dezembro 25, 2007
dezembro 23, 2007
dezembro 18, 2007
Via e-mail
dezembro 16, 2007
A Prenda de Natal
dezembro 15, 2007
A Pergunta :
O descuido na forma de vestir, não é mais do que o reflexo de algum descuido em relação ao exterior, ou mesmo ao, interior ?
Desafio ( texto XIII)
As minhas mãos
Estão velhas e enrugadas...
Minhas mãos são minhas armas
Desde o dia em que nasci.
Ergui-as, trémulas e frágeis
Mas gritei: Estou aqui!!!
Com elas desbravei florestas,
Com elas derrubei gigantes,
Estrangulei fantasmas,
Derrubei barreiras,
Conquistei instantes.
Com elas agarrei os sonhos
Que a vida me deu p'ra sonhar.
Com elas afaguei e amei meus filhos
Como só uma mãe sabe amar!
Com elas colhi as rosas
Sem ter medo dos abrolhos.
Com elas sequei as lágrimas
Que me escorreram dos olhos!
Nas minhas mãos enrugadas
Que parecem não ter valor,
Tenho um tesouro guardado:
O meu infinito AMOR!
Por: Leonor Costa
Estão velhas e enrugadas...
Minhas mãos são minhas armas
Desde o dia em que nasci.
Ergui-as, trémulas e frágeis
Mas gritei: Estou aqui!!!
Com elas desbravei florestas,
Com elas derrubei gigantes,
Estrangulei fantasmas,
Derrubei barreiras,
Conquistei instantes.
Com elas agarrei os sonhos
Que a vida me deu p'ra sonhar.
Com elas afaguei e amei meus filhos
Como só uma mãe sabe amar!
Com elas colhi as rosas
Sem ter medo dos abrolhos.
Com elas sequei as lágrimas
Que me escorreram dos olhos!
Nas minhas mãos enrugadas
Que parecem não ter valor,
Tenho um tesouro guardado:
O meu infinito AMOR!
Por: Leonor Costa
Desafio (texto XII)
Olha na minha mão
As recordações de outro tempo.
Olha a minha mão envelhecida
Calejada pelo tempo
Que pega na foto
Como no dia a dia
Olha a foto
Da saudade
A eternidade
De uma coisa vivida
Olha para eles e para mim
Olha para a cara de felicidade
De um dia vivido
Cheio de cumplicidade
Por: Psique
As recordações de outro tempo.
Olha a minha mão envelhecida
Calejada pelo tempo
Que pega na foto
Como no dia a dia
Olha a foto
Da saudade
A eternidade
De uma coisa vivida
Olha para eles e para mim
Olha para a cara de felicidade
De um dia vivido
Cheio de cumplicidade
Por: Psique
dezembro 13, 2007
Última hora
Tratado da Treta
"Almoço oferecido pelo Presidente da República aos chefes de Estado, governo e ministros, deixa de fora o Ministério da Soltura e seus respectivos ministros, por falta de empenho nas funções delegadas"
"Almoço oferecido pelo Presidente da República aos chefes de Estado, governo e ministros, deixa de fora o Ministério da Soltura e seus respectivos ministros, por falta de empenho nas funções delegadas"
dezembro 11, 2007
Leituras

"Os homens engendram guerras por uma questão de lucro e de dinheiro, mas combatem nelas por questões de terras e de mulheres. Mais cedo ou mais tarde, as outras causas e motivações diluem-se no sangue derramado e deixam de ter significado. Mais cedo ou mais tarde, a morte e a sobrevivência sufocam os sentidos, Mais cedo ou mais tarde, sobreviver é a única lógica, e morrer é a única voz e a única visão. Então quando os melhores amigos morrem, gritando, e os homens bons enlouquecidos com dor e fúria perdem a cabeça na cova sangrenta, quando toda a integridade e justiça e beleza do mundo são destruídas por braços, pernas e cabeças de irmãos, filhos e pais, então, o que faz os homens continuar a lutar e a morrer, ano após ano, é a vontade de proteger a terra e as mulheres.
Para sabermos que tudo isto é verdade, basta escutá-los nas horas que precedem uma batalha. Falam sobre as suas casas e sobre as mulheres que amam. E sabemos que é verdade quando os vemos morrer. Quando um homem agonizante está próximo da terra, ou deitado na terra, nos últimos instantes procura sempre alcança-la, agarrando um punhado na sua mão, Se puder, erguerá a cabeça para olhar para a montanha, para o vale ou planície. Se estiver longe de casa pensará nela e falará sobre ela. Falará sobre a sua aldeia, ou cidade natal, ou sobre a cidade onde cresceu. No final , a terra assume importância. E, no último momento murmurará ou gritará o nome de uma irmã ou de uma filha ou de uma amante ou da mãe, até mesmo quando disser o nome do seu Deus. O fim reflecte o princípio. No fim, o que existe é uma mulher e uma cidade."
In: "Shantaram" de Gregory David Roberts, pág: 703
dezembro 10, 2007
Desafio (texto XI)
À minha avó
No espaço dessa mão estão as minhas rotas silenciosas; está esta crença que tenho em mim de que repetirei os teus passos de forma nova, mas ainda assim com os mesmos caminhos. Está a evidência genética do que sou, esta coisa em que me transformo enquanto as minhas rugas, ainda tão diferentes das tuas rugas, se vão construindo em desenhos semelhantes.
E está em ti hoje toda a minha noção de eternidade, avó: uma eternidade que cabe na palma da tua mão enrugada; que está nessa essência que sou sendo parte de ti, parte da mãe que pariste e que me pariu a mim; nas pernas que herdei orgulhosa; no formato do corpo, no tom de voz, na falta de mariquices…
Chegasse eu a ter essa mão feita pano enrugado, cinzelada a linhas de história e de crescimento, sei que seria muito parecida com o que és hoje: pequenina, frágil, com medo da morte que é cada vez mais como a vizinha que te pisca o olho todos os dias. Chegasse eu a essa idade, ia querer ter essas mãos sulcadas pelo destino. Chegasse eu à tua idade, queria ter uma palma da mão onde coubesse ainda a família, num retrato desbotado pelo tempo, quando o tempo ainda era medido em mais do que instantes.
É que sei que herdei nos genes isto que me faz tão parecida contigo, mesmo sendo tão diferente. É que sei que a eternidade se mede não num qualquer paraíso que tantos julgam intuir como verdade, mas sim na memória que os outros não querem perder de nós. E uma mão assim sulcada é uma mão eterna: já acariciou e foi acariciada por tanta gente que, ao ser tão amada, será eterna enquanto permanece indelével na memória daqueles que seguraste nas tuas mãos, contra o teu peito, no teu carinho.
Por: Hipatia
dezembro 08, 2007
envelhecer /em velho ser...
"Vês aquela ali à esquerda? Sou eu quando o invólucro que me envolvia a alma ainda não tinha crescido." Por: Mushu
dezembro 07, 2007
Livros e Livros
Na Praça exterior à estação da Trindade, está a decorrer uma feira do livro. Uma iniciativa integrada nas comemorações dos cinco anos da inauguração do Metro do Porto
Eu já lá fui, e trouxe a muito bom preço, os personagens que habitam O Bairro criado pelo Gonçalo M.Tavares !
Passem por lá...
Eu já lá fui, e trouxe a muito bom preço, os personagens que habitam O Bairro criado pelo Gonçalo M.Tavares !Passem por lá...
Desafio (texto X)
Com as minhas mãos abraço a minha vida e todas as vidas que lhe estão ligadas.Com as minhas mãos travo batalhas, rasgo oceanos,
Com as minhas mãos transformo o meu amor em carinhos,
E se agora elas estão marcadas só me sinto agradecida,
De ter tido tempo de amar quem amo, de ficar marcada,
Pois à medida que elas envelheciam o meu coração renascia!
Por: Chloé
dezembro 06, 2007
dezembro 05, 2007
Fui prendado !!!

A menina Fatyly tem como "óbis" o croché e o tricô (será a mesma coisa!!!) . E presenteou-me com um dos seus trabalhos, não sei como se chama a peça, bem...aquilo parece um mini-avental, ou um babete. Cá pra mim é um pano, e como tal, já lhe dei uso. O problema é que perdeu as cores originais, agora está mais para o...preto. Mas garanto que o pano é muito bom, e as botas ficaram a brilhar que até ofusca ! Obrigadinho Fatyly :)))))))))))
E como se não chegasse , ainda me manda uma obra do Sr. Hemingway onde os personagens partem em busca de uma aventura que preencha o vazio das suas vidas. Um retrato daquilo que todos "vocesses" procuram...(Fiesta).
(reparem no pormenor da pilha de livros a caminho do tecto. Gosto assim)
Uma vez mais, obrigado Fatyly (eu não merecia tanto, pah)
Uma vez mais, obrigado Fatyly (eu não merecia tanto, pah)
Desafio (texto IX)
Crime no Motel-Non Sense
Saiu do motel a correr assustado.
Tudo tinha começado na noite anterior.
Tinha 30 anos, solteiro, saiu com os amigos para os copos nas docas.
Lembra-se que beberam muito, depois ainda foram para uma discoteca.
A namorada telefonou-lhe, mas com o barulho do som não ouviu.
Chegou a casa nem soube como, sem se despir caiu na cama e nem deu por lá entrarem .
Deram-lhe uma forte pancada na cabeça.
Grito de dor e desmaiou.
Quando acordou, tinha um papel ao lado que dizia:
"Se queres voltar a ver a tua namorada vai o Motel das Águias."
Levantou-se a custo, tomou duche, saiu e rumou ao Motel.
Estava esbaforido, irritado, com sentimento de culpa por na noite anterior se ter ido divertir.
Chegou à recepção, perguntou pelo nome da namorada e não existia ninguém com esse nome.
Mesmo que existisse, não diziam, pois é em motéis que se encontram os casados infiéis.
Começou então a abrir a pontapé todas as portas, até que parou.
Numa cama, nua, em cima dum lençol branco, coberta de sangue, estava ela toda esfaqueada, o quarto desarrumando e na mão, a fotografia da mão da avó, com o retrato do pai e tios.
Sem saber o que fazer, saiu a correr assustado…
Por: Wind
dezembro 03, 2007
dezembro 02, 2007
Desfio (texto VIII)
Emoções...
- ‘Tou, Manel?
- Sim.
- Que voz! Ainda a dormir?
- Ouve lá, estás a ligar-me só para isso?
- Calma! Vê se te pões pronto porque te vou buscar daqui a meia hora!
- Ei! Qual é?... Não ‘tou numa de sair, meu!
- Ai te garanto que vais!
- Mas porque raio é que havia de ir, dizes-me? É sábado! Já me basta toda a semana a aturar aquelas bestas!
- Recordas-te da foto que te pedi? Aquela, da tua avó com a fotografia em que estás tu e as tuas irmãs?
- Sim, e…?
- Vais desculpar-me, Manel! Mas, eu sabia que havia um concurso a decorrer promovido por uma revista muito conhecida,, e, enviei-a.
- Tu o quê????
- Pá! Um dos temas era “Emoções”, e, eu sabia que a fotografia tinha mais do que hipóteses de ganhar! E ganhou, Manel!! Vais ter a tua avó na capa da revista! Vais ganhar uma pipa de massa e a organização quer falar “comigo”, quer dizer, contigo, agora, no lançamento da exposição.
- ………
- Estou! Manel, Manel!
- ………
Lembrava-se vagamente da mãe.
Talvez mais, pelo que as irmãs, sobretudo a sua Belinha, a quem sempre fora sempre mais chegado, contava. Que os havia deixado, era muito pequeno, incapaz de perceber muito bem, naquela época, porquê. Que tinham ficado com uma avó que não era de mimos, mas de muito trabalho, muita garra. À maneira dela, era assim que fora a melhor mãe e apesar dos solavancos que passaram, era dela, daquele rosto “amarrotado”, como ele dizia, que se lembrava.
Da mãe? Apenas um nome, um vulto, apenas o que lhe fora contado, o que fora escutando enquanto na aldeia viveu, até ser a altura de poder sair, de procurar a cidade, voar sozinho.
Era uma aldeia pequenina, metida na Serra do Gerês. Quando foi da construção da barragem, encheu-se de gente de fora, sobretudo de muitos homens. Na aldeia todos a olhavam, todos a cobiçavam, gulosos. Bonita mulher, aquela que lhe diziam ser a sua mãe biológica.
A avó, já viúva, sempre de negro vestida, era de poucas palavras.
Gente muito séria havia comido o pão que o diabo amassou.
O marido, seu avô, ficara por terras de África e só se lembrava dele de um retrato guardado no baú de madeira de ripas, à entrada da casa. Lembra-se bem das duas nalgadas que a sua avó lhe dera ao encontrá-lo a vasculhar entre os lençóis amarelecidos de linho, umas cartas amarelas, tipo telegrama. Cartas do avô para ela escritas por um vizinho de beliche, lá na camarata, na Guiné. De estar tudo guardado numa caixinha de madeira, mais umas medalhas, uns botões de farda dourados; de não ter percebido porque ela ficara assim, tão zangada.
Tirara-lhe tudo das mãozitas pequenas, metera tudo de novo na caixa e fechara o baú.
Ai dele, se lhe voltasse a mexer!
Pequenito, foi a correr atrás da sua Belinha, pedir-lhe colo.
“Que asneira tinha ele feito? “, perguntara-lhe a sua irmã, sempre tão docinha com ele. “Que tinha mexido na mala de madeira da avó, a da entrada, que tinha visto aquela caixinha, que a abriu e estavam lá umas coisas. Que a avó veio por trás dele e lhe dera duas sapatadas, que tinha ficado toda zangada e que se ele voltasse a abrir a mala que nem sabia de que terra seria! Mas que a vira depois a chorar e ele não percebeu porquê.
A irmã, com muito carinho explicou-lhe que o avô não tinha conseguido escapar, tal como os outros amigos da aldeia, não tinha conseguido passar, a salto, para Espanha e tivera que ir cumprir o serviço militar para África.
Tinham tido duas filhas, uma que morrera cedo, ainda pequena, assim, da idade dele, com umas febres muito altas. Que lhe haviam posto papas de linhaça, mas que não havia médico na aldeia, e, a menina não se salvara. Que nem o avô a conhecera, porque ficara por lá, longe, e, nem campa havia dele, lá no cemitério da aldeia.
Apenas a da sua tia, que a avó ia limpar no dia de todos os santos.
A outra, a sua mãe, era linda!
Não havia ninguém que não a achasse um primor de mulher.
O rapazito, ainda com duas grandes lágrimas a sulcar-lhe a cara, já estava atento, de olho bem aberto. Isabel era a irmã preferida. As outras estavam a estudar na cidade, em casa dum tio, irmão do pai, que ele não conheceu. Mas isso era uma outra história que a sua Belinha lhe contara há algum tempo. Com as costas da mão, limpou o nariz, depois duma grande fungadela, secando-a de seguida à camisola, já meio enfarruscada. A sua irmã sorria mas ele queria ouvir mais, queria saber porque era assim a avó, sempre tão triste, sempre de tão poucas falas.
A avó viu-se muito atrapalhada porque o dinheiro era pouco, e, sozinha, a tomar conta da casa, das filhas, a ter que amanhar a terra, guardar o gado, trabalhar no tear, sem ajuda de ninguém, era difícil! À sexta-feira, lá ia ela à venda do Ti Matias a ver se havia carta do seu homem.
Quando havia, era vê-la ali, à entrada, sentada, a escutar o Ti Matias a ler, a ler, aquelas cartinhas amarelinhas. Ela ia chorando, ia rindo. Depois, pedia-lhe para ele lhe responder.
Santo homem, o dono da venda. Sabia-a só, sem ninguém que por ela olhasse, com as duas filhas.
Entre duas malgas de vinho e uns bagaços que ia servindo aos compadres, lá ia escrevendo da melhor que maneira que podia, com umas letras encavalitadas, contando de como ia a vida na aldeia, de como estavam lindas as meninas, de como ela esperava que ele voltasse dali a uns meses. Naquela sexta-feira, fora o Ti Matias lá a casa. Não levava carta, mas, um embrulho.
A Avó Mariquinhas andava no campo a amanhar a erva para deitar ao gado.
Viera a correr. Viu-lhe o sobrolho carregado, chamou as filhas, mandou-o sentar, perguntou-lhe se queria beber alguma coisa. Que não, que deixara a venda só e que não podia demorar. Que fora a G.N.R. que lhe levara aquele embrulho para entregar a uma tal de Maria Costa. Que o seu marido tinha morrido como um Herói a lutar pela Pátria. Que não houve forma de enviar o corpo, que lamentavam. As meninas choraram muito e desde aquele dia, a Avó Mariquinhas vestiu-se de preto, amarrou o lenço na cabeça e ninguém mais a viu rir.
Depois foi a enterrar a sua tia, irmã da mãe. Que era um anjinho, não era? ,perguntava o Manel. E sua irmã dizia-lhe que sim.E a mãe? Porque tinha ido embora?
Ficavam por ali, sentados no fundo das escadas, ele no seu colo, ela muito terna, limpando-lhe a carita, fazendo-lhe festas, enchendo-o de mimo. Estava ali, ainda não refeito pela notícia recebida pelo amigo, e toda uma história, uma vida de gente que era sua, num passado que fizera os possíveis por deixar quieto, mas que saltara para a almofada ao lado da dele.
Lembrava-se bem daquela fotografia. Sempre fora muito observador. Na escola, ainda petiz, a professora dizia que se houvesse hipótese, deviam mandá-lo para a cidade, para seguir os estudos. A Avó, já de idade avançada, mandara dizer ao irmão do seu genro (sim, que apesar da filha ter decidido abalar para as “Estranjas”, que o sobrinho, o Manuel, era um rapaz esperto, que teria futuro, mas não ali, naquela aldeia metida na Serra.)
A resposta veio num sábado frio, soalheiro, de carro.
Que levariam o rapaz, que o meteriam no colégio, em Braga. Que ela poderia ficar sossegada, porque o estabelecimento era de cariz religioso, muito severo, e ele, se desse mostras do que valia, teria futuro. Ainda ouvia o choro da sua Belinha, via-a a meter meia dúzia de peças de roupa num saco, entre choro e pedido de juras de que ele lhe escreveria a contar de como era a cidade para onde ia. Lembrava-se de ir encafuado, no banco de trás do carro grande, de não conseguir olhar, de não acenar, de não atirar os beijos àquela que fora o seu colo.
- Então? – Perguntou-lhe o tio – Estás em que classe?
- Havia feito o exame de admissão, a professora dizia que ele tinha muito jeito para desenho, para artes, que gostava muito de ver as fotografias das revistas que ela levava para a escola. Que ele gostaria de um dia poder tirar retratos, assim, bonitos, como aqueles que ela lhe mostrava.
- Ora, então vamos ter um fotógrafo, é isso? – Continuou o tio.
- Eu não vou ver a minha irmã nunca mais? – Perguntara, aflito, o Manel.
- Vais, pois. Prometi à tua avó que te traria à aldeia, mais as tuas duas irmãs, no Verão, nas férias grandes. Mas agora ia ser uma vida nova para o menino! Ia tornar-se gente…
- Então, Manel? Desligaste? Ficaste sem bateria?
- Não, pá, desculpa, apanhaste-me de surpresa. Sei lá o que se passou! Devias ter-me dito que ias enviar a fotografia.
- Se tivesse dito já sabia que te oporias e mais uma vez, adiar-se-ia um sonho, Manel!
Já estás pronto? Vê se te preparas, porque a tua vida vai dar uma volta de 180º, já pensaste bem nisso?
Passo aí daqui a 45 minutos, está bem para ti? Não é preciso traje de gala, meu! Mas afina bem a caneta porque vão pedir-te autógrafos e…não só, podes crer!
O colégio era em regime de internato. Os padres, severos, sobretudo o director.
Quando chegou, sentira muitos pares de olhos que o miraram de cima abaixo.
O que ele daria para ter ali a sua Belinha!
- Já viste? Parece um labrego! Vai dar-nos que fazer! – Conseguiu ouvir de um grupo de colegas.
- Vê te pões fino! Aqui, quem chega de novo tem que obedecer-nos. Ai de ti se “mijas fora do sapato”! Levas um arraial de pancada que nem sonhas e ainda te mandamos ao gabinete do Director, para o correctivo final. Livra-te de arrebitares o cachimbo, meu parolo das berças!
Fora assim a recepção. Mostraram-lhe a camarata onde iria dormir, o encarregado, um padre já mais velhinho, cara redonda, simpático. Foi mostrar-lhe a sala onde teria as aulas, a sala de estudo, a capela. Levou-o ao refeitório, mostrou-lhe as casas de banho, colectivas.
Como faria para falar com a avó, com a irmã, a sua Isabelinha?
Escreveria as cartas que seriam lidas pelo director e se, nada houvesse a emendar, encarregar-se-iam de as fazer chegar à sua aldeia. Tinha aprendido, não só nos bancos da sua escola mas com a sua irmã, a ouvir e a saber contar uma história como ninguém.
Desde logo os professores se aperceberam do seu jeito, da forma como observava todos os pormenores. O colégio tinha uma área de artes, onde podiam desenhar, iniciar-se na fotografia e o nosso Manel, cheio das imagens, das fotos que a sua primeira professora lhe mostrara, foi aprendendo a manejar a máquina fotográfica. Aqueles que, quando ele havia chegado, o tinham ameaçado, acabaram por perceber que ele tinha mesmo muito jeito e o Jornal que decidiram fazer tinha fotografias que ele lhes fazia. Aos Domingos, o seu tio ia buscá-lo, almoçava lá em casa, e começara a conversar com as suas duas irmãs, a Maria e a Madalena (esta última com o nome da tia que havia falecido cedo, tal como a sua Belinha lhe havia contado). Não conseguia ter grandes afinidades com qualquer uma delas. Era recíproco. Pouco importava já que a que tinha, a que lhe era tão queria, preenchia-lhe todo o espaço e ocupava-lhe o coraçãozito de rapaz.
Era o dia do seu aniversário. O tio fora buscá-lo.
O presente? Iam à aldeia, à sua aldeia.
Ia ver a sua Belinha, iriam juntar-se os quatro irmãos, lá na casa da Avó Mariquinhas.
Chegaram e um ror de garotos corria atrás do carro! Sabiam que vinha o Manel, queriam ver como é que ele estava, agora que era um menino da cidade.
Parado o carro à porta da sua casa, o coração bateu mais depressa. A sua Avó lá estava, e, sorria, de mão por cima da sua Isabelinha que se havia tornado numa rapariguinha tão bonita!
- Trouxemos bolo, ’Ti Maria. Faz anos o seu netinho!
O olhar da senhora ensombrou-se por momentos. Pena que não estivessem as filhas. Uma porque Deus decidira chamá-la e a outra, porque os trocara por uma vida em terras de França. Mandava dinheiro, era certo. Necessidades não passavam, até já tinha televisão, que o ‘Ti Matias da Venda lha havia posto lá em casa, para ela se distrair, nas noites de invernia.
A última carta que havia recebido da mãe daqueles quatro meninos, trazia novas de um outro casamento. Que por França ficaria, que nunca poderia voltar ali, onde o homem, o pai daquelas crianças a abandonara, grávida do mais novo, do Manel, do rapaz que ela tanto desejara.
Ah! Que importava? Tinha-se virado sozinha, tinha sabido cuidar da vida, e, se não os cobria de beijos, bem lá dentro, no seu coração, mantinha-os juntos, muito seus, tal como o seu homem havia pedido.
- Ora, ponham-se todos à volta do bolo! Vamos tirar um retrato. ‘Ti Maria! Vá! Junte-se a eles, aos seus netos!
Que não, que já era velha, que estragaria o retrato. Que ficaria a vê-los, dali, mas que tinha que lhe prometer que lhe enviaria aquela fotografia.
Prometido!
Agarrou-se à sua Belinha, deu-lhe um abraço apertado, prometeu que a viria buscar.
Que ia fazer um curso de fotografia. Que era bom aluno, tinha conseguido uma bolsa e que era no Porto, numa Cooperativa, a Árvore. Que lhe mandaria notícias, sempre, mas, que logo que pudesse a levava para a cidade para morar com ele. Mais beijos, mais lágrimas, uma carta que chegou, que o ‘Ti Matias, já velhinho, levou à casa de pedra muito lavada, com um retrato de quatro meninos ao redor dum bolo. Passaram-se anos, muitas cartas trocadas. A sua Belinha tinha casado. O seu cunhado, o médico que fora trabalhar para a aldeia, cuidava dela como ninguém, como ela merecia, com tanto carinho. Tinha um sobrinho, um rapazola de olho meigo, o Manuel Maria. (Manuel por causa dele, Maria, por causa daquela Avó que sem lhes dar beijos, dera-lhes tanto, tanto, dedicara-lhes a sua vida!)
O Manel acabou o seu curso da melhor forma, com o melhor trabalho!
Tinham gostado muito! Um preto e branco, uma mão cheia de uma vida para contar, cheia de quatro meninos com a cabeça cheia de sonhos…
Havia recebido um telefonema da irmã. Que viesse, que a Avó Mariquinhas queria falar com ele.
Chegou, de carro. Cá em baixo, no fundo das escadas daquela casa de pedra, agora com janelas com gelosias verdes e cortinas de linho com barras de crochet, esperava-o um rapazito sorridente, uma mulher linda, com os olhos mais lindos que ele jamais esqueceria e um amigo, o seu cunhado. Depois dos abraços, de pegar no rapaz e pô-lo às cavalitas, subiram os degraus.
Na cozinha, sentada na cadeira de baloiço, estava a sua Avó, toda de negro vestida, de mantinha nos joelhos. As achas crepitavam e sentia-se no ar um aroma a sopa de feijão de fazer crescer a água na boca. Olhou-a. Nunca a tinha visto de cabeça descoberta, apenas se lhe viam uns cabelos alvos, mais alvos que a neve que já cobria os muros da aldeia.
No seu regaço, uma caixa.
- Então, ‘Ti Mariquinhas? Como estamos? Tinha saudades minhas?
- Nem sabes! – disse-lhe a irmã. Fala pouco, agora. Mas quando olha aquele retrato, passa os dedos pela tua cara e vemo-la sorrir.
- Ora então, vamos fazer com que o sorriso se estenda a todos nós.
E, com a maior das ternuras, abriu a caixa, pegou no retrato e pediu à sua Avó que abrisse a sua mão. Ela fez um gesto, disse que era uma mão feia, amarrotada, como ele lhe dizia quando era pequenito….
- Qual amarrotada, qual quê?
Foi buscar a máquina.
E ali, naquela cozinha, apenas com a luz que vinha da lareira onde acabava de cozer a bela sopa de feijão, ouviu-se um “clic”
- Avó vai ser com a sua mão, com esta história de vida que acabarei o meu curso.
A estas mãos devemos o que temos, o que somos hoje.
Não nos deu beijos, deu-nos muito mais do que isso. Deu-nos a sua coragem, a sua força, o nunca desistir.
Não me lembro da minha mãe, da sua filha. Guardo comigo a minha Belinha, aquele colo para onde sempre corri.
Mas não vou esquecer nunca esta mão, cheia de caminhos que vão dar ao melhor lugar do mundo: Um coração grande, doce, verdadeiro, o seu, minha querida Avó!
Olhou o relógio. Bolas! O João devia estar mesmo a chegar! Voou! Tomou um duche rápido, vestiu-se, olhou em volta, deu uma última olhada à caixinha de madeira que trouxera, que a Avó fizera questão de lhe dar, beberricou a correr uma chávena de café e ouviu a buzina do carro do amigo lá em baixo. Pegou no saco de fotografia, levou a mão ao fio de ouro, presente da sua Belinha, no último Natal, e entrou no elevador do prédio a correr.
- Boa tarde! Hoje o nosso repórter está com ar super feliz! – Disse-lhe um vizinho do prédio.
- Estou, pois! Hoje um amigo deu-me um presente.
- Um presente?
- Sim! Vou ver a história de uma Mulher, a melhor Mãe que alguém poderia ter, publicada numa revista!
- Ah! Ganhou um prémio, foi isso? Mais uma das suas belas fotografias?
- Não! Ou melhor, sim! Mas não é isso o que me importa! O importante é que se não me tivesse dado a mão, aquela senhora, a minha Avó Mariquinhas, hoje eu não teria uma história tão bela para contar!
- ‘Bora, Manel! Já lá estão todos à espera! E, prepara-te! A tua irmã é a primeira da fila para lhe autografares a revista.
Por: Cris
- ‘Tou, Manel?
- Sim.
- Que voz! Ainda a dormir?
- Ouve lá, estás a ligar-me só para isso?
- Calma! Vê se te pões pronto porque te vou buscar daqui a meia hora!
- Ei! Qual é?... Não ‘tou numa de sair, meu!
- Ai te garanto que vais!
- Mas porque raio é que havia de ir, dizes-me? É sábado! Já me basta toda a semana a aturar aquelas bestas!
- Recordas-te da foto que te pedi? Aquela, da tua avó com a fotografia em que estás tu e as tuas irmãs?
- Sim, e…?
- Vais desculpar-me, Manel! Mas, eu sabia que havia um concurso a decorrer promovido por uma revista muito conhecida,, e, enviei-a.
- Tu o quê????
- Pá! Um dos temas era “Emoções”, e, eu sabia que a fotografia tinha mais do que hipóteses de ganhar! E ganhou, Manel!! Vais ter a tua avó na capa da revista! Vais ganhar uma pipa de massa e a organização quer falar “comigo”, quer dizer, contigo, agora, no lançamento da exposição.
- ………
- Estou! Manel, Manel!
- ………
Lembrava-se vagamente da mãe.
Talvez mais, pelo que as irmãs, sobretudo a sua Belinha, a quem sempre fora sempre mais chegado, contava. Que os havia deixado, era muito pequeno, incapaz de perceber muito bem, naquela época, porquê. Que tinham ficado com uma avó que não era de mimos, mas de muito trabalho, muita garra. À maneira dela, era assim que fora a melhor mãe e apesar dos solavancos que passaram, era dela, daquele rosto “amarrotado”, como ele dizia, que se lembrava.
Da mãe? Apenas um nome, um vulto, apenas o que lhe fora contado, o que fora escutando enquanto na aldeia viveu, até ser a altura de poder sair, de procurar a cidade, voar sozinho.
Era uma aldeia pequenina, metida na Serra do Gerês. Quando foi da construção da barragem, encheu-se de gente de fora, sobretudo de muitos homens. Na aldeia todos a olhavam, todos a cobiçavam, gulosos. Bonita mulher, aquela que lhe diziam ser a sua mãe biológica.
A avó, já viúva, sempre de negro vestida, era de poucas palavras.
Gente muito séria havia comido o pão que o diabo amassou.
O marido, seu avô, ficara por terras de África e só se lembrava dele de um retrato guardado no baú de madeira de ripas, à entrada da casa. Lembra-se bem das duas nalgadas que a sua avó lhe dera ao encontrá-lo a vasculhar entre os lençóis amarelecidos de linho, umas cartas amarelas, tipo telegrama. Cartas do avô para ela escritas por um vizinho de beliche, lá na camarata, na Guiné. De estar tudo guardado numa caixinha de madeira, mais umas medalhas, uns botões de farda dourados; de não ter percebido porque ela ficara assim, tão zangada.
Tirara-lhe tudo das mãozitas pequenas, metera tudo de novo na caixa e fechara o baú.
Ai dele, se lhe voltasse a mexer!
Pequenito, foi a correr atrás da sua Belinha, pedir-lhe colo.
“Que asneira tinha ele feito? “, perguntara-lhe a sua irmã, sempre tão docinha com ele. “Que tinha mexido na mala de madeira da avó, a da entrada, que tinha visto aquela caixinha, que a abriu e estavam lá umas coisas. Que a avó veio por trás dele e lhe dera duas sapatadas, que tinha ficado toda zangada e que se ele voltasse a abrir a mala que nem sabia de que terra seria! Mas que a vira depois a chorar e ele não percebeu porquê.
A irmã, com muito carinho explicou-lhe que o avô não tinha conseguido escapar, tal como os outros amigos da aldeia, não tinha conseguido passar, a salto, para Espanha e tivera que ir cumprir o serviço militar para África.
Tinham tido duas filhas, uma que morrera cedo, ainda pequena, assim, da idade dele, com umas febres muito altas. Que lhe haviam posto papas de linhaça, mas que não havia médico na aldeia, e, a menina não se salvara. Que nem o avô a conhecera, porque ficara por lá, longe, e, nem campa havia dele, lá no cemitério da aldeia.
Apenas a da sua tia, que a avó ia limpar no dia de todos os santos.
A outra, a sua mãe, era linda!
Não havia ninguém que não a achasse um primor de mulher.
O rapazito, ainda com duas grandes lágrimas a sulcar-lhe a cara, já estava atento, de olho bem aberto. Isabel era a irmã preferida. As outras estavam a estudar na cidade, em casa dum tio, irmão do pai, que ele não conheceu. Mas isso era uma outra história que a sua Belinha lhe contara há algum tempo. Com as costas da mão, limpou o nariz, depois duma grande fungadela, secando-a de seguida à camisola, já meio enfarruscada. A sua irmã sorria mas ele queria ouvir mais, queria saber porque era assim a avó, sempre tão triste, sempre de tão poucas falas.
A avó viu-se muito atrapalhada porque o dinheiro era pouco, e, sozinha, a tomar conta da casa, das filhas, a ter que amanhar a terra, guardar o gado, trabalhar no tear, sem ajuda de ninguém, era difícil! À sexta-feira, lá ia ela à venda do Ti Matias a ver se havia carta do seu homem.
Quando havia, era vê-la ali, à entrada, sentada, a escutar o Ti Matias a ler, a ler, aquelas cartinhas amarelinhas. Ela ia chorando, ia rindo. Depois, pedia-lhe para ele lhe responder.
Santo homem, o dono da venda. Sabia-a só, sem ninguém que por ela olhasse, com as duas filhas.
Entre duas malgas de vinho e uns bagaços que ia servindo aos compadres, lá ia escrevendo da melhor que maneira que podia, com umas letras encavalitadas, contando de como ia a vida na aldeia, de como estavam lindas as meninas, de como ela esperava que ele voltasse dali a uns meses. Naquela sexta-feira, fora o Ti Matias lá a casa. Não levava carta, mas, um embrulho.
A Avó Mariquinhas andava no campo a amanhar a erva para deitar ao gado.
Viera a correr. Viu-lhe o sobrolho carregado, chamou as filhas, mandou-o sentar, perguntou-lhe se queria beber alguma coisa. Que não, que deixara a venda só e que não podia demorar. Que fora a G.N.R. que lhe levara aquele embrulho para entregar a uma tal de Maria Costa. Que o seu marido tinha morrido como um Herói a lutar pela Pátria. Que não houve forma de enviar o corpo, que lamentavam. As meninas choraram muito e desde aquele dia, a Avó Mariquinhas vestiu-se de preto, amarrou o lenço na cabeça e ninguém mais a viu rir.
Depois foi a enterrar a sua tia, irmã da mãe. Que era um anjinho, não era? ,perguntava o Manel. E sua irmã dizia-lhe que sim.E a mãe? Porque tinha ido embora?
Ficavam por ali, sentados no fundo das escadas, ele no seu colo, ela muito terna, limpando-lhe a carita, fazendo-lhe festas, enchendo-o de mimo. Estava ali, ainda não refeito pela notícia recebida pelo amigo, e toda uma história, uma vida de gente que era sua, num passado que fizera os possíveis por deixar quieto, mas que saltara para a almofada ao lado da dele.
Lembrava-se bem daquela fotografia. Sempre fora muito observador. Na escola, ainda petiz, a professora dizia que se houvesse hipótese, deviam mandá-lo para a cidade, para seguir os estudos. A Avó, já de idade avançada, mandara dizer ao irmão do seu genro (sim, que apesar da filha ter decidido abalar para as “Estranjas”, que o sobrinho, o Manuel, era um rapaz esperto, que teria futuro, mas não ali, naquela aldeia metida na Serra.)
A resposta veio num sábado frio, soalheiro, de carro.
Que levariam o rapaz, que o meteriam no colégio, em Braga. Que ela poderia ficar sossegada, porque o estabelecimento era de cariz religioso, muito severo, e ele, se desse mostras do que valia, teria futuro. Ainda ouvia o choro da sua Belinha, via-a a meter meia dúzia de peças de roupa num saco, entre choro e pedido de juras de que ele lhe escreveria a contar de como era a cidade para onde ia. Lembrava-se de ir encafuado, no banco de trás do carro grande, de não conseguir olhar, de não acenar, de não atirar os beijos àquela que fora o seu colo.
- Então? – Perguntou-lhe o tio – Estás em que classe?
- Havia feito o exame de admissão, a professora dizia que ele tinha muito jeito para desenho, para artes, que gostava muito de ver as fotografias das revistas que ela levava para a escola. Que ele gostaria de um dia poder tirar retratos, assim, bonitos, como aqueles que ela lhe mostrava.
- Ora, então vamos ter um fotógrafo, é isso? – Continuou o tio.
- Eu não vou ver a minha irmã nunca mais? – Perguntara, aflito, o Manel.
- Vais, pois. Prometi à tua avó que te traria à aldeia, mais as tuas duas irmãs, no Verão, nas férias grandes. Mas agora ia ser uma vida nova para o menino! Ia tornar-se gente…
- Então, Manel? Desligaste? Ficaste sem bateria?
- Não, pá, desculpa, apanhaste-me de surpresa. Sei lá o que se passou! Devias ter-me dito que ias enviar a fotografia.
- Se tivesse dito já sabia que te oporias e mais uma vez, adiar-se-ia um sonho, Manel!
Já estás pronto? Vê se te preparas, porque a tua vida vai dar uma volta de 180º, já pensaste bem nisso?
Passo aí daqui a 45 minutos, está bem para ti? Não é preciso traje de gala, meu! Mas afina bem a caneta porque vão pedir-te autógrafos e…não só, podes crer!
O colégio era em regime de internato. Os padres, severos, sobretudo o director.
Quando chegou, sentira muitos pares de olhos que o miraram de cima abaixo.
O que ele daria para ter ali a sua Belinha!
- Já viste? Parece um labrego! Vai dar-nos que fazer! – Conseguiu ouvir de um grupo de colegas.
- Vê te pões fino! Aqui, quem chega de novo tem que obedecer-nos. Ai de ti se “mijas fora do sapato”! Levas um arraial de pancada que nem sonhas e ainda te mandamos ao gabinete do Director, para o correctivo final. Livra-te de arrebitares o cachimbo, meu parolo das berças!
Fora assim a recepção. Mostraram-lhe a camarata onde iria dormir, o encarregado, um padre já mais velhinho, cara redonda, simpático. Foi mostrar-lhe a sala onde teria as aulas, a sala de estudo, a capela. Levou-o ao refeitório, mostrou-lhe as casas de banho, colectivas.
Como faria para falar com a avó, com a irmã, a sua Isabelinha?
Escreveria as cartas que seriam lidas pelo director e se, nada houvesse a emendar, encarregar-se-iam de as fazer chegar à sua aldeia. Tinha aprendido, não só nos bancos da sua escola mas com a sua irmã, a ouvir e a saber contar uma história como ninguém.
Desde logo os professores se aperceberam do seu jeito, da forma como observava todos os pormenores. O colégio tinha uma área de artes, onde podiam desenhar, iniciar-se na fotografia e o nosso Manel, cheio das imagens, das fotos que a sua primeira professora lhe mostrara, foi aprendendo a manejar a máquina fotográfica. Aqueles que, quando ele havia chegado, o tinham ameaçado, acabaram por perceber que ele tinha mesmo muito jeito e o Jornal que decidiram fazer tinha fotografias que ele lhes fazia. Aos Domingos, o seu tio ia buscá-lo, almoçava lá em casa, e começara a conversar com as suas duas irmãs, a Maria e a Madalena (esta última com o nome da tia que havia falecido cedo, tal como a sua Belinha lhe havia contado). Não conseguia ter grandes afinidades com qualquer uma delas. Era recíproco. Pouco importava já que a que tinha, a que lhe era tão queria, preenchia-lhe todo o espaço e ocupava-lhe o coraçãozito de rapaz.
Era o dia do seu aniversário. O tio fora buscá-lo.
O presente? Iam à aldeia, à sua aldeia.
Ia ver a sua Belinha, iriam juntar-se os quatro irmãos, lá na casa da Avó Mariquinhas.
Chegaram e um ror de garotos corria atrás do carro! Sabiam que vinha o Manel, queriam ver como é que ele estava, agora que era um menino da cidade.
Parado o carro à porta da sua casa, o coração bateu mais depressa. A sua Avó lá estava, e, sorria, de mão por cima da sua Isabelinha que se havia tornado numa rapariguinha tão bonita!
- Trouxemos bolo, ’Ti Maria. Faz anos o seu netinho!
O olhar da senhora ensombrou-se por momentos. Pena que não estivessem as filhas. Uma porque Deus decidira chamá-la e a outra, porque os trocara por uma vida em terras de França. Mandava dinheiro, era certo. Necessidades não passavam, até já tinha televisão, que o ‘Ti Matias da Venda lha havia posto lá em casa, para ela se distrair, nas noites de invernia.
A última carta que havia recebido da mãe daqueles quatro meninos, trazia novas de um outro casamento. Que por França ficaria, que nunca poderia voltar ali, onde o homem, o pai daquelas crianças a abandonara, grávida do mais novo, do Manel, do rapaz que ela tanto desejara.
Ah! Que importava? Tinha-se virado sozinha, tinha sabido cuidar da vida, e, se não os cobria de beijos, bem lá dentro, no seu coração, mantinha-os juntos, muito seus, tal como o seu homem havia pedido.
- Ora, ponham-se todos à volta do bolo! Vamos tirar um retrato. ‘Ti Maria! Vá! Junte-se a eles, aos seus netos!
Que não, que já era velha, que estragaria o retrato. Que ficaria a vê-los, dali, mas que tinha que lhe prometer que lhe enviaria aquela fotografia.
Prometido!
Agarrou-se à sua Belinha, deu-lhe um abraço apertado, prometeu que a viria buscar.
Que ia fazer um curso de fotografia. Que era bom aluno, tinha conseguido uma bolsa e que era no Porto, numa Cooperativa, a Árvore. Que lhe mandaria notícias, sempre, mas, que logo que pudesse a levava para a cidade para morar com ele. Mais beijos, mais lágrimas, uma carta que chegou, que o ‘Ti Matias, já velhinho, levou à casa de pedra muito lavada, com um retrato de quatro meninos ao redor dum bolo. Passaram-se anos, muitas cartas trocadas. A sua Belinha tinha casado. O seu cunhado, o médico que fora trabalhar para a aldeia, cuidava dela como ninguém, como ela merecia, com tanto carinho. Tinha um sobrinho, um rapazola de olho meigo, o Manuel Maria. (Manuel por causa dele, Maria, por causa daquela Avó que sem lhes dar beijos, dera-lhes tanto, tanto, dedicara-lhes a sua vida!)
O Manel acabou o seu curso da melhor forma, com o melhor trabalho!
Tinham gostado muito! Um preto e branco, uma mão cheia de uma vida para contar, cheia de quatro meninos com a cabeça cheia de sonhos…
Havia recebido um telefonema da irmã. Que viesse, que a Avó Mariquinhas queria falar com ele.
Chegou, de carro. Cá em baixo, no fundo das escadas daquela casa de pedra, agora com janelas com gelosias verdes e cortinas de linho com barras de crochet, esperava-o um rapazito sorridente, uma mulher linda, com os olhos mais lindos que ele jamais esqueceria e um amigo, o seu cunhado. Depois dos abraços, de pegar no rapaz e pô-lo às cavalitas, subiram os degraus.
Na cozinha, sentada na cadeira de baloiço, estava a sua Avó, toda de negro vestida, de mantinha nos joelhos. As achas crepitavam e sentia-se no ar um aroma a sopa de feijão de fazer crescer a água na boca. Olhou-a. Nunca a tinha visto de cabeça descoberta, apenas se lhe viam uns cabelos alvos, mais alvos que a neve que já cobria os muros da aldeia.
No seu regaço, uma caixa.
- Então, ‘Ti Mariquinhas? Como estamos? Tinha saudades minhas?
- Nem sabes! – disse-lhe a irmã. Fala pouco, agora. Mas quando olha aquele retrato, passa os dedos pela tua cara e vemo-la sorrir.
- Ora então, vamos fazer com que o sorriso se estenda a todos nós.
E, com a maior das ternuras, abriu a caixa, pegou no retrato e pediu à sua Avó que abrisse a sua mão. Ela fez um gesto, disse que era uma mão feia, amarrotada, como ele lhe dizia quando era pequenito….
- Qual amarrotada, qual quê?
Foi buscar a máquina.
E ali, naquela cozinha, apenas com a luz que vinha da lareira onde acabava de cozer a bela sopa de feijão, ouviu-se um “clic”
- Avó vai ser com a sua mão, com esta história de vida que acabarei o meu curso.
A estas mãos devemos o que temos, o que somos hoje.
Não nos deu beijos, deu-nos muito mais do que isso. Deu-nos a sua coragem, a sua força, o nunca desistir.
Não me lembro da minha mãe, da sua filha. Guardo comigo a minha Belinha, aquele colo para onde sempre corri.
Mas não vou esquecer nunca esta mão, cheia de caminhos que vão dar ao melhor lugar do mundo: Um coração grande, doce, verdadeiro, o seu, minha querida Avó!
Olhou o relógio. Bolas! O João devia estar mesmo a chegar! Voou! Tomou um duche rápido, vestiu-se, olhou em volta, deu uma última olhada à caixinha de madeira que trouxera, que a Avó fizera questão de lhe dar, beberricou a correr uma chávena de café e ouviu a buzina do carro do amigo lá em baixo. Pegou no saco de fotografia, levou a mão ao fio de ouro, presente da sua Belinha, no último Natal, e entrou no elevador do prédio a correr.
- Boa tarde! Hoje o nosso repórter está com ar super feliz! – Disse-lhe um vizinho do prédio.
- Estou, pois! Hoje um amigo deu-me um presente.
- Um presente?
- Sim! Vou ver a história de uma Mulher, a melhor Mãe que alguém poderia ter, publicada numa revista!
- Ah! Ganhou um prémio, foi isso? Mais uma das suas belas fotografias?
- Não! Ou melhor, sim! Mas não é isso o que me importa! O importante é que se não me tivesse dado a mão, aquela senhora, a minha Avó Mariquinhas, hoje eu não teria uma história tão bela para contar!
- ‘Bora, Manel! Já lá estão todos à espera! E, prepara-te! A tua irmã é a primeira da fila para lhe autografares a revista.
Por: Cris
dezembro 01, 2007
Desafio (texto VII)
Desde então
Desde então por cada prazer uma ruga. Estranha esta contabilidade do céu. Dar e receber. Rugas pelos nossos prazeres e rugas pelos prazeres dos outros. Um comércio tradicional. Um alegria no tempo a trazer lágrimas hoje. Ou o contrário. Passos que não dei para que eles dessem passos mais firmes e seguros. Ilusão, claro. É por esse lado que vão as minhas mãos que já perderam a eficácia e têm agora o passado inscrito. Numa estranha linguagem escreveu-se aqui um texto que define a minha perda. O meu diálogo violento com o tempo. O meu crédito de ternura. A fotografia fica parada e trai-me. Põe na minha mão a potência do passado. Os sonhos. Quando ainda tudo era possível. Mesmo que a desconfiança aconselhasse a não esperar.
Desde então por cada beijo um desgosto. O ofício a dobrar o músculo sobre a obrigação. Os passos doridos pelo cansaço diário de não parar, de não dar tempo ao pensamento nem à dor. Tudo a equivaler-se na oração já desesperada. Para quê, Deus? As mãos fizeram o seu trabalho e andaram sempre próximas da verdade. Por isso trazem em si toda a história. Contam-na à sua maneira em gestos cada vez mais soletrados. O passado perde importância à medida que o futuro escasseia.
Desde então por cada surpresa uma dor. Não sobraram intenções. Não sobrou a volúpia de querer vencer. Não sobrou nenhum vestígio do desejo. Dizem que a cada sete anos a matéria que nos faz é toda renovada. E com a matéria vão as memórias e os desejos. Vão também os sons que se perderam e as vozes que atravessavam a alegria das conversas. Coisas que vêm do nada e a ele voltam. Só a matéria, que se renova cada vez mais disforme, permanece moldada à pressão das intempéries. E as mãos. As mãos permanentemente a negarem-nos.
Desde então por cada dia uma derrota. O sol a queimar o rosto e a esperança. A evaporar o amor e as amizades. A derreter a firmeza de laços provisoriamente eternos. E as notícias da noite a falarem de uma terra cada vez mais povoada. E o meu horizonte cada vez mais vazio. Os passos a serem cada vez mais curtos e vacilantes. E nenhum gesto de atenção a esta sobra do tempo. De repente, ainda somos, mas já não somos. As vozes já só se dizem para nos instruir, para nos ensinar o que não precisamos de saber. O que sabemos já não interessa.
Desde então por cada pensamento uma angústia. Vidas geradas para tentar. Mundos novos a descobrir. Frases novas a escrever e contar. Cumprir o estranho destino de ser. Estranha esta contabilidade do céu que só nos deixa conhecer o futuro depois, que nos dá o sonho para nos desiludir, que nos renova para nos enterrar, que nos alimenta para nos escravizar, que nos solta para nos perseguir, que nos dá a memória para esquecer, que nos dá a voz para mentir, que nos dá os sentidos para nos submeter.
Desde então por cada filho um universo.
Desafio (texto VI)
Cheguei aqui, nas curvas e contracurvas de uma jornada, longa e sofrida.
Que ficaram impressas nas rugas que marcam a minha pele tisnada pelo sol de muitos e áridos estios.
Cheguei aqui, e quase não me lembro de que fui menina.
De que tive sonhos e brinquei.
De que tive amigos, sem pensar que os tinha.
Que me deitava sem pensar no dia seguinte.
Cheguei aqui e digo:
-Afinal, o que foi a minha vida?
Qual a memória de mim que vai permanecer?
Talvez apenas uma velha e amarelecida fotografia saberá dizer alguma coisa sobre mim.
Saldo bem diminuto para a dimensão de uma vida.
Por: António Peciscas
(texto escrito em memória da minha mãe, Maria José)
Que ficaram impressas nas rugas que marcam a minha pele tisnada pelo sol de muitos e áridos estios.
Cheguei aqui, e quase não me lembro de que fui menina.
De que tive sonhos e brinquei.
De que tive amigos, sem pensar que os tinha.
Que me deitava sem pensar no dia seguinte.
Cheguei aqui e digo:
-Afinal, o que foi a minha vida?
Qual a memória de mim que vai permanecer?
Talvez apenas uma velha e amarelecida fotografia saberá dizer alguma coisa sobre mim.
Saldo bem diminuto para a dimensão de uma vida.
Por: António Peciscas
(texto escrito em memória da minha mãe, Maria José)
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