julho 13, 2007
A coisa mais bonita...
A coisa mais bonita que vi até hoje, não foi uma cidade, nem uma mulher, nem duas, nem uma peça de teatro , uma pintura, um concerto, um monumento, nem a minha prima a sair do banho a cheirar a alfazema, nuazinha a sorrir-me. A coisa mais bonita que vi até hoje foram vinte milhões de euros nas minhas mãos ! Sim , vinte milhões. Depois acordei...e deixou de ser a coisa mais bonita que um dia eu vi !
julho 12, 2007
Leituras...
(...) Durante vinte e cinco anos um homem lê e escreve sobre arte sem perceber nada de arte. Durante vinte e cinco anos remói ideias alheias sobre o realismo, o naturalismo e todas essas tolices; durante vinte e cinco anos lê e escreve sobre coisas que as pessoas inteligentes já sabem há muito tempo e de que os tolos não querem saber - quer dizer, vinte e cinco anos a despejar do oco para o vazio. E ao mesmo tempo que presunção! Que pretensões! Reformou-se e ninguém o conhece, é um perfeito desconhecido; quer dizer que durante vinte e cinco anos ocupou um lugar que não era dele. Mas olha: caminha como um semideus! (...)
julho 11, 2007
Desafio (Texto XVIII)
Que estou a sangrar, diz ela...
Que estou a sangrar, diz ela, e pega-me na mão esquerda como se fosse uma criança com uma borboleta na palma da mão. Que não há problema, respondo, e é a primeira vez que o cheiro a maçã dos seus cabelos penetra no meu suor. Sou uma borboleta na mão dela, sim, com as asas cansadas e o pensamento esvoaçante numa voz acariciante. Apetece-me pousar nela, brandamente, até que o ar fresco da manhã seguinte me reabilite o corpo. Que estou a sangrar, diz ela, e ampara-me o corpo até uma pizzaria próxima. Avisa o empregado que vamos os dois entrar na casa de banho das mulheres porque eu estou ferido. Ferido, fico a pensar em como essa palavra é tão forte e fraca ao mesmo tempo. Ferido é alguém trepassado por uma bala perdida, alguém atropelado por um carro desgovernado, alguém electrocutado num poste de alta de tensão. Eu não, que apenas raspei os nós dos dedos duma mão enquanto ajudava uma mulher a mudar a roda do automóvel. Ela abre a torneira e mergulha a minha mão na água abundante. Deixo-me estar na condição de ferido, então, que dever ser obrigatória para ser socorrido por uma mulher tão bonita. Que estou a sangrar, diz ela, e tira da carteira alguns pensos que me vai pondo, um a um, nos dedos. Primeiro o indicador, depois o médio, depois o anelar. Que não tenho aliança, diz, e pergunta-me se é por não gostar de anéis. Quer saber a minha vida, e eu opto por lhe abrir a porta deixando-a encostada. Não gosto de portas escaqueiradas. Nunca gostei. Que não é por isso, sopro-lhe ao ouvido, e o cheiro a maçã intensifica-se. A cabeça dela encosta-se ao meu peito, só por um segundo, mas como se fosse um helicóptero desvasta a área provocando um mini-ciclone. Que estou a sangrar, diz ela, e alguém bate à porta da casa de banho. É o empregado e diz que temos que sair. Saímos mesmo, serpenteando as mesas da pizzaria enquanto os clientes nos atingem com o canto do olho. Que me leva a casa, diz ela, e pergunta-me onde vivo. No cinquenta e dois, respondo enquanto me sento no lugar do morto. Pergunta-me em que rua. Tanto faz, que não podemos entrar apesar de eu não usar aliança. Estou no lugar do morto e já percebo porquê. Sinto-me mesmo morto, de repente, e é tão abrupta a forma como a morte substitui a vida. Que estou a sangrar, diz ela, e se sangro não estou tão morto assim. Talvez esteja mesmo ferido, afinal. Ferido por tantos anos sem me aventurar num olhar, num abraço, num cheiro. Está ali uma porta número cinquenta e dois, diz ela, e conclui que com aquele ar abandonado ninguém deve estar à minha espera. Depois abraça-me. Que sim, pode ser naquele cinquenta e dois. Ali já ninguém mora.
Texto enviado por: Bagaço amarelo
Que estou a sangrar, diz ela, e pega-me na mão esquerda como se fosse uma criança com uma borboleta na palma da mão. Que não há problema, respondo, e é a primeira vez que o cheiro a maçã dos seus cabelos penetra no meu suor. Sou uma borboleta na mão dela, sim, com as asas cansadas e o pensamento esvoaçante numa voz acariciante. Apetece-me pousar nela, brandamente, até que o ar fresco da manhã seguinte me reabilite o corpo. Que estou a sangrar, diz ela, e ampara-me o corpo até uma pizzaria próxima. Avisa o empregado que vamos os dois entrar na casa de banho das mulheres porque eu estou ferido. Ferido, fico a pensar em como essa palavra é tão forte e fraca ao mesmo tempo. Ferido é alguém trepassado por uma bala perdida, alguém atropelado por um carro desgovernado, alguém electrocutado num poste de alta de tensão. Eu não, que apenas raspei os nós dos dedos duma mão enquanto ajudava uma mulher a mudar a roda do automóvel. Ela abre a torneira e mergulha a minha mão na água abundante. Deixo-me estar na condição de ferido, então, que dever ser obrigatória para ser socorrido por uma mulher tão bonita. Que estou a sangrar, diz ela, e tira da carteira alguns pensos que me vai pondo, um a um, nos dedos. Primeiro o indicador, depois o médio, depois o anelar. Que não tenho aliança, diz, e pergunta-me se é por não gostar de anéis. Quer saber a minha vida, e eu opto por lhe abrir a porta deixando-a encostada. Não gosto de portas escaqueiradas. Nunca gostei. Que não é por isso, sopro-lhe ao ouvido, e o cheiro a maçã intensifica-se. A cabeça dela encosta-se ao meu peito, só por um segundo, mas como se fosse um helicóptero desvasta a área provocando um mini-ciclone. Que estou a sangrar, diz ela, e alguém bate à porta da casa de banho. É o empregado e diz que temos que sair. Saímos mesmo, serpenteando as mesas da pizzaria enquanto os clientes nos atingem com o canto do olho. Que me leva a casa, diz ela, e pergunta-me onde vivo. No cinquenta e dois, respondo enquanto me sento no lugar do morto. Pergunta-me em que rua. Tanto faz, que não podemos entrar apesar de eu não usar aliança. Estou no lugar do morto e já percebo porquê. Sinto-me mesmo morto, de repente, e é tão abrupta a forma como a morte substitui a vida. Que estou a sangrar, diz ela, e se sangro não estou tão morto assim. Talvez esteja mesmo ferido, afinal. Ferido por tantos anos sem me aventurar num olhar, num abraço, num cheiro. Está ali uma porta número cinquenta e dois, diz ela, e conclui que com aquele ar abandonado ninguém deve estar à minha espera. Depois abraça-me. Que sim, pode ser naquele cinquenta e dois. Ali já ninguém mora.
Texto enviado por: Bagaço amarelo
desafio (Texto XVII)
julho 10, 2007
O Lado Bom do Nada
O que tem de bom não se entender Nada, é poder entender-se esse Nada como quiser !
Desafio (Texto XVI)
No 52...já ninguém mora !
A esta distância posso dizer, como está na moda, que naquele verão de 1966 eu era "uma mulher do meu tempo". Vivia nas Avenidas Novas desde que, seis anos antes, casara com o Pedro, um pediatra que começava a fazer sucesso em Lisboa.
Tinha um filho com quatro anos, o meu Jorge. Com o meu filho aprendia aquela forma de amor terno, uma suavidade de que já ouvira falar muitas vezes mas que nunca tinha conhecido.
Os meus pais viviam ainda em África e eu frequentei o Instituto de Odivelas desde os onze anos. Segui para a Faculdade de Letras e após a conclusão da licenciatura casei. Namorava com o Pedro desde o último ano do colégio. Toda a gente nos via como noivos e, embora ele fosse doze anos mais velho, conhecíamos muita gente em comum (as alunas de Odivelas faziam questão de apresentar-me irmãos, primos e amigos, impressionadas com o meu isolamento na então Metrópole), gostávamos do mesmo tipo de espectáculos, e eu, posso dizê-lo, era então encantadora. Os meus modos gentis e determinados tornavam-me a esposa adequada para um médico ambicioso. A nossa vida era harmoniosa. Tínhamos duas criadas, duas irmãs de Vila Franca, a quem eu e o Jorge nos fomos afeiçoando.
Em Abril de 1966 eu tinha acabado de fazer vinte e nove anos. Ainda tinha no sorriso a vivacidade que fazia as pessoas lembrarem-se do clima tropical que me vira nascer. O Eduardo era um artista plástico de trinta e três anos. Solteiro. Tirara o curso de Pintura nas Belas Artes e dava aulas num liceu de Lisboa. Gostava de acompanhar os miúdos, ver faculdades depontarem e por vezes vocações esboçarem-se. Fora do tempo das aulas e sua preparação, pintava, pintava muito. Quando o conheci, num jantar de amigos, agradou-me a paixão com que defendeu, contra as opiniões de muitos convivas, alguns movimentos artísticos. Da primeira vez que nos encontrámos, casualmente, numa pastelaria perto de minha casa conversámos um pouco e ele disse que a minha beleza era invulgar, que lhe fazia lembrar uma ruiva de Klimt.
No dia seguinte, entregou a uma das criaditas um cartão com o meu nome desenhado e o esboço de uma silhueta feminina de cabelos compridos. Ruivos, claro.Tudo se passou muito depressa. Em meados de Maio fui pela primeira vez a casa dele. Morava no nº 52 da Travessa de Santa Susana, uma casa de solteirão, uma casa onde o fogão era raras vezes utilizado e apenas o trabalho da mulher a dias, três manhãs por semana, impediam um caos mais aceso.
Ele referia-se a uma das salas como "o estúdio". Ninguém lá entrava. Havia-me falado desse aposento diversas vezes. Da primeira vez que entrei no nº 52 tínhamos um acordo: eu posaria, sentada num sofá, vestida de amarelo,com ligeiros reflexos dourados.
Sentei-me, de facto. Ele utilizou lápis. Eu permaneci quieta. Mas isso durou vinte minutos. Pouco depois, eu estava junto do Eduardo. Junto da tela. Das tintas de todas as cores. Eu estava descalça e nua e o meu corpo era o tecido para as suas inspirações. Eu observava, extática, recebia beijos e tonalidades várias na minha pele. E desejava que aquele estranho bailado continuasse, eu deitada no chão, como mar, ele acariciando-me os cabelos e beijando-me os ombros, como se me navegasse.
Passei a ir ao número 52, nas alturas em que o Eduardo estava em casa, sempre que conseguia sair de casa de forma discreta. Durante pouco mais de uma hora eu despia-me e ele pintava o meu corpo em telas ou então imprimia arabescos invisíveis na minha pele. Era quase o mesmo. Ele pintava os seus segredos mais ocultos através de mim ou coloria-os directamente em mim. E assim perseguia e capturava os meus desejos. Todos. Como se quisesse inscrever as nossas vontades na minha alma. Indelevelmente.
Aqueles momentos passaram a ser vertebrais para mim. Estávamos sós, ele tratava-me por Ofeliazinha (como o meu marido quando namorávamos) ou, mais romanticamente, por "meu mar". E dizia que nós vivíamos encasulados numa enorme bolha dourada, os dourados de Klimt, só nós, os nossos corpos, os lápis, os pincéis, as aguarelas, as nossas mãos...Um dia, percebi que não queria voltar para casa. Queria ficar ali, na nossa bolha dourada, no número 52. Só nós. Sem crianças nem maridos nem criadas só nós.
Ele falou-me ao ouvido, servindo-se de argumentos razoáveis. Que seria do meu filho, eu arrepender-me-ia, estava a ser insensata, e como me iria ocupar enquanto ele estivesse no liceu? Mas eu existia para aquela hora com o Eduardo. Aquela intensidade sensorial, estética, aquela alucinação incandescente transformava-me num eu diferente. Mais confiante e mais exigente. Quando chovia, chuva de verão, ele pedia-me que dançasse no saguão. Ele sentava-se na janela com um bloco e um lápis na mão, tentando segurar os meus movimentos e as gotas de chuva na minha pele. Reconheço que, para mim, a ideia se ser "a amante do artista" era estimulante. Mas, lentamente, eu fui desejando mais. Uma tarde apeteceu-me fazer-lhe o jantar. A mulher-a-dias deixara mantimentos, ela própria cozinhava para ele de quando em vez. Pedi-lhe, disse-lhe que seria engraçado estarmos os dois na cozinha. Ele não gostou e eu agora percebo que, quando uma mulher começa a desenvolver impulsos de domesticidade para com o amante, a sua história está a entrar noutra fase. Os conservadores dizem que isso acontece quando começamos a querer que eles durmam connosco, abraçados. Não concordo. Para mim é a necessidade da identificação caseira que denuncia a nossa verdade - já não nos sentimos completamente bem no nosso papel de amantes.
E eu estava cada vez mais agitada. Não me imaginava longe do meu filho, é certo. Mas o tempo sem o Eduardo era terrível. E as noites com o meu marido começaram a ser sinistras. Quando ele me tocava na camisa de noite e me murmurava a mesma frase de sempre, apetecia-me fugir. Inventei uma suspeita de gravidez, com as consequentes indisposições para me libertar, pelo menos duas semanas, daquela tortura. Mas, vinte dias depois, essa dúvida atingiu-me. Pensei que fosse sugestão e quando contei ao Eduardo, ele enlaçou-me a cintura e disse: "Ofeliazinha meu mar, não te apoquentes, tu estás como naqueles dias que antecedem, é só isto." Mas não era. E na nossa bolha dourada, dos dourados de Klimt, não cabia mais nada. Apenas arte e beleza. Apenas eu, nua e descalça. Apenas o Eduardo fixando na tela os meus gestos e as minhas expressões. Apenas o Eduardo tatuando a minha alma com o seu nome e a minha pele com o nosso desejo. Apenas a sedução. Apenas a minha vaidade de me sentir amada. Um berço e um tanque de roupa nada tinham a ver com o nosso casulo dourado nem com o nosso devir. Eu já o tinha compreendido. Há mundos que não se podem confundir.
Inicialmente senti-me zangada com aquela criança. Achei-a uma intrusa, a responsável pelo fim da minha fantasia romanesca. Tive uma gravidez difícil, muito tempo de imobilidade exigido, muito tempo para efabular, muito tempo para afagar medos e culpas.
O Pedro ficou feliz, sem nada perguntar. Nunca sonhou com a minha duplicidade. Eu era muito mais perversa do que ele. Sempre fui. E o Jorge ficou muito alegre, sempre tinha desejado um irmão. O Eduardo reagiu de uma forma estranha. Parecia que não queria que eu tivesse aquele bebé. Eu garanti-lhe que não tinha que se preocupar, que embora continuasse a pensar nele como "o meu amor", sairia da sua vida na ponta dos pés e voltaria discretamente ao meu lugar de esposa e mãe virtuosa. A Susana nasceu e eu senti que já nada tinha a ver com a mulher arrebatada que tanto arriscara. Nunca mais procurei o Eduardo. Durante muito tempo evitei aquele lado da cidade.
Um ano mais tarde recebi um telefonema breve. Era o Eduardo. Tinha sido convidado para um projecto ligado a uma escola de arte no Porto. Eu continuei a minha vida, o Jorge e a Susana cresceram, têm os seus próprios mistérios, suponho, o Pedro e eu envelhecemos. Sempre houve entre nós estima e respeito, apesar...apesar de tudo.
Na semana passada fui com uma amiga a uma loja de decoração recentemente inaugurada. Os problemas de trânsito levaram-nos a estacionar o automóvel numa rua paralela. Para meu espanto encontrava-me na rua do número 52. Já ninguém lá mora, está fechado.
Mas, gosto de pensar que no soalho do "estúdio" permanece um pedacito de carvão, invisível para os olhos humanos, que um dia, um pintor usou para desenhar uma mulher que achava tão bela como as ruivas de Klimt.
Texto enviado por: Alba
A esta distância posso dizer, como está na moda, que naquele verão de 1966 eu era "uma mulher do meu tempo". Vivia nas Avenidas Novas desde que, seis anos antes, casara com o Pedro, um pediatra que começava a fazer sucesso em Lisboa.
Tinha um filho com quatro anos, o meu Jorge. Com o meu filho aprendia aquela forma de amor terno, uma suavidade de que já ouvira falar muitas vezes mas que nunca tinha conhecido.
Os meus pais viviam ainda em África e eu frequentei o Instituto de Odivelas desde os onze anos. Segui para a Faculdade de Letras e após a conclusão da licenciatura casei. Namorava com o Pedro desde o último ano do colégio. Toda a gente nos via como noivos e, embora ele fosse doze anos mais velho, conhecíamos muita gente em comum (as alunas de Odivelas faziam questão de apresentar-me irmãos, primos e amigos, impressionadas com o meu isolamento na então Metrópole), gostávamos do mesmo tipo de espectáculos, e eu, posso dizê-lo, era então encantadora. Os meus modos gentis e determinados tornavam-me a esposa adequada para um médico ambicioso. A nossa vida era harmoniosa. Tínhamos duas criadas, duas irmãs de Vila Franca, a quem eu e o Jorge nos fomos afeiçoando.
Em Abril de 1966 eu tinha acabado de fazer vinte e nove anos. Ainda tinha no sorriso a vivacidade que fazia as pessoas lembrarem-se do clima tropical que me vira nascer. O Eduardo era um artista plástico de trinta e três anos. Solteiro. Tirara o curso de Pintura nas Belas Artes e dava aulas num liceu de Lisboa. Gostava de acompanhar os miúdos, ver faculdades depontarem e por vezes vocações esboçarem-se. Fora do tempo das aulas e sua preparação, pintava, pintava muito. Quando o conheci, num jantar de amigos, agradou-me a paixão com que defendeu, contra as opiniões de muitos convivas, alguns movimentos artísticos. Da primeira vez que nos encontrámos, casualmente, numa pastelaria perto de minha casa conversámos um pouco e ele disse que a minha beleza era invulgar, que lhe fazia lembrar uma ruiva de Klimt.
No dia seguinte, entregou a uma das criaditas um cartão com o meu nome desenhado e o esboço de uma silhueta feminina de cabelos compridos. Ruivos, claro.Tudo se passou muito depressa. Em meados de Maio fui pela primeira vez a casa dele. Morava no nº 52 da Travessa de Santa Susana, uma casa de solteirão, uma casa onde o fogão era raras vezes utilizado e apenas o trabalho da mulher a dias, três manhãs por semana, impediam um caos mais aceso.
Ele referia-se a uma das salas como "o estúdio". Ninguém lá entrava. Havia-me falado desse aposento diversas vezes. Da primeira vez que entrei no nº 52 tínhamos um acordo: eu posaria, sentada num sofá, vestida de amarelo,com ligeiros reflexos dourados.
Sentei-me, de facto. Ele utilizou lápis. Eu permaneci quieta. Mas isso durou vinte minutos. Pouco depois, eu estava junto do Eduardo. Junto da tela. Das tintas de todas as cores. Eu estava descalça e nua e o meu corpo era o tecido para as suas inspirações. Eu observava, extática, recebia beijos e tonalidades várias na minha pele. E desejava que aquele estranho bailado continuasse, eu deitada no chão, como mar, ele acariciando-me os cabelos e beijando-me os ombros, como se me navegasse.
Passei a ir ao número 52, nas alturas em que o Eduardo estava em casa, sempre que conseguia sair de casa de forma discreta. Durante pouco mais de uma hora eu despia-me e ele pintava o meu corpo em telas ou então imprimia arabescos invisíveis na minha pele. Era quase o mesmo. Ele pintava os seus segredos mais ocultos através de mim ou coloria-os directamente em mim. E assim perseguia e capturava os meus desejos. Todos. Como se quisesse inscrever as nossas vontades na minha alma. Indelevelmente.
Aqueles momentos passaram a ser vertebrais para mim. Estávamos sós, ele tratava-me por Ofeliazinha (como o meu marido quando namorávamos) ou, mais romanticamente, por "meu mar". E dizia que nós vivíamos encasulados numa enorme bolha dourada, os dourados de Klimt, só nós, os nossos corpos, os lápis, os pincéis, as aguarelas, as nossas mãos...Um dia, percebi que não queria voltar para casa. Queria ficar ali, na nossa bolha dourada, no número 52. Só nós. Sem crianças nem maridos nem criadas só nós.
Ele falou-me ao ouvido, servindo-se de argumentos razoáveis. Que seria do meu filho, eu arrepender-me-ia, estava a ser insensata, e como me iria ocupar enquanto ele estivesse no liceu? Mas eu existia para aquela hora com o Eduardo. Aquela intensidade sensorial, estética, aquela alucinação incandescente transformava-me num eu diferente. Mais confiante e mais exigente. Quando chovia, chuva de verão, ele pedia-me que dançasse no saguão. Ele sentava-se na janela com um bloco e um lápis na mão, tentando segurar os meus movimentos e as gotas de chuva na minha pele. Reconheço que, para mim, a ideia se ser "a amante do artista" era estimulante. Mas, lentamente, eu fui desejando mais. Uma tarde apeteceu-me fazer-lhe o jantar. A mulher-a-dias deixara mantimentos, ela própria cozinhava para ele de quando em vez. Pedi-lhe, disse-lhe que seria engraçado estarmos os dois na cozinha. Ele não gostou e eu agora percebo que, quando uma mulher começa a desenvolver impulsos de domesticidade para com o amante, a sua história está a entrar noutra fase. Os conservadores dizem que isso acontece quando começamos a querer que eles durmam connosco, abraçados. Não concordo. Para mim é a necessidade da identificação caseira que denuncia a nossa verdade - já não nos sentimos completamente bem no nosso papel de amantes.
E eu estava cada vez mais agitada. Não me imaginava longe do meu filho, é certo. Mas o tempo sem o Eduardo era terrível. E as noites com o meu marido começaram a ser sinistras. Quando ele me tocava na camisa de noite e me murmurava a mesma frase de sempre, apetecia-me fugir. Inventei uma suspeita de gravidez, com as consequentes indisposições para me libertar, pelo menos duas semanas, daquela tortura. Mas, vinte dias depois, essa dúvida atingiu-me. Pensei que fosse sugestão e quando contei ao Eduardo, ele enlaçou-me a cintura e disse: "Ofeliazinha meu mar, não te apoquentes, tu estás como naqueles dias que antecedem, é só isto." Mas não era. E na nossa bolha dourada, dos dourados de Klimt, não cabia mais nada. Apenas arte e beleza. Apenas eu, nua e descalça. Apenas o Eduardo fixando na tela os meus gestos e as minhas expressões. Apenas o Eduardo tatuando a minha alma com o seu nome e a minha pele com o nosso desejo. Apenas a sedução. Apenas a minha vaidade de me sentir amada. Um berço e um tanque de roupa nada tinham a ver com o nosso casulo dourado nem com o nosso devir. Eu já o tinha compreendido. Há mundos que não se podem confundir.
Inicialmente senti-me zangada com aquela criança. Achei-a uma intrusa, a responsável pelo fim da minha fantasia romanesca. Tive uma gravidez difícil, muito tempo de imobilidade exigido, muito tempo para efabular, muito tempo para afagar medos e culpas.
O Pedro ficou feliz, sem nada perguntar. Nunca sonhou com a minha duplicidade. Eu era muito mais perversa do que ele. Sempre fui. E o Jorge ficou muito alegre, sempre tinha desejado um irmão. O Eduardo reagiu de uma forma estranha. Parecia que não queria que eu tivesse aquele bebé. Eu garanti-lhe que não tinha que se preocupar, que embora continuasse a pensar nele como "o meu amor", sairia da sua vida na ponta dos pés e voltaria discretamente ao meu lugar de esposa e mãe virtuosa. A Susana nasceu e eu senti que já nada tinha a ver com a mulher arrebatada que tanto arriscara. Nunca mais procurei o Eduardo. Durante muito tempo evitei aquele lado da cidade.
Um ano mais tarde recebi um telefonema breve. Era o Eduardo. Tinha sido convidado para um projecto ligado a uma escola de arte no Porto. Eu continuei a minha vida, o Jorge e a Susana cresceram, têm os seus próprios mistérios, suponho, o Pedro e eu envelhecemos. Sempre houve entre nós estima e respeito, apesar...apesar de tudo.
Na semana passada fui com uma amiga a uma loja de decoração recentemente inaugurada. Os problemas de trânsito levaram-nos a estacionar o automóvel numa rua paralela. Para meu espanto encontrava-me na rua do número 52. Já ninguém lá mora, está fechado.
Mas, gosto de pensar que no soalho do "estúdio" permanece um pedacito de carvão, invisível para os olhos humanos, que um dia, um pintor usou para desenhar uma mulher que achava tão bela como as ruivas de Klimt.
Texto enviado por: Alba
julho 09, 2007
Subir o Douro...
Muitos são os adjectivos utilizados por todos os que já fizeram “a viagem” junto ao rio. Dizem-me: "deslumbrante, magnífica, soberba...". A subida do Douro de comboio até ao Pocinho, a última paragem. Um dia também vai chegar ao fim o Pocinho, ficar desactivada a linha, como a que ía do Pocinho até Barca D'alva. Em Portugal, mais tarde ou mais cedo tudo acaba, menos as to(i)uradas ! ( é tudo uma questão de...lucros, cornos portanto!)


Não posso adiar esta viagem por muito mais tempo...quero descobrir um pouco mais do rio Douro e das suas paisagens Património Mundial da UNESCO.
Vamos ?
Desafio (Texto XV)
Chego ao inicio da rua, aquele passeio familiar cumprimenta-me, convida-me passar por ali uma vez mais... mas para quê...
A chuva, o vento, todo o universo parecia conspirar... sinto-me quase empurrado, quase obrigado a avançar... mas eu sabia.
Pesadamente avanço rua fora, os números das portas passam diante de mim. Num momento de insanidade um pensamento desperta-me os sentidos... "Estarias lá?" ... seria possivel que ainda me quisesses, seria possivel que tivesses esperado por mim...? Abanando a cabeça freneticamente tento que a realidade volte a prevalecer, esse pensamento esperançoso deveria cessar, deveria dissipar-se como nevoeiro em dia de sol, mas ele lá ficou inerte, persistente, envolvente...
Avisto o 50... tremo... por te sentir perto... por pensar que podes lá estar... não adianta, a esperança que sinto leva-me a avançar para ti, vou sofrer se não estiveres... muito mais do que sofri quando me disseste que ias embora...
O 52 finalmente aparece, diante de mim, a esperança em mim havia dado uma nova beleza aquela velha casa. Paro diante dela como nunca o havia feito, sempre com pressa, sempre de passagem, nunca a havia admirado convenientemente, mas agora sim, agora admirava-a porque queria que dentro dela estivesses tu. Tinhas que estar, tinhas que me ter mentido e ter ficado...
Subo rapidamente os degraus, uma injeção de adrenalina percorria-me as veias, sentia-te perto, tinhas que estar... bato suavemente tentando não demonstrar a minha excitação, espero... oiço ruido, a ansia de te ver toma conta de mim, não consigo pensar, só o coração perdendo a sua cadencia bate compulsivamente para te ver...
A porta abre, balbucio um... " - Ela está?"
A senhora de alguma idade confirmou-me o que no fundo eu já sabia..."
- Não, no 52 já não mora ninguém..."
Texto enviado por: Jonnhy Anonymous Doe
A chuva, o vento, todo o universo parecia conspirar... sinto-me quase empurrado, quase obrigado a avançar... mas eu sabia.
Pesadamente avanço rua fora, os números das portas passam diante de mim. Num momento de insanidade um pensamento desperta-me os sentidos... "Estarias lá?" ... seria possivel que ainda me quisesses, seria possivel que tivesses esperado por mim...? Abanando a cabeça freneticamente tento que a realidade volte a prevalecer, esse pensamento esperançoso deveria cessar, deveria dissipar-se como nevoeiro em dia de sol, mas ele lá ficou inerte, persistente, envolvente...
Avisto o 50... tremo... por te sentir perto... por pensar que podes lá estar... não adianta, a esperança que sinto leva-me a avançar para ti, vou sofrer se não estiveres... muito mais do que sofri quando me disseste que ias embora...
O 52 finalmente aparece, diante de mim, a esperança em mim havia dado uma nova beleza aquela velha casa. Paro diante dela como nunca o havia feito, sempre com pressa, sempre de passagem, nunca a havia admirado convenientemente, mas agora sim, agora admirava-a porque queria que dentro dela estivesses tu. Tinhas que estar, tinhas que me ter mentido e ter ficado...
Subo rapidamente os degraus, uma injeção de adrenalina percorria-me as veias, sentia-te perto, tinhas que estar... bato suavemente tentando não demonstrar a minha excitação, espero... oiço ruido, a ansia de te ver toma conta de mim, não consigo pensar, só o coração perdendo a sua cadencia bate compulsivamente para te ver...
A porta abre, balbucio um... " - Ela está?"
A senhora de alguma idade confirmou-me o que no fundo eu já sabia..."
- Não, no 52 já não mora ninguém..."
Texto enviado por: Jonnhy Anonymous Doe
julho 08, 2007
Desafio (Texto XIV)
Resposta ao Desafio: No 52… já ninguém mora…
Ou...
Epílogo ao Desafio: HOJE MATAR-TE-EI
Tal como havia previsto chegou ao fim da manhã à empresa.
- Então o jantar, ontem, que tal?
- Soberbo!
- Sempre foste fazer os exames de rotina? Está tudo bem?
- À partida está mas o médico disse que depois a assistente me telefonava quando tivesse os exames todos e marca-se a consulta. Faço exames todos os anos, sinto-me bem, nem me vou preocupar. E por aqui? Houve alguma coisa?
- Não, Amiga. Mas conta-me os pormenores todos! – Já eram colegas na mesma área há um ano, desde logo houve empatia entre elas, mas tinha aquele defeito (ou seria feitio?) de querer saber tudo, tudo. E ela não ia contar nada. Estava resolvido, tudo feito como ele havia idealizado e agora era andar para a frente e esquecer…
Veio-lhe aquela frase batida que o tempo tudo cura, tudo amansa, e era o que agora ela queria.
- O Boss – muito gostava a colega de tratar assim o Director do departamento. Ela achava-lhe um piadão. Fazia-lhe lembrar aquelas séries americanas que via para ir matando o tempo quando mais nada lhe apetecia fazer, em casa
– Pediu que te avisasse para ires ao gabinete dele, quando chegasses.
Será que vai ser hoje que resolvem a tua situação? Vais ver! Vais ficar na empresa, tens feito um trabalho óptimo, e já vais poder…You know what I mean!...
- Vou poder o quê? – Sabia bem o que queria dizer com aquela frase (mais uma de tantas séries americanas).
– Neste momento quero é sossego, querida! Não estou nada para pensar em casamentos mas quando for, garanto-te que és convidada de viva voz, por mim e não só por um mero convite. Mereces!
Bom! Deixa-me lá ir então ver o que o nosso caríssimo director tem para me dizer. Nem tive tempo para me arranjar direito. Que tal estou? – Não havia dormido, pegou num fato de calças e casaco, olhou-se ao espelho – sofrível! – Pensou e saiu, sem pensar em mais nada. Não iria pensar em mais nada dali para a frente!
- Estás o máximo! Ele baba-se quando te vê! Vai e só espero que seja para resolver a tua situação duma vez por todas. Já deste mais do que provas que o lugar é teu. Nem que estivesses toda desgrenhada ele notava, podes crer! Da maneira como te admira!...
Pira-te que eu fico em picos para saber as novidades.
- Bom dia, Dr. Tinha a indicação na secretária de que queria falar comigo.
- Sim. Entra, por favor, fecha a porta e senta-te.
Sentiu o coração bater aceleradamente! Não era aquela a expressão que lhe costumava ver no rosto! Não iria ser sobre a situação dela na empresa. Se fosse, não estaria com aquele ar tão sério, como se tivesse acontecido algo grave.
- Apesar de não ter nada a ver com a tua vida pessoal, logo de manhã recebi um telefonema que me deixou apreensivo. – Notando o ar preocupado da colega (era linda, como ele queria aproximar-se mais dela, mas a sua posição não o permitia e detestava “diz que disses” na empresa. Jamais misturara assuntos pessoais com a sua vida profissional. Não daria bom resultado, mas não podia deixar de sentir sempre aquele calafrio no estômago quando falava com ela, quando se olhavam.
– Pelo teu ar, dá para perceber que não sabes de nada…
Ela olhava-o, expectante. Impossível que ele pudesse saber alguma coisa! Era demasiado cedo. Resolveu ser directa e atirar logo a pergunta sem vacilar:
– Passa-se alguma coisa que eu deveria saber? Fiz algo errado? Agradeço que seja directo porque com certeza terei uma explicação para o sucedido, ainda que, sou franca, não esteja a ver de todo o que possa ser. Estava tudo em ordem quando ontem saí…
-Não! Não tem nada a ver com o teu desempenho que aliás, como sabes, tem sido muito bom e estamos a dias de ter a tua admissão definitiva nos quadros.
Tem a ver com o teu amigo. – Parou, baixou por instantes os olhos, voltou a levantá-los e olhou-a.
- Com o meu Amigo? Que se passa?
- Foi encontrado na garagem de casa, dentro do carro.
- O coração ia sair-lhe do peito! Até tinha receio que o seu chefe notasse como ele batia. Conseguia ouvi-lo na cabeça, senti-lo nas mãos…
– Como, na garagem? Não estou a entender!!...
- O que te quero dizer é que ao que tudo indica ele se suicidou. Parece que vivia só, nem sei bem como te dizer isto, se sabias, se não, mas ele era casado e ao que soube também, a mulher estava há tempos no IPO.
Perdoa estar a dizer-te tudo isto tão friamente mas eu estou até agora incrédulo porque, como sabes, eras a gestora das empresas dele e não queria acreditar que ele mantinha uma relação contigo sendo casado e com filhos.
– Sentiu as lágrimas a correrem sem conseguir dizer nada.
Estar ali, em frente a um estranho (sim, que a relação dos dois era meramente profissional) e ter que simular, ter que esconder que sabia, sim, que, que!...
O Director ficou ainda mais atrapalhado do que ela. Mandou vir água, café para os dois e continuou, agora num tom mais terno, quase paternal, ainda que a diferença de idades entre eles fosse mínima. Ele, um pouco mais velho, dois, três anos, por aí.
- Se quiseres, tiras o resto do dia! Não imagino sequer como te estás a sentir e lamento que o tenhas sabido por mim.
Vão tratar de fazer a autópsia, os familiares, os sogros já estão a tomar todas as providências e, fica sossegada que daqui não sairá qualquer informação sobre o teu relacionamento com ele. É óbvio que foste mais uma das suas vítimas.
- Mais uma das suas vítimas? – Perguntou, sem conseguir olhar o colega.
- Tal como mantinha um relacionamento contigo, mantinha com outras tantas que ocupavam cargos de importância, em empresas. Lamento pela mulher dele, pelos filhos!
Mas a vida continua, e, infelizmente, este não foi o único caso nem vai ser o último. Há indivíduos assim, sem escrúpulos que tudo fazem para manter aparências. Só que pelo visto não aguentou mais e chegou ao desespero…
O médico que seguia a mulher era também amigo desde o tempo em que estudavam e já havia cortado relações com ele.
Pelo visto a vida não estaria tão bem assim porque para ele se ter suicidado é preciso estar completamente sem saída.
Só lamento é por ti que estiveste nas nuvens, que ao que ouvi, pensavas casar.
- Posso sair? – Perguntou. Não consigo dizer nada, desculpe. Nem sei como estou. Vou para casa, ou não, mas hoje já não consigo fazer nada.
- Claro! Tira uns dias! Se houver alguma coisa, telefono-te.
Descansa, e, sabes que podes contar comigo! Estou aqui, sempre!
- Obrigada! – Saiu, as lágrimas a correr, ouviu que a colega a chamava, sentiu os olhares dos colegas da empresa mas só queria desaparecer dali.
Foi mantendo contacto com o colega que lhe telefonava para ir sabendo como ela estava. Que tinha uma bela notícia! Havia passado aos quadros da empresa e passariam a trabalhar em conjunto!
- Quando voltaria? Dali a mais uma semana. Só o tempo de acabar a mudança. Não queria ficar naquele andar que lhe trazia recordações que ela não queria por nada voltar a viver. Podia ser?
- Claro que sim! Já estavam todos com saudades e havia projectos para tratar mas que antes de tudo queria muito que ela estivesse bem, que poderia contar com ele!
Sorriu. Pensava nas vezes que ela e a colega haviam brincado com o ar patético com que o Director ficava quando a via chegar. Afinal, encontrou ali um amigo, que nada perguntou, que discretamente se manteve ao lado dela.
Iria voltar, sim e entregar-se-ia ao trabalho.
Guardou para o último dia duas coisas que não poderia deixar de fazer.
Entrou no IPO, dirigiu-se à secretaria, perguntou pela paciente do 5º piso, enfermaria 2.
Que já havia tido alta, que o cancro havia sido detectado a tempo e que agora voltaria só dali a um ano. Mera rotina, obrigatória nestes casos.
Agradeceu e saiu.
Meteu-se no carro.
Passou pelo prédio onde havia morado e estacionou. O porteiro estava cá em baixo e cumprimentou-a, sorridente:
- Então? Sempre nos vai deixar? Que pena! Já tem a casa nova? Ficaram lá umas coisas no andar. Vem buscar ou quer que as mande entregar nalgum sítio?
- Não. Tudo o que havia para levar já foi. A mobília do quarto fica. Gosta dela?
- Se gosto? É um luxo! Tivesse eu hipótese de comprar uma assim e a minha mulher ficava deliciada.
- Pois então, é vossa! É o mínimo que vos posso dar por toda a simpatia que sempre tiveram comigo enquanto aqui vivi.
- Mas… – Dizia o porteiro – Não posso! Deve ter sido caríssima!
- Pode sim e já é sua tal como o sofá que deixei na sala e mais umas louças que ficaram na cozinha.
Sempre que possa passo por aqui para o cumprimentar. Tudo de bom, Sr. Pereira e muito obrigada por tudo! Cumprimentos à sua Senhora.
Voltou a meter-se no automóvel. Desceu uns quarteirões, virou e abrandou até parar.
A vivenda estava fechada! Estores corridos.
Saiu do carro e permaneceu ali, a olhar.
- Era alguma coisa? – Perguntou um Sr. com todo o aspecto de vendedor.
- Estava só a ver! Bonita vivenda! Parece estar fechada! Está à venda?
- Não! História muito complicada. O dono suicidou-se! Ao que parece tinha a vida num frangalho!
- Ah! E vai ficar assim? Fechada? É uma pena! É esplêndida!
- A família não a quer. A esposa esteve mal, julgaram até que não escapava, um cancro, ao que sei. Quando recuperou, não quis voltar para cá. Disse-me apenas que informasse quem pudesse mostrar interesse na casa que dissesse simplesmente que aqui, no Nº 52… já ninguém mora e … nem nunca mais vai morar! Será demolida.
É, minha Senhora. Histórias de gente rica!
Mas tenho outros lotes que lhe posso mostrar…
- Não, Amigo! Foi mesmo só interesse por achar a casa bonita! Bom resto de tarde!
Meteu-se no automóvel, tocou o telefone:
- Então? Sempre te vejo hoje? Podíamos jantar e já te ponho ao corrente do que está a ser feito em termos de projectos. Espero que tenhas descansado bastante porque tens aqui muito para fazer.
- Claro! Só o tempo de ir trocar de roupa a casa e encontramo-nos no restaurante lá próximo da empresa. Até já!
- Está mesmo tudo bem contigo?
- Agora está! Finalmente!
- Carne ou peixe?
- Peixe!
- Pagamos a meias? – Ouviu-o sorrir – Estou a meter-me contigo!
- Não! Deixamos na conta da empresa! – Disse, a rir com gosto, como há muito não fazia!
Texto enviado por: Cristina
Ou...
Epílogo ao Desafio: HOJE MATAR-TE-EI
Tal como havia previsto chegou ao fim da manhã à empresa.
- Então o jantar, ontem, que tal?
- Soberbo!
- Sempre foste fazer os exames de rotina? Está tudo bem?
- À partida está mas o médico disse que depois a assistente me telefonava quando tivesse os exames todos e marca-se a consulta. Faço exames todos os anos, sinto-me bem, nem me vou preocupar. E por aqui? Houve alguma coisa?
- Não, Amiga. Mas conta-me os pormenores todos! – Já eram colegas na mesma área há um ano, desde logo houve empatia entre elas, mas tinha aquele defeito (ou seria feitio?) de querer saber tudo, tudo. E ela não ia contar nada. Estava resolvido, tudo feito como ele havia idealizado e agora era andar para a frente e esquecer…
Veio-lhe aquela frase batida que o tempo tudo cura, tudo amansa, e era o que agora ela queria.
- O Boss – muito gostava a colega de tratar assim o Director do departamento. Ela achava-lhe um piadão. Fazia-lhe lembrar aquelas séries americanas que via para ir matando o tempo quando mais nada lhe apetecia fazer, em casa
– Pediu que te avisasse para ires ao gabinete dele, quando chegasses.
Será que vai ser hoje que resolvem a tua situação? Vais ver! Vais ficar na empresa, tens feito um trabalho óptimo, e já vais poder…You know what I mean!...
- Vou poder o quê? – Sabia bem o que queria dizer com aquela frase (mais uma de tantas séries americanas).
– Neste momento quero é sossego, querida! Não estou nada para pensar em casamentos mas quando for, garanto-te que és convidada de viva voz, por mim e não só por um mero convite. Mereces!
Bom! Deixa-me lá ir então ver o que o nosso caríssimo director tem para me dizer. Nem tive tempo para me arranjar direito. Que tal estou? – Não havia dormido, pegou num fato de calças e casaco, olhou-se ao espelho – sofrível! – Pensou e saiu, sem pensar em mais nada. Não iria pensar em mais nada dali para a frente!
- Estás o máximo! Ele baba-se quando te vê! Vai e só espero que seja para resolver a tua situação duma vez por todas. Já deste mais do que provas que o lugar é teu. Nem que estivesses toda desgrenhada ele notava, podes crer! Da maneira como te admira!...
Pira-te que eu fico em picos para saber as novidades.
- Bom dia, Dr. Tinha a indicação na secretária de que queria falar comigo.
- Sim. Entra, por favor, fecha a porta e senta-te.
Sentiu o coração bater aceleradamente! Não era aquela a expressão que lhe costumava ver no rosto! Não iria ser sobre a situação dela na empresa. Se fosse, não estaria com aquele ar tão sério, como se tivesse acontecido algo grave.
- Apesar de não ter nada a ver com a tua vida pessoal, logo de manhã recebi um telefonema que me deixou apreensivo. – Notando o ar preocupado da colega (era linda, como ele queria aproximar-se mais dela, mas a sua posição não o permitia e detestava “diz que disses” na empresa. Jamais misturara assuntos pessoais com a sua vida profissional. Não daria bom resultado, mas não podia deixar de sentir sempre aquele calafrio no estômago quando falava com ela, quando se olhavam.
– Pelo teu ar, dá para perceber que não sabes de nada…
Ela olhava-o, expectante. Impossível que ele pudesse saber alguma coisa! Era demasiado cedo. Resolveu ser directa e atirar logo a pergunta sem vacilar:
– Passa-se alguma coisa que eu deveria saber? Fiz algo errado? Agradeço que seja directo porque com certeza terei uma explicação para o sucedido, ainda que, sou franca, não esteja a ver de todo o que possa ser. Estava tudo em ordem quando ontem saí…
-Não! Não tem nada a ver com o teu desempenho que aliás, como sabes, tem sido muito bom e estamos a dias de ter a tua admissão definitiva nos quadros.
Tem a ver com o teu amigo. – Parou, baixou por instantes os olhos, voltou a levantá-los e olhou-a.
- Com o meu Amigo? Que se passa?
- Foi encontrado na garagem de casa, dentro do carro.
- O coração ia sair-lhe do peito! Até tinha receio que o seu chefe notasse como ele batia. Conseguia ouvi-lo na cabeça, senti-lo nas mãos…
– Como, na garagem? Não estou a entender!!...
- O que te quero dizer é que ao que tudo indica ele se suicidou. Parece que vivia só, nem sei bem como te dizer isto, se sabias, se não, mas ele era casado e ao que soube também, a mulher estava há tempos no IPO.
Perdoa estar a dizer-te tudo isto tão friamente mas eu estou até agora incrédulo porque, como sabes, eras a gestora das empresas dele e não queria acreditar que ele mantinha uma relação contigo sendo casado e com filhos.
– Sentiu as lágrimas a correrem sem conseguir dizer nada.
Estar ali, em frente a um estranho (sim, que a relação dos dois era meramente profissional) e ter que simular, ter que esconder que sabia, sim, que, que!...
O Director ficou ainda mais atrapalhado do que ela. Mandou vir água, café para os dois e continuou, agora num tom mais terno, quase paternal, ainda que a diferença de idades entre eles fosse mínima. Ele, um pouco mais velho, dois, três anos, por aí.
- Se quiseres, tiras o resto do dia! Não imagino sequer como te estás a sentir e lamento que o tenhas sabido por mim.
Vão tratar de fazer a autópsia, os familiares, os sogros já estão a tomar todas as providências e, fica sossegada que daqui não sairá qualquer informação sobre o teu relacionamento com ele. É óbvio que foste mais uma das suas vítimas.
- Mais uma das suas vítimas? – Perguntou, sem conseguir olhar o colega.
- Tal como mantinha um relacionamento contigo, mantinha com outras tantas que ocupavam cargos de importância, em empresas. Lamento pela mulher dele, pelos filhos!
Mas a vida continua, e, infelizmente, este não foi o único caso nem vai ser o último. Há indivíduos assim, sem escrúpulos que tudo fazem para manter aparências. Só que pelo visto não aguentou mais e chegou ao desespero…
O médico que seguia a mulher era também amigo desde o tempo em que estudavam e já havia cortado relações com ele.
Pelo visto a vida não estaria tão bem assim porque para ele se ter suicidado é preciso estar completamente sem saída.
Só lamento é por ti que estiveste nas nuvens, que ao que ouvi, pensavas casar.
- Posso sair? – Perguntou. Não consigo dizer nada, desculpe. Nem sei como estou. Vou para casa, ou não, mas hoje já não consigo fazer nada.
- Claro! Tira uns dias! Se houver alguma coisa, telefono-te.
Descansa, e, sabes que podes contar comigo! Estou aqui, sempre!
- Obrigada! – Saiu, as lágrimas a correr, ouviu que a colega a chamava, sentiu os olhares dos colegas da empresa mas só queria desaparecer dali.
Foi mantendo contacto com o colega que lhe telefonava para ir sabendo como ela estava. Que tinha uma bela notícia! Havia passado aos quadros da empresa e passariam a trabalhar em conjunto!
- Quando voltaria? Dali a mais uma semana. Só o tempo de acabar a mudança. Não queria ficar naquele andar que lhe trazia recordações que ela não queria por nada voltar a viver. Podia ser?
- Claro que sim! Já estavam todos com saudades e havia projectos para tratar mas que antes de tudo queria muito que ela estivesse bem, que poderia contar com ele!
Sorriu. Pensava nas vezes que ela e a colega haviam brincado com o ar patético com que o Director ficava quando a via chegar. Afinal, encontrou ali um amigo, que nada perguntou, que discretamente se manteve ao lado dela.
Iria voltar, sim e entregar-se-ia ao trabalho.
Guardou para o último dia duas coisas que não poderia deixar de fazer.
Entrou no IPO, dirigiu-se à secretaria, perguntou pela paciente do 5º piso, enfermaria 2.
Que já havia tido alta, que o cancro havia sido detectado a tempo e que agora voltaria só dali a um ano. Mera rotina, obrigatória nestes casos.
Agradeceu e saiu.
Meteu-se no carro.
Passou pelo prédio onde havia morado e estacionou. O porteiro estava cá em baixo e cumprimentou-a, sorridente:
- Então? Sempre nos vai deixar? Que pena! Já tem a casa nova? Ficaram lá umas coisas no andar. Vem buscar ou quer que as mande entregar nalgum sítio?
- Não. Tudo o que havia para levar já foi. A mobília do quarto fica. Gosta dela?
- Se gosto? É um luxo! Tivesse eu hipótese de comprar uma assim e a minha mulher ficava deliciada.
- Pois então, é vossa! É o mínimo que vos posso dar por toda a simpatia que sempre tiveram comigo enquanto aqui vivi.
- Mas… – Dizia o porteiro – Não posso! Deve ter sido caríssima!
- Pode sim e já é sua tal como o sofá que deixei na sala e mais umas louças que ficaram na cozinha.
Sempre que possa passo por aqui para o cumprimentar. Tudo de bom, Sr. Pereira e muito obrigada por tudo! Cumprimentos à sua Senhora.
Voltou a meter-se no automóvel. Desceu uns quarteirões, virou e abrandou até parar.
A vivenda estava fechada! Estores corridos.
Saiu do carro e permaneceu ali, a olhar.
- Era alguma coisa? – Perguntou um Sr. com todo o aspecto de vendedor.
- Estava só a ver! Bonita vivenda! Parece estar fechada! Está à venda?
- Não! História muito complicada. O dono suicidou-se! Ao que parece tinha a vida num frangalho!
- Ah! E vai ficar assim? Fechada? É uma pena! É esplêndida!
- A família não a quer. A esposa esteve mal, julgaram até que não escapava, um cancro, ao que sei. Quando recuperou, não quis voltar para cá. Disse-me apenas que informasse quem pudesse mostrar interesse na casa que dissesse simplesmente que aqui, no Nº 52… já ninguém mora e … nem nunca mais vai morar! Será demolida.
É, minha Senhora. Histórias de gente rica!
Mas tenho outros lotes que lhe posso mostrar…
- Não, Amigo! Foi mesmo só interesse por achar a casa bonita! Bom resto de tarde!
Meteu-se no automóvel, tocou o telefone:
- Então? Sempre te vejo hoje? Podíamos jantar e já te ponho ao corrente do que está a ser feito em termos de projectos. Espero que tenhas descansado bastante porque tens aqui muito para fazer.
- Claro! Só o tempo de ir trocar de roupa a casa e encontramo-nos no restaurante lá próximo da empresa. Até já!
- Está mesmo tudo bem contigo?
- Agora está! Finalmente!
- Carne ou peixe?
- Peixe!
- Pagamos a meias? – Ouviu-o sorrir – Estou a meter-me contigo!
- Não! Deixamos na conta da empresa! – Disse, a rir com gosto, como há muito não fazia!
Texto enviado por: Cristina
julho 07, 2007
desafio (Texto XIII)
No 52...já ninguém mora !
Cheguei e sentei-me.
Coloquei a mala a meus pés e olhei de frente a casa. Quase nada mudara. Fiquei ali a contemplá-la durante um bom bocado. Parece que o tempo voltara atrás e que ainda via em alguns dos rostos que passavam, as feições de crianças que por ali andavam. O vento soprava de mansinho e o cheiro a Verão invadia o ar. Quase não havia carros ou pessoas na rua. Olhei à minha volta e reparei que cada cantinho daquele largo, escondia um segredo. Sorri. Relembrei o dia em que te encontrei pela primeira vez.
Estava sentada no passeio em frente à minha casa e tu caminhavas do outro lado da rua. Em passos fortes, seguros, compassados. Trazias no rosto a calmaria de uma noite de Verão. Olhei-te e perdi-me na imensidão do teu ser. Não consegui tirar os olhos de ti. Continuaste caminhando e a certa altura paraste e olhaste-me de soslaio. Fingi que não vi. Apercebendo-te do meu pouco à vontade, viraste-te para mim e sorriste. Fui incapaz de não te sorrir. A rebeldia das águas do mar em dias do mais rigoroso Inverno, estava agora no meu peito. Senti-me voar. Quis dizer-te Olá, mas a minha boca recusou a mexer-se e os lábios a colaborar. Continuaste a andar. No dia seguinte, no outro, no outro e no outro, esperei-te. Não vieste. Por força do destino, 3 meses depois fomos obrigados a mudar de casa. Estive fora do país 10 anos.
A única coisa que sabia era que moravas no n. 52 da Rua das Papoilas. Durante todo esse tempo perguntei-me por ti. Onde estavas? Como? Terias mudado? Já não terias aquela farta cabeleira loura? Apercebi-me que fazias parte de mim, como nenhuma outra pessoa. Adormecia e acordava a ver-te sorrir. Há um mês, decidi voltar e procurar-te. Trouxe as malas cheias de saudade e aqui estou; no mesmo largo, a contemplar a tua casa e a ganhar coragem para ir bater na tua porta...para te dizer olá. Atravesso a estrada e respiro fundo. Levanto a mão de punho fechado e bato à tua porta. Uma velhinha da casa ao lado, vem à janela e pergunta:
-Oh menina, quem procura?
A família e o menino mudaram-se ontem .
No 52...já ninguém mora!
Texto enviado por: Senhora do Vento
Cheguei e sentei-me.
Coloquei a mala a meus pés e olhei de frente a casa. Quase nada mudara. Fiquei ali a contemplá-la durante um bom bocado. Parece que o tempo voltara atrás e que ainda via em alguns dos rostos que passavam, as feições de crianças que por ali andavam. O vento soprava de mansinho e o cheiro a Verão invadia o ar. Quase não havia carros ou pessoas na rua. Olhei à minha volta e reparei que cada cantinho daquele largo, escondia um segredo. Sorri. Relembrei o dia em que te encontrei pela primeira vez.
Estava sentada no passeio em frente à minha casa e tu caminhavas do outro lado da rua. Em passos fortes, seguros, compassados. Trazias no rosto a calmaria de uma noite de Verão. Olhei-te e perdi-me na imensidão do teu ser. Não consegui tirar os olhos de ti. Continuaste caminhando e a certa altura paraste e olhaste-me de soslaio. Fingi que não vi. Apercebendo-te do meu pouco à vontade, viraste-te para mim e sorriste. Fui incapaz de não te sorrir. A rebeldia das águas do mar em dias do mais rigoroso Inverno, estava agora no meu peito. Senti-me voar. Quis dizer-te Olá, mas a minha boca recusou a mexer-se e os lábios a colaborar. Continuaste a andar. No dia seguinte, no outro, no outro e no outro, esperei-te. Não vieste. Por força do destino, 3 meses depois fomos obrigados a mudar de casa. Estive fora do país 10 anos.
A única coisa que sabia era que moravas no n. 52 da Rua das Papoilas. Durante todo esse tempo perguntei-me por ti. Onde estavas? Como? Terias mudado? Já não terias aquela farta cabeleira loura? Apercebi-me que fazias parte de mim, como nenhuma outra pessoa. Adormecia e acordava a ver-te sorrir. Há um mês, decidi voltar e procurar-te. Trouxe as malas cheias de saudade e aqui estou; no mesmo largo, a contemplar a tua casa e a ganhar coragem para ir bater na tua porta...para te dizer olá. Atravesso a estrada e respiro fundo. Levanto a mão de punho fechado e bato à tua porta. Uma velhinha da casa ao lado, vem à janela e pergunta:
-Oh menina, quem procura?
A família e o menino mudaram-se ontem .
No 52...já ninguém mora!
Texto enviado por: Senhora do Vento
julho 06, 2007
julho 05, 2007
Desafio (Texto XII)
No 52...já ninguém mora !
- Descobri o beco que antes tinha enganosamente admitido conhecer, após reviver velhas sensações de quando era ali morador, inocente de todas as reviravoltas que a vida tem para toda a gente. O beco era consideravelmente grande, com prédios baixos, desiguais e afastados, notando-se um cheiro nauseabundo que não esperava encontrar, mas que seria de esperar se me recordasse apenas das palavras do velhote. O sítio estava deserto, mas ouviam-se algumas pancadas, lentas, arrastando-se tarde fora e secas. Reparei que provinham de um indivíduo de boné, tichârte e calças sujas que, paciente, pregava umas tabuinhas na porta de uma casa velha, caindo aos bocados. De repente, levantou um vento inesperadamente frio, não forte, mas penetrante e incomodativo. Aproximei-me e encarei o sujeito do martelo, a quem perguntei onde habitava o senhor, o qual tentei descrever da melhor forma que me era possível. Ele pareceu não reagir, não colaborar. Decidi-me a acrescentar, numa última tentativa, o que se revelou a característica decisiva, Um senhor que tinha uma estranha doença que o fazia ter frio a toda a hora, disse eu atabalhoado. A isto, ele olhou-me pela primeira vez e disse, Ah, procura o Baltasar, chamavam-lhe o Baltasar do gelo. Ele vive aqui, é engraçado. Ou pelo menos vivia, hoje de manhã finou-se. Houve um incêndio grave na cozinha que o levou. Agora aqui no 52... já ninguém mora.
- As palavras ressoavam nos meus ouvidos quando me afastava, senti o peso das batatas e perguntei-me sobre a importância que afinal uns meros quilos de batatas podem ter neste mundo, se no tempo de os transportar ao outro lado da cidade, morre uma pessoa.
Tomou conta de mim um grande lamento, mas descansei quando imaginei o senhor Baltasar perante as fortes, laranjas, quentes labaredas, sorrir pela primeira vez desde que perdeu a mulher, sentir pela primeira vez a pele desde que perdeu a saúde. O senhor Baltasar enfrentando, entregando-se à chama, a única que nos últimos anos de vida o compreendeu e aqueceu.
- Atirei-me num passo mais ritmado e segui o meu caminho.
Texto enviado por: SilentFreak
Estando eu caminhando, na rua, em direcção a um encontro importante e embranhado em pensamentos e ideias, oiço uma voz idosa chamar, Se o jovem não se importava de dar uma ajudinha, voz essa cuja origem demorei ainda um instante a descobrir.
- Deparei-me com um senhor de óculos de um amarelo escuro, já quase plenamente calvo, com aspecto cansado, e estranhamente envergando uma abundância de agasalho para o tempo de praia que fazia. Apelidou-me de jovem pois já devia ter percorrido uns setenta anos, e indagou-me acerca da localização do Centro de Pesquisas Farmacêuticas e Químicas. Acrescentou, Sei que é por aqui mas um rapaz fez-me já andar às voltas com o que me indicou, disse-me que era para esse lado, e o malfadado homem apontou para o sítio de onde vim. Eu disse, É verdade, pode-se ir por lá, mas venha comigo que é mais perto por aqui, e vou lá passar. Ofereci-me também para levar o mais pesado dos sacos que carregava, ao que acedeu. Lá dentro iam batatas.
- Já antevia um passeio silencioso dado o evidente carácter pacato do meu interlocutor, mas porém assim não foi. Antes contou-me que a sua demanda era quase sem esperança. Por morar num lugar junto de uma descuidada fossa séptica a céu aberto, a sua saúde ter-se-ia degradado. De médico em médico, hospital em hospital, e já neste centro de investigação de farmácia tinha buscado auxílio em vão. Queixava-se há anos de um frio imenso e petrificante dentro de si, É por isso que ando devagar. Explicou-me que ninguém lhe detectava o problema que, Pode ser a nível capilar, sim, mas de certeza que é na minha pele, pois se vivo naquelas condições sanitárias!. Isto dizia debalde aos doutores, que o rechaçaram sempre, sempre ignorado. Mesmo eu só lhe soube dizer, entre as suas frases, que o que ele pensava tinha lógica, que o seu mal era por demais estranho, e que fazia bem buscar apoio em sítios diferentes.
- Condescendente das minhas réplicas inconsequentes, continuou o seu relato, explicou como tinha sido despedido de um emprego estável na junta de freguesia, onde não suportava estar no inverno ao ponto de congelar; como tinha acompanhado o frio cancro que lhe tomou a esposa, que viu friamente morrer, pleno de frio. De tudo isso sobrou o frio, confessou-me, e olhou absorto o caminho.
- De súbito, levou as mãos a um saco e mostrou-me o seu conteúdo, visto que eu era um "jovem que parecia compreender". Tinha uma série de objectos oriundos da fossa. Desabafou, Se pudesse até fazia com que analisassem as minhas roupas, a ver se não encontravam magotes de gases! E de novo se calou.
- Como faltasse ainda um pouco de caminho, e presumia que o silêncio iria entristecer o meu companheiro aflito de memórias, perguntei onde ele morava, ao que me respondeu, Na Pontinha, essa bela terra, com desapontamento na voz. Admirei-me, e foi quase com um inapropriado entusiasmo que lhe revelei que já lá tinha morado uns anos, na avenida dos Bombeiros Voluntários. Esses são outros, reclamou, ligando para lá, eles analisam o perigo da fossa, mas calam-se quando pergunto porque não lhe arranjam solução. Se já lá morou talvez conheça então a tristeza do beco das Fontanelas... Pergunto se lá morava há muito. Fez um silêncio como quem chama a atenção ao que vai ser dito, e seco, de orgulho e impotência, exclamou, 40 anos.
- Quase chegados ao seu destino, perguntei-lhe se alguém o aguardava no centro, ao que ele replicou que, Não, venho com Deus ou com o Diabo. Parados à entrada que lhe indiquei, esfregou a cara e, encarando-me, prosseguiu a reflexão, Se mesmo o amigo me ajudou a vir até aqui, e eu retribuiria se pudesse, porque é que não há uma única alma que olhe para o meu caso? E, depois de uma pausa breve: Porque é que nós não podemos viver em paz?
- Desejando o melhor para o outro, despedimo-nos, balbuciei algo contra o egoismo humano, e de tão estupefacto só depois me lembrei da pessoa que me esperava, e só mais tarde ainda reparei que tinha inadvertidamente privado o homem do seu saco de batatas!
No dia seguinte, procurei à hora do jantar a moradia do malogrado senhor, que tinha ficado agradecido apenas por lhe ter indicado o caminho e com ele ter conversado durante uns minutos. O que para mim tinham sido breves instantes, teriam talvez sido bem mais na sua idosa mente, bastante sensível a quem quer que lhe desse atenção, neste mundo. E tendo também isso em conta não poderia nunca deixar de lhe entregar as devidas e esquecidas batatas.- Deparei-me com um senhor de óculos de um amarelo escuro, já quase plenamente calvo, com aspecto cansado, e estranhamente envergando uma abundância de agasalho para o tempo de praia que fazia. Apelidou-me de jovem pois já devia ter percorrido uns setenta anos, e indagou-me acerca da localização do Centro de Pesquisas Farmacêuticas e Químicas. Acrescentou, Sei que é por aqui mas um rapaz fez-me já andar às voltas com o que me indicou, disse-me que era para esse lado, e o malfadado homem apontou para o sítio de onde vim. Eu disse, É verdade, pode-se ir por lá, mas venha comigo que é mais perto por aqui, e vou lá passar. Ofereci-me também para levar o mais pesado dos sacos que carregava, ao que acedeu. Lá dentro iam batatas.
- Já antevia um passeio silencioso dado o evidente carácter pacato do meu interlocutor, mas porém assim não foi. Antes contou-me que a sua demanda era quase sem esperança. Por morar num lugar junto de uma descuidada fossa séptica a céu aberto, a sua saúde ter-se-ia degradado. De médico em médico, hospital em hospital, e já neste centro de investigação de farmácia tinha buscado auxílio em vão. Queixava-se há anos de um frio imenso e petrificante dentro de si, É por isso que ando devagar. Explicou-me que ninguém lhe detectava o problema que, Pode ser a nível capilar, sim, mas de certeza que é na minha pele, pois se vivo naquelas condições sanitárias!. Isto dizia debalde aos doutores, que o rechaçaram sempre, sempre ignorado. Mesmo eu só lhe soube dizer, entre as suas frases, que o que ele pensava tinha lógica, que o seu mal era por demais estranho, e que fazia bem buscar apoio em sítios diferentes.
- Condescendente das minhas réplicas inconsequentes, continuou o seu relato, explicou como tinha sido despedido de um emprego estável na junta de freguesia, onde não suportava estar no inverno ao ponto de congelar; como tinha acompanhado o frio cancro que lhe tomou a esposa, que viu friamente morrer, pleno de frio. De tudo isso sobrou o frio, confessou-me, e olhou absorto o caminho.
- De súbito, levou as mãos a um saco e mostrou-me o seu conteúdo, visto que eu era um "jovem que parecia compreender". Tinha uma série de objectos oriundos da fossa. Desabafou, Se pudesse até fazia com que analisassem as minhas roupas, a ver se não encontravam magotes de gases! E de novo se calou.
- Como faltasse ainda um pouco de caminho, e presumia que o silêncio iria entristecer o meu companheiro aflito de memórias, perguntei onde ele morava, ao que me respondeu, Na Pontinha, essa bela terra, com desapontamento na voz. Admirei-me, e foi quase com um inapropriado entusiasmo que lhe revelei que já lá tinha morado uns anos, na avenida dos Bombeiros Voluntários. Esses são outros, reclamou, ligando para lá, eles analisam o perigo da fossa, mas calam-se quando pergunto porque não lhe arranjam solução. Se já lá morou talvez conheça então a tristeza do beco das Fontanelas... Pergunto se lá morava há muito. Fez um silêncio como quem chama a atenção ao que vai ser dito, e seco, de orgulho e impotência, exclamou, 40 anos.
- Quase chegados ao seu destino, perguntei-lhe se alguém o aguardava no centro, ao que ele replicou que, Não, venho com Deus ou com o Diabo. Parados à entrada que lhe indiquei, esfregou a cara e, encarando-me, prosseguiu a reflexão, Se mesmo o amigo me ajudou a vir até aqui, e eu retribuiria se pudesse, porque é que não há uma única alma que olhe para o meu caso? E, depois de uma pausa breve: Porque é que nós não podemos viver em paz?
- Desejando o melhor para o outro, despedimo-nos, balbuciei algo contra o egoismo humano, e de tão estupefacto só depois me lembrei da pessoa que me esperava, e só mais tarde ainda reparei que tinha inadvertidamente privado o homem do seu saco de batatas!
- Descobri o beco que antes tinha enganosamente admitido conhecer, após reviver velhas sensações de quando era ali morador, inocente de todas as reviravoltas que a vida tem para toda a gente. O beco era consideravelmente grande, com prédios baixos, desiguais e afastados, notando-se um cheiro nauseabundo que não esperava encontrar, mas que seria de esperar se me recordasse apenas das palavras do velhote. O sítio estava deserto, mas ouviam-se algumas pancadas, lentas, arrastando-se tarde fora e secas. Reparei que provinham de um indivíduo de boné, tichârte e calças sujas que, paciente, pregava umas tabuinhas na porta de uma casa velha, caindo aos bocados. De repente, levantou um vento inesperadamente frio, não forte, mas penetrante e incomodativo. Aproximei-me e encarei o sujeito do martelo, a quem perguntei onde habitava o senhor, o qual tentei descrever da melhor forma que me era possível. Ele pareceu não reagir, não colaborar. Decidi-me a acrescentar, numa última tentativa, o que se revelou a característica decisiva, Um senhor que tinha uma estranha doença que o fazia ter frio a toda a hora, disse eu atabalhoado. A isto, ele olhou-me pela primeira vez e disse, Ah, procura o Baltasar, chamavam-lhe o Baltasar do gelo. Ele vive aqui, é engraçado. Ou pelo menos vivia, hoje de manhã finou-se. Houve um incêndio grave na cozinha que o levou. Agora aqui no 52... já ninguém mora.
- As palavras ressoavam nos meus ouvidos quando me afastava, senti o peso das batatas e perguntei-me sobre a importância que afinal uns meros quilos de batatas podem ter neste mundo, se no tempo de os transportar ao outro lado da cidade, morre uma pessoa.
Tomou conta de mim um grande lamento, mas descansei quando imaginei o senhor Baltasar perante as fortes, laranjas, quentes labaredas, sorrir pela primeira vez desde que perdeu a mulher, sentir pela primeira vez a pele desde que perdeu a saúde. O senhor Baltasar enfrentando, entregando-se à chama, a única que nos últimos anos de vida o compreendeu e aqueceu.
- Atirei-me num passo mais ritmado e segui o meu caminho.
Texto enviado por: SilentFreak
Divagações (Identidade)
Não escrevo para saber quem sou, mas sim para saber no que me estou a transformar !
Ditos...
" A sorte do Governo é que, se a Europa correr mal, o campeonato de futebol começa já para o mês que vem."
(Fernando Sobral - Jornal de negócios)
(Fernando Sobral - Jornal de negócios)
julho 04, 2007
O Mistério do Nº 52
Não sei se conseguirei escrever aqui o que se passou ou o que ainda se passa no famoso nº 52. Mas sou o único que o pode fazer. Todos os outros estão mortos ! O diário em meu poder é a prova disso mesmo. Mais tarde ou mais cedo acabarei por contar, e acabarei por ter o mesmo fim. Por agora, que perdure o mistério durante mais algum tempo para quem lá passa, e que todos continuem a pensar que no 52...já ninguém mora ! (os cadáveres lá continuam a aparecer, um a um, sem sinal algum de violência...)
Desafio (Texto XI)
No 52...já ninguém mora !
Uma sexagenária habitante de Alfama, no nº 52 da Rua da Regueira, foi ontem roubada e violada por um indíviduo que de acordo com a Polícia Judiciária se pôs em fuga após ter perpetrado os crimes. De acordo com testemunhas oculares, estava a D. Lucinda à sua porta a limpar a gaiola do canário que lhe alegra os dias e apareceu-lhe um homem bem posto, uma estampa de homem mesmo, a dizer que precisava de verificar as ligações do gás natural e com umas falas tão meigas que até lhe elogiou os cabelos todos branquinhos que está bom de ver, menina, ela o deixou entrar sem alarido nenhum. O sujeito era um finório e mal se viu lá dentro pôs-lhe as mãozinhas no ombros, apertou como tenazes e perguntou o lugar do dinheiro como se os poucos mais de 200 euros que ela recebe de reforma dessem para arrecadar em algum lugar. Aquele malandro, que não tem outro nome, irritou-se e sacou-lhe o lenço que lhe cobria os ombros e amordaçou-a e ainda a empurrou contra a mesa que ela tinha no meio da saleta sempre com uma jarrinha de flores e depois, desatou a abrir portas e gavetas num alvoroço que se devia ouvir no fundo da rua. Mas bem vê a menina que ali somos só velhotas sem ninguém e sem forças para fazer fosse o que fosse. Danado que estava atirou-se a ela e rasgou-lhe a blusa e a saia à custa de muito murraça, daquelas que ecoam prédio acima e, grande sacana, pôs-se nela à força que era coisa que ela já não julgaria possível desde que o seu falecido tinha ido, vai para mais de dez anos. E depois aquela coisa horrível que não vi, mas ó menina, ouvi os polícias que aqui estavam dizerem que ela morrera asfixiada que aquele canalha, não satisfeito, meteu-lhe o coiso ainda a pingar pelas goelas adentro e ela nem forças teve para o morder todo e arrancar-lho em pedaços que era o que ele merecia e ficou-se ali como um passarinho. Agora o senhorio é muita gente que está em partilhas e depois querem vender isto por andares e no 52 que era só o rés-do-chão dela, já não mora ninguém.
Texto enviado por: maria_arvore
Uma sexagenária habitante de Alfama, no nº 52 da Rua da Regueira, foi ontem roubada e violada por um indíviduo que de acordo com a Polícia Judiciária se pôs em fuga após ter perpetrado os crimes. De acordo com testemunhas oculares, estava a D. Lucinda à sua porta a limpar a gaiola do canário que lhe alegra os dias e apareceu-lhe um homem bem posto, uma estampa de homem mesmo, a dizer que precisava de verificar as ligações do gás natural e com umas falas tão meigas que até lhe elogiou os cabelos todos branquinhos que está bom de ver, menina, ela o deixou entrar sem alarido nenhum. O sujeito era um finório e mal se viu lá dentro pôs-lhe as mãozinhas no ombros, apertou como tenazes e perguntou o lugar do dinheiro como se os poucos mais de 200 euros que ela recebe de reforma dessem para arrecadar em algum lugar. Aquele malandro, que não tem outro nome, irritou-se e sacou-lhe o lenço que lhe cobria os ombros e amordaçou-a e ainda a empurrou contra a mesa que ela tinha no meio da saleta sempre com uma jarrinha de flores e depois, desatou a abrir portas e gavetas num alvoroço que se devia ouvir no fundo da rua. Mas bem vê a menina que ali somos só velhotas sem ninguém e sem forças para fazer fosse o que fosse. Danado que estava atirou-se a ela e rasgou-lhe a blusa e a saia à custa de muito murraça, daquelas que ecoam prédio acima e, grande sacana, pôs-se nela à força que era coisa que ela já não julgaria possível desde que o seu falecido tinha ido, vai para mais de dez anos. E depois aquela coisa horrível que não vi, mas ó menina, ouvi os polícias que aqui estavam dizerem que ela morrera asfixiada que aquele canalha, não satisfeito, meteu-lhe o coiso ainda a pingar pelas goelas adentro e ela nem forças teve para o morder todo e arrancar-lho em pedaços que era o que ele merecia e ficou-se ali como um passarinho. Agora o senhorio é muita gente que está em partilhas e depois querem vender isto por andares e no 52 que era só o rés-do-chão dela, já não mora ninguém.
Texto enviado por: maria_arvore
Desafio (Texto X)
No 52...já ninguém mora !
E, sim, era como um suspiro esta coisa de lhe bordejar a porta pela noitinha e tentar ainda sentir o cheiro a leite-creme queimado com um velho ferro de passar a ferro. Como no tempo em que nos abria a porta de mansinho, puxando o nagalho ao cimo da escada que destrancava a velha fechadura enferrujada. Ou de quando lhe saltávamos ao quintal atrás dos magnórios e das peras e ela fazia de conta que não sabia que estávamos lá. Ou de quando nos contava histórias do fantasma que habitava a casa, morava lá no sótão e só descia pelas vésperas para ajudar a pôr a prece em dia. Ou então de como tinha sido o tempo em que ali havia uma família e gente que se beijava e abraçava pelo correr das horas, enquanto pelos velhos corredores ainda havia passos pequeninos a dizer que a vida havia de continuar para além das vidas que partiam. Ou de quando enfim deixou de poder estar sozinha e afinal parecia que já ninguém tinha espaço para ela e como foi mirrando ao cimo das escadas, à espera que pela noitinha alguém viesse espreitar-lhe as cores e o estado e as maleitas. E depois, quando partimos a estudar longe e já ninguém lhe bordejava a porta, deixou-se ficar cada vez mais sozinha e já nem o velho fantasma lhe fazia companhia nas ladainhas. Morreu sozinha ao cimo das escadas, amparando a solidão de tia velha. E foi quando ela nos faltou que a casa pareceu pesar-nos uma tonelada de mágoas e já pouco importa que seja nossa. Era nossa antes, quando ela lá estava, com os seus fantasmas e as suas histórias. Agora é uma casa que nos tem, mas onde não pertencemos. A casa que herdamos, mas não merecemos. E mesmo quando puxamos o nagalho ao cimo da velha escada rangente para deixar que a porta se abra, ainda assim a escada queixa-se como se nos dissesse que não somos de lá. E é por isso que voltamos a fazer leite-creme queimado – que nunca vai saber ao mesmo – e replantamos a nespereira e a pereira do jardim. Mas até os frutos sabem diferente. E não há vésperas, claro: nenhum de nós aprendeu a rezar de forma a que até os fantasmas nos seguissem as preces. E a tia-avó partiu e não deixou fantasma. E mesmo que haja gente pela casa, no 52 já ninguém mora.
Texto enviado por: Hipatia
E, sim, era como um suspiro esta coisa de lhe bordejar a porta pela noitinha e tentar ainda sentir o cheiro a leite-creme queimado com um velho ferro de passar a ferro. Como no tempo em que nos abria a porta de mansinho, puxando o nagalho ao cimo da escada que destrancava a velha fechadura enferrujada. Ou de quando lhe saltávamos ao quintal atrás dos magnórios e das peras e ela fazia de conta que não sabia que estávamos lá. Ou de quando nos contava histórias do fantasma que habitava a casa, morava lá no sótão e só descia pelas vésperas para ajudar a pôr a prece em dia. Ou então de como tinha sido o tempo em que ali havia uma família e gente que se beijava e abraçava pelo correr das horas, enquanto pelos velhos corredores ainda havia passos pequeninos a dizer que a vida havia de continuar para além das vidas que partiam. Ou de quando enfim deixou de poder estar sozinha e afinal parecia que já ninguém tinha espaço para ela e como foi mirrando ao cimo das escadas, à espera que pela noitinha alguém viesse espreitar-lhe as cores e o estado e as maleitas. E depois, quando partimos a estudar longe e já ninguém lhe bordejava a porta, deixou-se ficar cada vez mais sozinha e já nem o velho fantasma lhe fazia companhia nas ladainhas. Morreu sozinha ao cimo das escadas, amparando a solidão de tia velha. E foi quando ela nos faltou que a casa pareceu pesar-nos uma tonelada de mágoas e já pouco importa que seja nossa. Era nossa antes, quando ela lá estava, com os seus fantasmas e as suas histórias. Agora é uma casa que nos tem, mas onde não pertencemos. A casa que herdamos, mas não merecemos. E mesmo quando puxamos o nagalho ao cimo da velha escada rangente para deixar que a porta se abra, ainda assim a escada queixa-se como se nos dissesse que não somos de lá. E é por isso que voltamos a fazer leite-creme queimado – que nunca vai saber ao mesmo – e replantamos a nespereira e a pereira do jardim. Mas até os frutos sabem diferente. E não há vésperas, claro: nenhum de nós aprendeu a rezar de forma a que até os fantasmas nos seguissem as preces. E a tia-avó partiu e não deixou fantasma. E mesmo que haja gente pela casa, no 52 já ninguém mora.
Texto enviado por: Hipatia
julho 03, 2007
julho 02, 2007
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