Olívio – Cansado ?
Berto – Estafado !
Olívio – Coberto de pó ?
Berto - Podes crer.
Olívio - Então está bem. Assim é que é um pai a sério !


In: Fábrica do Nada de Judith Herzberg