dezembro 05, 2007

Fui prendado !!!


A menina Fatyly tem como "óbis" o croché e o tricô (será a mesma coisa!!!) . E presenteou-me com um dos seus trabalhos, não sei como se chama a peça, bem...aquilo parece um mini-avental, ou um babete. Cá pra mim é um pano, e como tal, já lhe dei uso. O problema é que perdeu as cores originais, agora está mais para o...preto. Mas garanto que o pano é muito bom, e as botas ficaram a brilhar que até ofusca ! Obrigadinho Fatyly :)))))))))))

E como se não chegasse , ainda me manda uma obra do Sr. Hemingway onde os personagens partem em busca de uma aventura que preencha o vazio das suas vidas. Um retrato daquilo que todos "vocesses" procuram...(Fiesta).
(reparem no pormenor da pilha de livros a caminho do tecto. Gosto assim)

Uma vez mais, obrigado Fatyly (eu não merecia tanto, pah)

Desafio (texto IX)

Enviem os vossos textos para:

Crime no Motel-Non Sense

Saiu do motel a correr assustado.
Tudo tinha começado na noite anterior.
Tinha 30 anos, solteiro, saiu com os amigos para os copos nas docas.
Lembra-se que beberam muito, depois ainda foram para uma discoteca.
A namorada telefonou-lhe, mas com o barulho do som não ouviu.
Chegou a casa nem soube como, sem se despir caiu na cama e nem deu por lá entrarem .
Deram-lhe uma forte pancada na cabeça.
Grito de dor e desmaiou.
Quando acordou, tinha um papel ao lado que dizia:
"Se queres voltar a ver a tua namorada vai o Motel das Águias."
Levantou-se a custo, tomou duche, saiu e rumou ao Motel.
Estava esbaforido, irritado, com sentimento de culpa por na noite anterior se ter ido divertir.
Chegou à recepção, perguntou pelo nome da namorada e não existia ninguém com esse nome.
Mesmo que existisse, não diziam, pois é em motéis que se encontram os casados infiéis.
Começou então a abrir a pontapé todas as portas, até que parou.
Numa cama, nua, em cima dum lençol branco, coberta de sangue, estava ela toda esfaqueada, o quarto desarrumando e na mão, a fotografia da mão da avó, com o retrato do pai e tios.
Sem saber o que fazer, saiu a correr assustado…

Por: Wind

dezembro 02, 2007

Ler e Sentir...

Desfio (texto VIII)

Emoções...

- ‘Tou, Manel?
- Sim.
- Que voz! Ainda a dormir?
- Ouve lá, estás a ligar-me só para isso?
- Calma! Vê se te pões pronto porque te vou buscar daqui a meia hora!
- Ei! Qual é?... Não ‘tou numa de sair, meu!
- Ai te garanto que vais!
- Mas porque raio é que havia de ir, dizes-me? É sábado! Já me basta toda a semana a aturar aquelas bestas!
- Recordas-te da foto que te pedi? Aquela, da tua avó com a fotografia em que estás tu e as tuas irmãs?
- Sim, e…?
- Vais desculpar-me, Manel! Mas, eu sabia que havia um concurso a decorrer promovido por uma revista muito conhecida,, e, enviei-a.
- Tu o quê????
- Pá! Um dos temas era “Emoções”, e, eu sabia que a fotografia tinha mais do que hipóteses de ganhar! E ganhou, Manel!! Vais ter a tua avó na capa da revista! Vais ganhar uma pipa de massa e a organização quer falar “comigo”, quer dizer, contigo, agora, no lançamento da exposição.
- ………
- Estou! Manel, Manel!
- ………
Lembrava-se vagamente da mãe.
Talvez mais, pelo que as irmãs, sobretudo a sua Belinha, a quem sempre fora sempre mais chegado, contava. Que os havia deixado, era muito pequeno, incapaz de perceber muito bem, naquela época, porquê. Que tinham ficado com uma avó que não era de mimos, mas de muito trabalho, muita garra. À maneira dela, era assim que fora a melhor mãe e apesar dos solavancos que passaram, era dela, daquele rosto “amarrotado”, como ele dizia, que se lembrava.
Da mãe? Apenas um nome, um vulto, apenas o que lhe fora contado, o que fora escutando enquanto na aldeia viveu, até ser a altura de poder sair, de procurar a cidade, voar sozinho.
Era uma aldeia pequenina, metida na Serra do Gerês. Quando foi da construção da barragem, encheu-se de gente de fora, sobretudo de muitos homens. Na aldeia todos a olhavam, todos a cobiçavam, gulosos. Bonita mulher, aquela que lhe diziam ser a sua mãe biológica.
A avó, já viúva, sempre de negro vestida, era de poucas palavras.
Gente muito séria havia comido o pão que o diabo amassou.
O marido, seu avô, ficara por terras de África e só se lembrava dele de um retrato guardado no baú de madeira de ripas, à entrada da casa. Lembra-se bem das duas nalgadas que a sua avó lhe dera ao encontrá-lo a vasculhar entre os lençóis amarelecidos de linho, umas cartas amarelas, tipo telegrama. Cartas do avô para ela escritas por um vizinho de beliche, lá na camarata, na Guiné. De estar tudo guardado numa caixinha de madeira, mais umas medalhas, uns botões de farda dourados; de não ter percebido porque ela ficara assim, tão zangada.
Tirara-lhe tudo das mãozitas pequenas, metera tudo de novo na caixa e fechara o baú.
Ai dele, se lhe voltasse a mexer!
Pequenito, foi a correr atrás da sua Belinha, pedir-lhe colo.
“Que asneira tinha ele feito? “, perguntara-lhe a sua irmã, sempre tão docinha com ele. “Que tinha mexido na mala de madeira da avó, a da entrada, que tinha visto aquela caixinha, que a abriu e estavam lá umas coisas. Que a avó veio por trás dele e lhe dera duas sapatadas, que tinha ficado toda zangada e que se ele voltasse a abrir a mala que nem sabia de que terra seria! Mas que a vira depois a chorar e ele não percebeu porquê.
A irmã, com muito carinho explicou-lhe que o avô não tinha conseguido escapar, tal como os outros amigos da aldeia, não tinha conseguido passar, a salto, para Espanha e tivera que ir cumprir o serviço militar para África.
Tinham tido duas filhas, uma que morrera cedo, ainda pequena, assim, da idade dele, com umas febres muito altas. Que lhe haviam posto papas de linhaça, mas que não havia médico na aldeia, e, a menina não se salvara. Que nem o avô a conhecera, porque ficara por lá, longe, e, nem campa havia dele, lá no cemitério da aldeia.
Apenas a da sua tia, que a avó ia limpar no dia de todos os santos.
A outra, a sua mãe, era linda!
Não havia ninguém que não a achasse um primor de mulher.
O rapazito, ainda com duas grandes lágrimas a sulcar-lhe a cara, já estava atento, de olho bem aberto. Isabel era a irmã preferida. As outras estavam a estudar na cidade, em casa dum tio, irmão do pai, que ele não conheceu. Mas isso era uma outra história que a sua Belinha lhe contara há algum tempo. Com as costas da mão, limpou o nariz, depois duma grande fungadela, secando-a de seguida à camisola, já meio enfarruscada. A sua irmã sorria mas ele queria ouvir mais, queria saber porque era assim a avó, sempre tão triste, sempre de tão poucas falas.
A avó viu-se muito atrapalhada porque o dinheiro era pouco, e, sozinha, a tomar conta da casa, das filhas, a ter que amanhar a terra, guardar o gado, trabalhar no tear, sem ajuda de ninguém, era difícil! À sexta-feira, lá ia ela à venda do Ti Matias a ver se havia carta do seu homem.
Quando havia, era vê-la ali, à entrada, sentada, a escutar o Ti Matias a ler, a ler, aquelas cartinhas amarelinhas. Ela ia chorando, ia rindo. Depois, pedia-lhe para ele lhe responder.
Santo homem, o dono da venda. Sabia-a só, sem ninguém que por ela olhasse, com as duas filhas.
Entre duas malgas de vinho e uns bagaços que ia servindo aos compadres, lá ia escrevendo da melhor que maneira que podia, com umas letras encavalitadas, contando de como ia a vida na aldeia, de como estavam lindas as meninas, de como ela esperava que ele voltasse dali a uns meses. Naquela sexta-feira, fora o Ti Matias lá a casa. Não levava carta, mas, um embrulho.
A Avó Mariquinhas andava no campo a amanhar a erva para deitar ao gado.
Viera a correr. Viu-lhe o sobrolho carregado, chamou as filhas, mandou-o sentar, perguntou-lhe se queria beber alguma coisa. Que não, que deixara a venda só e que não podia demorar. Que fora a G.N.R. que lhe levara aquele embrulho para entregar a uma tal de Maria Costa. Que o seu marido tinha morrido como um Herói a lutar pela Pátria. Que não houve forma de enviar o corpo, que lamentavam. As meninas choraram muito e desde aquele dia, a Avó Mariquinhas vestiu-se de preto, amarrou o lenço na cabeça e ninguém mais a viu rir.
Depois foi a enterrar a sua tia, irmã da mãe. Que era um anjinho, não era? ,perguntava o Manel. E sua irmã dizia-lhe que sim.E a mãe? Porque tinha ido embora?
Ficavam por ali, sentados no fundo das escadas, ele no seu colo, ela muito terna, limpando-lhe a carita, fazendo-lhe festas, enchendo-o de mimo. Estava ali, ainda não refeito pela notícia recebida pelo amigo, e toda uma história, uma vida de gente que era sua, num passado que fizera os possíveis por deixar quieto, mas que saltara para a almofada ao lado da dele.
Lembrava-se bem daquela fotografia. Sempre fora muito observador. Na escola, ainda petiz, a professora dizia que se houvesse hipótese, deviam mandá-lo para a cidade, para seguir os estudos. A Avó, já de idade avançada, mandara dizer ao irmão do seu genro (sim, que apesar da filha ter decidido abalar para as “Estranjas”, que o sobrinho, o Manuel, era um rapaz esperto, que teria futuro, mas não ali, naquela aldeia metida na Serra.)
A resposta veio num sábado frio, soalheiro, de carro.
Que levariam o rapaz, que o meteriam no colégio, em Braga. Que ela poderia ficar sossegada, porque o estabelecimento era de cariz religioso, muito severo, e ele, se desse mostras do que valia, teria futuro. Ainda ouvia o choro da sua Belinha, via-a a meter meia dúzia de peças de roupa num saco, entre choro e pedido de juras de que ele lhe escreveria a contar de como era a cidade para onde ia. Lembrava-se de ir encafuado, no banco de trás do carro grande, de não conseguir olhar, de não acenar, de não atirar os beijos àquela que fora o seu colo.
- Então? – Perguntou-lhe o tio – Estás em que classe?
- Havia feito o exame de admissão, a professora dizia que ele tinha muito jeito para desenho, para artes, que gostava muito de ver as fotografias das revistas que ela levava para a escola. Que ele gostaria de um dia poder tirar retratos, assim, bonitos, como aqueles que ela lhe mostrava.
- Ora, então vamos ter um fotógrafo, é isso? – Continuou o tio.
- Eu não vou ver a minha irmã nunca mais? – Perguntara, aflito, o Manel.
- Vais, pois. Prometi à tua avó que te traria à aldeia, mais as tuas duas irmãs, no Verão, nas férias grandes. Mas agora ia ser uma vida nova para o menino! Ia tornar-se gente…
- Então, Manel? Desligaste? Ficaste sem bateria?
- Não, pá, desculpa, apanhaste-me de surpresa. Sei lá o que se passou! Devias ter-me dito que ias enviar a fotografia.
- Se tivesse dito já sabia que te oporias e mais uma vez, adiar-se-ia um sonho, Manel!
Já estás pronto? Vê se te preparas, porque a tua vida vai dar uma volta de 180º, já pensaste bem nisso?
Passo aí daqui a 45 minutos, está bem para ti? Não é preciso traje de gala, meu! Mas afina bem a caneta porque vão pedir-te autógrafos e…não só, podes crer!
O colégio era em regime de internato. Os padres, severos, sobretudo o director.
Quando chegou, sentira muitos pares de olhos que o miraram de cima abaixo.
O que ele daria para ter ali a sua Belinha!
- Já viste? Parece um labrego! Vai dar-nos que fazer! – Conseguiu ouvir de um grupo de colegas.
- Vê te pões fino! Aqui, quem chega de novo tem que obedecer-nos. Ai de ti se “mijas fora do sapato”! Levas um arraial de pancada que nem sonhas e ainda te mandamos ao gabinete do Director, para o correctivo final. Livra-te de arrebitares o cachimbo, meu parolo das berças!
Fora assim a recepção. Mostraram-lhe a camarata onde iria dormir, o encarregado, um padre já mais velhinho, cara redonda, simpático. Foi mostrar-lhe a sala onde teria as aulas, a sala de estudo, a capela. Levou-o ao refeitório, mostrou-lhe as casas de banho, colectivas.
Como faria para falar com a avó, com a irmã, a sua Isabelinha?
Escreveria as cartas que seriam lidas pelo director e se, nada houvesse a emendar, encarregar-se-iam de as fazer chegar à sua aldeia. Tinha aprendido, não só nos bancos da sua escola mas com a sua irmã, a ouvir e a saber contar uma história como ninguém.
Desde logo os professores se aperceberam do seu jeito, da forma como observava todos os pormenores. O colégio tinha uma área de artes, onde podiam desenhar, iniciar-se na fotografia e o nosso Manel, cheio das imagens, das fotos que a sua primeira professora lhe mostrara, foi aprendendo a manejar a máquina fotográfica. Aqueles que, quando ele havia chegado, o tinham ameaçado, acabaram por perceber que ele tinha mesmo muito jeito e o Jornal que decidiram fazer tinha fotografias que ele lhes fazia. Aos Domingos, o seu tio ia buscá-lo, almoçava lá em casa, e começara a conversar com as suas duas irmãs, a Maria e a Madalena (esta última com o nome da tia que havia falecido cedo, tal como a sua Belinha lhe havia contado). Não conseguia ter grandes afinidades com qualquer uma delas. Era recíproco. Pouco importava já que a que tinha, a que lhe era tão queria, preenchia-lhe todo o espaço e ocupava-lhe o coraçãozito de rapaz.
Era o dia do seu aniversário. O tio fora buscá-lo.
O presente? Iam à aldeia, à sua aldeia.
Ia ver a sua Belinha, iriam juntar-se os quatro irmãos, lá na casa da Avó Mariquinhas.
Chegaram e um ror de garotos corria atrás do carro! Sabiam que vinha o Manel, queriam ver como é que ele estava, agora que era um menino da cidade.
Parado o carro à porta da sua casa, o coração bateu mais depressa. A sua Avó lá estava, e, sorria, de mão por cima da sua Isabelinha que se havia tornado numa rapariguinha tão bonita!
- Trouxemos bolo, ’Ti Maria. Faz anos o seu netinho!
O olhar da senhora ensombrou-se por momentos. Pena que não estivessem as filhas. Uma porque Deus decidira chamá-la e a outra, porque os trocara por uma vida em terras de França. Mandava dinheiro, era certo. Necessidades não passavam, até já tinha televisão, que o ‘Ti Matias da Venda lha havia posto lá em casa, para ela se distrair, nas noites de invernia.
A última carta que havia recebido da mãe daqueles quatro meninos, trazia novas de um outro casamento. Que por França ficaria, que nunca poderia voltar ali, onde o homem, o pai daquelas crianças a abandonara, grávida do mais novo, do Manel, do rapaz que ela tanto desejara.
Ah! Que importava? Tinha-se virado sozinha, tinha sabido cuidar da vida, e, se não os cobria de beijos, bem lá dentro, no seu coração, mantinha-os juntos, muito seus, tal como o seu homem havia pedido.
- Ora, ponham-se todos à volta do bolo! Vamos tirar um retrato. ‘Ti Maria! Vá! Junte-se a eles, aos seus netos!
Que não, que já era velha, que estragaria o retrato. Que ficaria a vê-los, dali, mas que tinha que lhe prometer que lhe enviaria aquela fotografia.
Prometido!
Agarrou-se à sua Belinha, deu-lhe um abraço apertado, prometeu que a viria buscar.
Que ia fazer um curso de fotografia. Que era bom aluno, tinha conseguido uma bolsa e que era no Porto, numa Cooperativa, a Árvore. Que lhe mandaria notícias, sempre, mas, que logo que pudesse a levava para a cidade para morar com ele. Mais beijos, mais lágrimas, uma carta que chegou, que o ‘Ti Matias, já velhinho, levou à casa de pedra muito lavada, com um retrato de quatro meninos ao redor dum bolo. Passaram-se anos, muitas cartas trocadas. A sua Belinha tinha casado. O seu cunhado, o médico que fora trabalhar para a aldeia, cuidava dela como ninguém, como ela merecia, com tanto carinho. Tinha um sobrinho, um rapazola de olho meigo, o Manuel Maria. (Manuel por causa dele, Maria, por causa daquela Avó que sem lhes dar beijos, dera-lhes tanto, tanto, dedicara-lhes a sua vida!)
O Manel acabou o seu curso da melhor forma, com o melhor trabalho!
Tinham gostado muito! Um preto e branco, uma mão cheia de uma vida para contar, cheia de quatro meninos com a cabeça cheia de sonhos…
Havia recebido um telefonema da irmã. Que viesse, que a Avó Mariquinhas queria falar com ele.
Chegou, de carro. Cá em baixo, no fundo das escadas daquela casa de pedra, agora com janelas com gelosias verdes e cortinas de linho com barras de crochet, esperava-o um rapazito sorridente, uma mulher linda, com os olhos mais lindos que ele jamais esqueceria e um amigo, o seu cunhado. Depois dos abraços, de pegar no rapaz e pô-lo às cavalitas, subiram os degraus.
Na cozinha, sentada na cadeira de baloiço, estava a sua Avó, toda de negro vestida, de mantinha nos joelhos. As achas crepitavam e sentia-se no ar um aroma a sopa de feijão de fazer crescer a água na boca. Olhou-a. Nunca a tinha visto de cabeça descoberta, apenas se lhe viam uns cabelos alvos, mais alvos que a neve que já cobria os muros da aldeia.
No seu regaço, uma caixa.
- Então, ‘Ti Mariquinhas? Como estamos? Tinha saudades minhas?
- Nem sabes! – disse-lhe a irmã. Fala pouco, agora. Mas quando olha aquele retrato, passa os dedos pela tua cara e vemo-la sorrir.
- Ora então, vamos fazer com que o sorriso se estenda a todos nós.
E, com a maior das ternuras, abriu a caixa, pegou no retrato e pediu à sua Avó que abrisse a sua mão. Ela fez um gesto, disse que era uma mão feia, amarrotada, como ele lhe dizia quando era pequenito….
- Qual amarrotada, qual quê?
Foi buscar a máquina.
E ali, naquela cozinha, apenas com a luz que vinha da lareira onde acabava de cozer a bela sopa de feijão, ouviu-se um “clic”
- Avó vai ser com a sua mão, com esta história de vida que acabarei o meu curso.
A estas mãos devemos o que temos, o que somos hoje.
Não nos deu beijos, deu-nos muito mais do que isso. Deu-nos a sua coragem, a sua força, o nunca desistir.
Não me lembro da minha mãe, da sua filha. Guardo comigo a minha Belinha, aquele colo para onde sempre corri.
Mas não vou esquecer nunca esta mão, cheia de caminhos que vão dar ao melhor lugar do mundo: Um coração grande, doce, verdadeiro, o seu, minha querida Avó!
Olhou o relógio. Bolas! O João devia estar mesmo a chegar! Voou! Tomou um duche rápido, vestiu-se, olhou em volta, deu uma última olhada à caixinha de madeira que trouxera, que a Avó fizera questão de lhe dar, beberricou a correr uma chávena de café e ouviu a buzina do carro do amigo lá em baixo. Pegou no saco de fotografia, levou a mão ao fio de ouro, presente da sua Belinha, no último Natal, e entrou no elevador do prédio a correr.
- Boa tarde! Hoje o nosso repórter está com ar super feliz! – Disse-lhe um vizinho do prédio.
- Estou, pois! Hoje um amigo deu-me um presente.
- Um presente?
- Sim! Vou ver a história de uma Mulher, a melhor Mãe que alguém poderia ter, publicada numa revista!
- Ah! Ganhou um prémio, foi isso? Mais uma das suas belas fotografias?
- Não! Ou melhor, sim! Mas não é isso o que me importa! O importante é que se não me tivesse dado a mão, aquela senhora, a minha Avó Mariquinhas, hoje eu não teria uma história tão bela para contar!
- ‘Bora, Manel! Já lá estão todos à espera! E, prepara-te! A tua irmã é a primeira da fila para lhe autografares a revista.

Por: Cris

dezembro 01, 2007

Desafio (texto VII)

Enviem os vossos textos para:
tozribeiro@gmail.com
Desde então
Desde então por cada prazer uma ruga. Estranha esta contabilidade do céu. Dar e receber. Rugas pelos nossos prazeres e rugas pelos prazeres dos outros. Um comércio tradicional. Um alegria no tempo a trazer lágrimas hoje. Ou o contrário. Passos que não dei para que eles dessem passos mais firmes e seguros. Ilusão, claro. É por esse lado que vão as minhas mãos que já perderam a eficácia e têm agora o passado inscrito. Numa estranha linguagem escreveu-se aqui um texto que define a minha perda. O meu diálogo violento com o tempo. O meu crédito de ternura. A fotografia fica parada e trai-me. Põe na minha mão a potência do passado. Os sonhos. Quando ainda tudo era possível. Mesmo que a desconfiança aconselhasse a não esperar.

Desde então por cada beijo um desgosto. O ofício a dobrar o músculo sobre a obrigação. Os passos doridos pelo cansaço diário de não parar, de não dar tempo ao pensamento nem à dor. Tudo a equivaler-se na oração já desesperada. Para quê, Deus? As mãos fizeram o seu trabalho e andaram sempre próximas da verdade. Por isso trazem em si toda a história. Contam-na à sua maneira em gestos cada vez mais soletrados. O passado perde importância à medida que o futuro escasseia.

Desde então por cada surpresa uma dor. Não sobraram intenções. Não sobrou a volúpia de querer vencer. Não sobrou nenhum vestígio do desejo. Dizem que a cada sete anos a matéria que nos faz é toda renovada. E com a matéria vão as memórias e os desejos. Vão também os sons que se perderam e as vozes que atravessavam a alegria das conversas. Coisas que vêm do nada e a ele voltam. Só a matéria, que se renova cada vez mais disforme, permanece moldada à pressão das intempéries. E as mãos. As mãos permanentemente a negarem-nos.

Desde então por cada dia uma derrota. O sol a queimar o rosto e a esperança. A evaporar o amor e as amizades. A derreter a firmeza de laços provisoriamente eternos. E as notícias da noite a falarem de uma terra cada vez mais povoada. E o meu horizonte cada vez mais vazio. Os passos a serem cada vez mais curtos e vacilantes. E nenhum gesto de atenção a esta sobra do tempo. De repente, ainda somos, mas já não somos. As vozes já só se dizem para nos instruir, para nos ensinar o que não precisamos de saber. O que sabemos já não interessa.

Desde então por cada pensamento uma angústia. Vidas geradas para tentar. Mundos novos a descobrir. Frases novas a escrever e contar. Cumprir o estranho destino de ser. Estranha esta contabilidade do céu que só nos deixa conhecer o futuro depois, que nos dá o sonho para nos desiludir, que nos renova para nos enterrar, que nos alimenta para nos escravizar, que nos solta para nos perseguir, que nos dá a memória para esquecer, que nos dá a voz para mentir, que nos dá os sentidos para nos submeter.
Desde então por cada filho um universo.

Desafio (texto VI)

Cheguei aqui, nas curvas e contracurvas de uma jornada, longa e sofrida.
Que ficaram impressas nas rugas que marcam a minha pele tisnada pelo sol de muitos e áridos estios.
Cheguei aqui, e quase não me lembro de que fui menina.
De que tive sonhos e brinquei.
De que tive amigos, sem pensar que os tinha.
Que me deitava sem pensar no dia seguinte.
Cheguei aqui e digo:
-Afinal, o que foi a minha vida?
Qual a memória de mim que vai permanecer?
Talvez apenas uma velha e amarelecida fotografia saberá dizer alguma coisa sobre mim.
Saldo bem diminuto para a dimensão de uma vida.

Por: António Peciscas
(texto escrito em memória da minha mãe, Maria José)

novembro 30, 2007

Bom Fim de Semana

(seja lá o que isso for...)

Desafio (texto V)

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Meus queridos Filhos

Quando lerem esta carta, é porque, finalmente, vos deixei, é porque morri!
Já velha, mas a cabeça ainda a pensar bem, apesar de sempre cochicharem pensando que já não vos ouço ou não vos percebo, porque bem sei que esses ares paternalistas, querem dizer que pensam que estou surda ou ainda pior que estou senil.

Ah! Os médicos de hoje não usam a palavra senil, os parvos! Preferem a palavra demente.

Mas quem se atreverá a dizer que estou louca? Qual de vocês cheio de ganância absoluta, se atreverá a dizer que estou louca? Quando virem o testamento? Ou já o rasgaram? Chamo-lhe testamento porque são as minhas últimas vontades, mas não foi feito em notário. Já não tinha forças para tanto.

No fundo do cofre encontrarão algumas cartas que guardei como prova de que houve tempos diferentes, em que me amaram. Espero que as deitem fora, porque já nada têm a ver convosco.

Não as leiam, já nem sequer vale a pena, porque onde estão hoje em dia, já não há volta a dar.

Mas no fundo de tudo, por baixo de todos os papéis, deixo-vos a fotografia da minha mão já velha, tão velha, já tão cheia de rugas e de amargura, segurando uma fotografia tirada nos anos da Joana. Deixo-vos essa fotografia, no dia que tu Joana, fizeste 8 anos, em que tu Emílio tinhas 6, em que tu Carlos estavas quase com 4 e que tu Ana já tinhas feito os dois anos.

Deixo-vos essa fotografia, talvez para me justificar, talvez para vos relembrar que fui vossa mãe, que vos amei, que fui eu que de vós cuidei.

O exemplo que dais aos vossos filhos conta mais que qualquer palavra, que qualquer lição, que qualquer ensinamento. Olhem para trás das vossas costas, reparem nos olhares predadores dos vossos filhos, e não vos esqueçais do ditado antigo, tão antigo, mais velho que eu:

Filhos e Filhas sois,
Pais e Mães sereis
Assim como fizerdes
Assim achareis!

Por: Marta

Desafio (texto IV)

Quantos anos se passaram
quanto tempo
da foto feliz quantas emoções
imagens e vidas
desenrolaram
em finais imprevisíveis.

Guardaste a foto, avó,
para eu recordara tua presença
sempre em mim
para saber das tuas mãos
a voz da sensibilidade.

Quanto tempo?
Quantos anos?
Mil emoções...

Por: Paula Raposo

Desafio (texto III)

"Abro mão do meu Mundo"

Nesta mão tenho o meu Mundo, para sempre meu.
Guardo-os e protejo-os.
Com esta mão segurei-os e deixei-os ir.
Tristeza?! Há quem diga...
Reparem! Olhem como são belos! Mas o que mais importa???
Fecho a mão, a mão que encosto ao coração.
Com esta mão benzo-me e despeço-me
Como é belo o meu Mundo, até para uma pobre de uma só mão!

Por: Maryline " a fadista"

novembro 29, 2007

Desafio (texto II)

A cor de um momento

A memória já não é o que era. Até para pensar esta banalidade sentiu que o esforço feito era do tamanho dos anos sem-fim que cobriam o corpo em forma de quarto minguante.
O grão da imagem trazia até si lembranças de outras épocas. Os nomes surgiram-lhe como que saídos de um nada que transportou durante tanto tempo dentro de si. Era a mais velha, mas sobreviveu ao tempo, aos amigos e ao acumular de dias e noites que a transpuseram.
Agora sim lembrava aquela tarde de Verão com uma nitidez que a surpreendeu. Como o poderia esquecer?!? Foi a sua primeira festa de anos (seis ou sete, já não tinha a certeza) e reviu-se orgulhosa no seu vestido novo, de um rosa sem mácula e com um cone colorido a sorrir-lhe na cabecita. Tinha apagado do seu peito as lágrimas que se lhe ofereciam, envoltas num transparente papel de tristeza, em todos os aniversários anteriores. Hoje, apenas contava o bolo cremoso, as prendas cheias de fitas e laçarotes e os poucos amigos que lhe cantavam os parabéns. Juntos viviam felizes a primeira festa que partilhavam e prometeram que seriam sempre uma parte de todos os outros. A um canto os pais agradeciam comovidos à madrinha que da cidade grande levou os sonhos em formas de presentes para aquela menina que mal conhecia. A festa acabou, mas a ilusão de que a felicidade era possível permaneceu para sempre, mesmo quando os olhos não conseguiam admirar os raios de sol de tão cabisbaixos que andavam na terra que era preciso cultivar. Cresceu entre os montes imutáveis, as cores da natureza e com os amigos de sempre. Mas, a vida levou-os para caminhos diferentes e traçou-lhes destinos opostos…encontros fugazes, palavras mal traçadas acompanharam os anos que passaram uns após outros. A separação transformou-os em pessoas diferentes, cobriu de eras as lembranças de outros tempos, até que a Teresa lhe ligou a dizer que a Maria estava em coma no hospital.
Sentiu o rosto quente, humedecido por duas lágrimas que traçaram caminho até à camisola de algodão. Todos os dias prometia, a si mesma, que lhe ia ligar. Sabia que de todos ela era a mais carente mas nunca chegou a marcar o número…havia sempre algo mais importante para acabar e, afinal, "ela estaria lá amanhã"!
Atirou o casaco, com uma raiva contida, para o banco traseiro do seu carro e voou, apática, até ao hospital. Eles já lá estavam com o ar culpado de quem achava que o amanhã é sempre futuro.
A Maria era a mais nova e o seu sorriso permanente acompanhou-os durante a fase inicial das suas vidas. Souberam o como e o porquê, mas o vazio que se instalou entre todos eles permaneceu. Era preciso voltar ao passado, lembrar a promessa feita para acompanhar a doença da Maria. Não chegou a abandonar a cama do hospital, mas abriu os olhos para juntar as suas mãos e, com o seu sorriso, uni-los mais uma vez.
A vida passou por todos, sem o peso da solidão de outrora. A tempestade cessou, o vento soprava cálido como uma carícia em fim de tarde de Verão a abraçá-los um a um.
Dividiram os seus dias numa soma de afectos que impediu o crescer de um abandono que ameaça inundar as suas vidas.
Havia um sorriso calmo e sereno em todos os rostos de que se despediu. Ela foi ficando com sulcos vincados como uma rota traçada no mapa que era a sua pele, com névoas de Inverno a enganarem os olhos cansados e o esquecimento a esculpir o vazio que paulatinamente a invadia.
Olhava as mãos cheias de negritude, cobertas com a cor de um momento antigo, em forma de uma foto perdida no baú das lembranças. A fuga tinha sido lenta, mas dolorosa, os que receberam o seu nome e em quem corria o seu sangue esqueceram-na, como ela se foi esquecendo dos nomes, dos rostos, das situações…de si mesma.
A doença apanhou-a desprevenida e cobriu-a com as suas garras.
Por vezes, tentava dar uma história a cada ruga que lhe moldava a mão, mas era um esforço tão grande e tão inglório que rapidamente esquecia o seu propósito. Foi mais fácil saborear a felicidade que esta imagem de quatro crianças de olhares arregalados, corroída pelo tempo, lhe proporcionou. Levou-a até ao peito e fechou os olhos muito devagar… afinal há fragmentos de felicidade que ninguém consegue apagar!

Por: Carla Marques

Desafio (texto I)

Bó as tuas mãos têm tantas linhas e a minha não, porquê Bó?
Porque já estão velhinhas!
Bó quem são?
É a tua mãe, a tia e os primos.
A minha mamã?
Sim linda, porquê?
Oh Bó tu tens que mudar de óculos, essa sou eu! Pera mas eu não tenho esse vestido.
Pois não, mas a tua mãe tinha.
Ai Bó mas era tão piroso, eu gosto mais de calças.
Piroso? Foi a avó que o fez!
Bó, desculpa o vestido é lindo, mas não me faças nenhum, sim?
A mana gosta mais de vestidos, podes fazer um para ela, mas...Mas o quê?
Eu gosto mais do bolo e sabes porquê Bó?
Claro que sei é por seres um bocadinho gulosa!
Não Bó é por ser tão docinho como é a tua mão!
Gosto tanto de ti!

Por: Fatyly

novembro 26, 2007

DESAFIO

Uma Imagem... Mil Emoções
PARTICIPA E DIVULGA

Desafio a quem por aqui passa , a interpretar esta imagem !
Agradecia que enviassem os vossos textos para

novembro 25, 2007

DESAFIO ( uma imagem mil emoções)

Brevemente...

(Talvez amanhã)

Inutilidades


"Para os cegos o espelho deveria repetir os sons e não a imagem"
Gonçalo M. Tavares

Chapéu Vs Loucura

" Um homem que usava chapéu recusava tirá-lo porque lhe haviam dito que um louco nunca usava chapéu. Como queria mostrar que não era louco, usava chapéu. Simples. Um certo dia esse homem foi contratado para trabalhar no manicómio. nesse mesmo dia decidiu comprar um chapéu ainda mais alto, para que não existisse qualquer hipótese de ser confundido com um dos loucos. Os loucos não usavam chapéu. Assim, a cada ano que passava, para se destinguir mais dos loucos, aquele homem comprava um chapéu ainda mais alto. Anos mais tarde, por um qualquer motivo, foi despedido. No entanto, não esteve muito tempo fora do manicómio. É que mais tarde decidiram interná-lo: só um louco usaria na cabeça um chapéu tão alto. "

Gonçalo M. Tavares

Coisas dos signos

(Não sou dado a estas coisas dos signos, mas não sei porque razão acabo sempre por lhe passar os olhos. Nunca esteve tão absolutamente certo como hoje !!!)

" Tente não se preocupar em demasia. Não espere apoios; até terá de dar mais do que é habitual. As questões laborais terão de ser tratadas com delicadeza e atenção. Não delegue competências, a responsabilidade de erros recairá sobre si. Problemas em conciliar horas de sono."

novembro 24, 2007

Atenção:

Por falta de espectadores a peça de Teatro " Falatório do Ruzante vindo da Guerra " que tinha vindo a decorrer neste espaço, foi anulada.

A Direcção

novembro 22, 2007

Vamos ao Teatro (III)

Ruzante - (Aborrecido) Mah! Os amos deviam ser todos enforcados.

Menato - (Depois de uma pausa) Ó compadre! Vossemecê tem um capote mais comprido do que esta minha casaca de couro.

Ruzante - Já era assim quando o palmei a um vilão dos de lá, porque tinha frio, eu. Porra! São mesmo uns ursos ruins, os vilãos: por um quartilho são capazes de deixar um gajo a estrebuchar.

Menato - Ó compadre! Lá porque é soldado, não pense que já é da cidade.

Ruzante - Não, compadre. O que eu digo - quer-se dizer - o que eu quero dizer é que os daquelas bandas não são hospitaleiros como a gente da nossa terra. Vilão é quem faz vilanias, não quem mora nas vilas.

Menato - (Cheirando à sua volta) Merda, compadre! É impressão minha ou anda para aqui um cheiro esquisito?

Ruzante - Cheira a quê? Não é mau cheiro. É um cheirinho a feno. Há quatro meses que durmo num palheiro. Só lhe sei dizer que as camas não me...

Menato - (Interrompendo) Quieto, compadre. (Agarra qualquer coisa debaixo do capote com dois dedos) Acho que temos aqui um pintassulgo sem asas.

Ruzante - Não me venha com piolhos! Na tropa, as migalhas de pão, quando caem em cima, botam logo patas e bico e tornam-se piolhos. O vinho, quando o bebemos... (porque a gente quer sempre fazer mal, mas não se pode fazer todo o mal que se quer), faz nascer manchas e sangue ruim e sarna e crostas e tinha e pústulas por todo o corpo.

Menato - Estou a ver compadre, que vossemecê vem cheio. O que não pôde foi encher os bolsos como era a sua ideia: na pilhagem, não é verdade?

Ruzante - Mah! Eu? Não pilhei nem arrebanhei nada. Tive até que comer as minhas armas.

Menato - Chiça!? vossemecê ficou assim tão feroz que é capaz de comer ferro?

Ruzante - Se vossemecê tivera passado por onde eu próprio passei, até vossemecê aprendia a comer ferro, botas e tudo (Batido na vida). Vendi-as pelas tabernas para comer, porque não tinha dinheiro.

Menato - Então não ganhava nenhum, quando fazia um prisioneiro inimigo?

continua...

Vamos ao Teatro (II)

Cena 2

Menato - (Surgindo) Compadre! Mas é mesmo vosemecê? Quem o havia de reconhecer? Está tão enfezado que parece um carapau seco. Nunca o teria reconhecido. Mas seja bem-vindo.

Ruzante - (Descendo) Enfezado, eu, compadre? Se vossemecê tivera passado por onde eu próprio passei, não falava assim.

Menato - Vem agora mesmo da guerra? Ou esteve doente? Ou saiu da prisão? Tem muito mau aspecto, compadre. Parece um desses salteadores de estrada. Desculpe lá, compadre, não digo que tenha má cara como homem, percebe? Mas é que está pálido, podre, defumado. Puta de sorte, deve ter levado vida de cão.

Ruzante - (Grave) Compadre, é a ferragem que nos põem em cima que dá este mau aspecto. Tira-nos da carne aquilo que pesa. (Tira o capacete e coloca-o no chão) E depois, é beber-lhe mal e comer-lhe pior. Se vossemecê tivera passado por onde eu próprio passei (suspira).

Menato - Porra, está a falar difícil, compadre. Mudou de língua: fala como os doutores.

Ruzante - (Batido na vida) Eh, compadre, quem corre mundo é como vê. E depois, onde eu estava os oficiais falavam assim. E sabe que mais? Se eu começasse a falar como os inimigos, então é que vossemecê não apanhava uma. Com o cagaço, aprendi a falar com eles num só dia. Poça, a arrogância com que dizem: "Filan, cavron, casalho, por sang thiu, foute darr cab carra".

Menato - (Impressionado) C'um escarepe os coma a todos. "Voute dar cabo da cara", entendo eu, compadre. Agora das outras palavras não percebi patavina. Explique lá isso melhor, ó compadre.

Ruzante - Com todo o gosto. "Filan" quer dizer vilão. Campónio, percebe? "Cavron" quer dizer cabrão. Cornudo. Um cabrão de campónio. "Casalho" uma casa de palha, porque vivemos em casas de palha. E "porr sang thiu" por amor de Deus, isto é, vivemos em casas de palha por amor de Deus.

Menato - Mentem com quantos dentes têm na boca. Custam-nos bem caras estas casas

continua...

novembro 21, 2007

Vamos ao teatro

"Falatório do Ruzante de Volta da Guerra"

Enquadramento histórico
O exército da República de Veneza fora desbaratado em 1509 na desastrosa batalha da Ghiara d’Adda, e serão os camponeses que, em 1515, recrutados em massa, irão salvar Pádua do cerco dos exércitos imperiais. As consequências são, porém, terríveis, resultando em fome, prostituição e outras calamidades.

Sinopse
Ruzante chega da guerra e desenvolve um monólogo, em que a condenação da guerra ressalta claramente. Depois surge o compadre, Menato, um camponês que adquira bens e posses. Trata-se de um diálogo em que Ruzante, perante o olhar de troça de Menato, vai fazendo descrições dos seus "feitos" e "heroicidades" na guerra. E perguntando ansiosamente pela antiga mulher, Nhua, que, com toda a evidência, é agora uma das prostitutas surgidas do êxodo camponês para a cidade. Nhua passa na rua e rejeita claramente Ruzante que nada tem para lhe dar, como anteriormente também não tinha grande coisa. Depois...

Sobe o pano, a peça vai começar !

Cena 1

Ruzante - (Sai ofegante do fundo e avança até quase ao proscénio. Vem lazarento e sujo, coberto de pó. Olha à sua volta, enxugando o suor que lhe escorre debaixo do elmo.) Ah! Até que enfim cá estou! Tinha mais vontade de aqui chegar, do que uma mula tísica e cheia de catarro tinha de trincar erva tenra. Vou pôr-me como novo. E vou-me fartar de gozar com a minha Nhua que veio p'ra cá fazer pela vida.
Raios partam as batalhas, a guerra, os soldados e os soldados e a guerra!
A mim é que eles não me apanham mais lá na frente! Nunca mais hei-de ouvir a barulheira dos tambores, nem das cornetas, nem os gritos de alerta...
Assim nunca mais vou ter medo, pois não?
Quando ouvia berrar "às armas" ficava como uma perdiz que tivesse apanhado uma chumbada no papo.E as espingardas e as artilharias...
Agora estou fora de alcance... só se me acertarem na peida! E cavar das balas?
Vou mas é dormir o que não dormi e comer até rebentar.
Porra, que quase não caguei em paz.
Ai, Senhora do Pópulo, cá estou eu são e salvo. Gaita, que vim depressa! Acho que papei mais de vinte léguas por dia. Pus-me em três dias de Tremona até aqui. Ah! Mas não é tão longe como isso! Dizem que de Tremona a Brecha são treze léguas. É um pulito! Nem chegam a seis. E de Brecha a Pixaria seriam para aí umas dez. dez? Nem pó! Aí cinco, se tanto. E quantas são de Pixaria aqui? Eu levei um dia. É versão de Pixaria aqui? Eu levei um dia. É verdade que andei a noite toda. Ah pois!Nenhum pato bravo voou tanto como eu andei. Virgem Santíssima, que bem me doem as pernas. Mas nem sequer estou cansado. (Deita-se) Chiça! Era o medo que me zurzia, foi o desejo que me trouxe. As botas é que pagaram. Vamos lá vê-las. (Observa as solas das botas uma de cada vez) Eu não te dizia? Que o cancro me coma! Estão a ver como fiquei sem uma sola? Foi isto que ganhei na guerra! Pois, pois que o cancro me coma. Mesmo com o inimigo no cu, não devia ter corrido tanto. Ganhei muito com isto. (Olha à sua volta) Bom, talvez por estas bandas consiga deitar as mãos a um par de botas, como fiz com estas que roubei a um vilão no campo de batalha. É verdade, quanto ao saque, não era mau ser soldado, o pior eram os cagaços que nos pregavam. Que se lixe o saque. Estou aqui são e salvo e mal acredito que seja eu. E se estivesse a sonhar? Era mesmo uma merda! Sei muito bem que não estou a sonhar.
Então não embarquei em Buzina? Pois se até fui à Senhora da Saúde pagar a minha promessa. E se eu já não fosse eu? E se eu tivesse sido morto na guerra e fosse só a minha alma penada? Havia de ser bonito! (Tira rapidamente da sacola um naco de pão e dá-lhe uma dentada) Não, c'os diabos, as almas penadas não comem. (Com a boca cheia) Sou eu e bem vivo. Assim soubesse onde encontrar a minha Nhua e o meu compadre, que também cá está! Agora, até a minha mulher vai ter medo de mim, carago. Tenho que lhes mostrar que me tornei um valentão. Seja como for, sou mesmo um valentão, que remédio tinha eu. O meu compadre vai fazer-me perguntas da guerra. C'um raio! Vou-lhe contar das boas. (Pausa; olha para o fundo) Mas parece-me aquele. É mesmo ele. Compadre! Ó compadre! Sou eu, Ruzante, o seu compadre!

Continua...

novembro 18, 2007

Divulgação

Aos interessados

O trabalho da coordenação de segurança :
http://coordseg.blogspot.com/

O trabalho do técnico de higiene e segurança no trabalho :
http://seghig.blogspot.com/

novembro 06, 2007

Por falta de conteúdo...


a emissão segue dentro demomentos... (ou não)

novembro 05, 2007

Licença sabática

"E como não vos posso levar a todos para a cama, fica o meu muito obrigada pelos últimos três anos em que por palavras e actos me acariciaram ." In: Chez Maria

Obrigado Maria