Tirem! Tirem! Tirem!
Tirem-me Setembro.
Tirem-me o Salazar e o estado novo e este novíssimo também.
Tirem-me a ditadura e a censura e a emigração para a América.
Tirem-me as alpergatas e as ceroulas e os campeonatos do Benfica.
Tirem-me a guerra de África e a do Iraque e a do Afeganistão.
Tirem-me Outubro.
Tirem-me a cauda da Europa e o corno de África.
Tirem-me as vitórias no atletismo de fundo.
Tirem-me a Amália, o Eusébio e o Pedro Abrunhosa.
Tirem-me a república, a monarquia e a independência.
Tirem-me Novembro.
Tirem-me a revolução e o muro de Berlim.
Tirem-me o folclore, as 770 novas Amálias e o Roberto Leal.
Tirem-me as castanhas e a água pé e a ginginha.
Tirem-me o verão de S. Martinho e o café descafeinado.
Tirem-me Dezembro.
Tirem-me o vinho, tirem-me a carta, tirem-me as próteses.
Tirem-me as couves galegas e o bolo rei com fava e brinde.
Tirem-me as mensagens do Cardeal, o ano novo do Presidente e o Last Christmas dos Wham.
Tirem-me a maior árvore de Natal do mundo e do universo.
Tirem-me Janeiro.
Tirem-me o Escudo invisível.
Tirem-me as tias, Cascais e o IC19.
Tirem-me a casa, o carro e as jóias da família.
Tirem-me o peso, a gordura, o cigarro e a saúde.
Tirem-me Fevereiro.
Tirem-me a máscara e os dias a menos.
Tirem-me a quarentena, o jejum e a indigestão.
Tirem-me a fé, a esperança e a criatividade.
Tirem-me o sono, o sexo, a cama e a mesa.
Tirem-me Março.
Tirem-me o pai, a mãe e a restante família.
Tirem-me uma fotografia para renovar o bilhete de identidade simplex.
Tirem-me o colete salva-vidas e o colete de forças e o colete encarnado.
Tirem-me o pão, a sopa e os convites da autarquia para ir ao teatro.
Tirem-me Abril.
Tirem-me a democracia, o parlamento, a vida e a liberdade.
Tirem-me Fátima, o Fado e o Futebol.
Tirem-me a minha marquise, a minha unhaca do mindinho e a SporTV.
Tirem-me o meu lugar cativo no estádio e o concerto dos três tenores.
Tirem-me Maio.
Tirem-me o emprego, os biscatos ou mesmo o meu posto de técnico de arrumação automóvel.
Tirem-me os sonhos e a gasolina barata e o passe social.
Tirem-me o subsídio de almoço, a bica e os pastéis de nata.
Tirem-me as espigas e as raparigas e o avô cantigas.
Tirem-me Junho.
Tirem-me o Camões e o Fernando Pessoa e os eléctricos de Lisboa.
Tirem-me a Expo, o casino e o parvalhão do futuro.
Tirem-me o Santo António, o S. Pedro, o S. João e a lúcida Lúcia.
Tirem-me as "trivelas", a "sustentabilidade" e o "então é assim".
Tirem-me Julho.
Tirem-me o subsídio de férias e a devolução do IRS.
Tirem-me a tenda vitalícia na Costa da Caparica.
Tirem-me a vocação para a matemática e ciências naturais dos meus filhos.
Tirem-me o passado e o presente deixado no chão pelo cão do vizinho.
Tirem-me tudo, tudo isto, mas não me tirem Agosto.
Que nessa altura estou de férias na pacatez das praias do Algarve, bem untado com protector solar factor 15, óculos de sol e vigilante, "derivado às gaijas boas e aos tsunamis que hádem acontecer".
Por: Lino Centelha
janeiro 06, 2008
janeiro 03, 2008
Texto III
Tempera-me
Como no anúncio do Azeite Gallo ele dá-me um sabor saudável à vida. Estamos em Portugal e os seus quarenta e muitos encafuaram-no no rol de desempregados. Não vamos ao cinema nem assinamos o Funtastic. Não assistimos a concertos e desde que nos gamaram o auto-rádio que nem uma musiquinha nos anima as voltas de carro. Não compramos lençóis de seda e ainda não trocámos os sofás já coçados pelo tempo e pelas acrobacias dos nossos corpos quando a programação televisiva por mais que se zapping ou tem legendas ou não vale a ponta de um chavelho e optamos por produzir o nosso próprio filme.
Mas quando ele encosta o seu nariz ao meu pescoço e eu faço o mesmo ao dele fico feita azeitona pronta a ser triturada no seu alambique. Aquele cheiro conhecido projecta-me memórias de momentos agradáveis e os efeitos sonoros que a sua língua consegue ao revolver os meus lóbulos das orelhas levam-me as mãos gaiatas a ir directas ao brinquedo com o deslumbramento infantil de quem molda plasticina.
Não acredito no romantismo do amor e uma cabana mas estamos em Portugal e não me elogiando ele as formas por ser cego não é um macho imbecil. Enquanto em vez de me ouvir facilmente me escutar e me contemplar os anseios e manias só lhe digo faz de mim a tua posta de bacalhau e tempera-me.
Por: maria_arvore
Como no anúncio do Azeite Gallo ele dá-me um sabor saudável à vida. Estamos em Portugal e os seus quarenta e muitos encafuaram-no no rol de desempregados. Não vamos ao cinema nem assinamos o Funtastic. Não assistimos a concertos e desde que nos gamaram o auto-rádio que nem uma musiquinha nos anima as voltas de carro. Não compramos lençóis de seda e ainda não trocámos os sofás já coçados pelo tempo e pelas acrobacias dos nossos corpos quando a programação televisiva por mais que se zapping ou tem legendas ou não vale a ponta de um chavelho e optamos por produzir o nosso próprio filme.
Mas quando ele encosta o seu nariz ao meu pescoço e eu faço o mesmo ao dele fico feita azeitona pronta a ser triturada no seu alambique. Aquele cheiro conhecido projecta-me memórias de momentos agradáveis e os efeitos sonoros que a sua língua consegue ao revolver os meus lóbulos das orelhas levam-me as mãos gaiatas a ir directas ao brinquedo com o deslumbramento infantil de quem molda plasticina.
Não acredito no romantismo do amor e uma cabana mas estamos em Portugal e não me elogiando ele as formas por ser cego não é um macho imbecil. Enquanto em vez de me ouvir facilmente me escutar e me contemplar os anseios e manias só lhe digo faz de mim a tua posta de bacalhau e tempera-me.
Por: maria_arvore
Texto II
Descubro Portugal quando recordo a areia das praias da minha infância, quando as palavras que me digo são em português, quando sei que partilho emoções e histórias particulares deste país. Não preciso de visão, audição, de nenhum sentido exterior...só preciso de me sentir a mim para que exista Portugal!
Por: Chloé
Por: Chloé
Texto I
SENTIDOS
Tira-me o ar aniquilado
desse rosto
em desatino
tira-me a voz desafinadade palavras
sem sentido
tira-me da mão o tacto
de dedos
putrefactos
tira-me os olhos vítreos
do momento inesperado.
Mas não me tireso gosto burilado
da maresia
do meu mar...
Por: Paula Raposo
Tira-me o ar aniquilado
desse rosto
em desatino
tira-me a voz desafinadade palavras
sem sentido
tira-me da mão o tacto
de dedos
putrefactos
tira-me os olhos vítreos
do momento inesperado.
Mas não me tireso gosto burilado
da maresia
do meu mar...
Por: Paula Raposo
janeiro 01, 2008
Desafio-te
Inspira-te neste excelente texto do anúncio ao Azeite Galo.
Tirem-me a vista.
Tirem-me para sempre a luz de Lisboa, tirem-me as encostas do Douro, o Tejo e o Alentejo, tirem-me a calçada dos passeios e os azulejos de parede.
Tirem-me o ouvido.
Tirem-me para sempre o choro da guitarra e o pranto do fadista, tirem-me os pregões das mulheres do bulhão e a pronúncia de norte a sul, tirem-me a fúria de espuma das ondas e o grito do golo.
Tirem-me o tacto.
Tirem-me para sempre o sol de Inverno a bater na cara, tirem-me o barro a ganhar forma entre os dedos, tirem-me o rosto queimado da minha mãe e a mão áspera do meu pai.
Tirem-me tudo isto, mas não me tirem o gosto.
Porque se eu ainda for capaz de saborear a alheira a rebentar de sabor, ou o bacalhau com todos a nadar em azeite, serei capaz de dizer, se não me tirarem a fala, que estou em Portugal.
(Claro que este anúncio muito bem conseguido só faz sentido quando aplicado ao Azeite Gallo, e o vídeo do mesmo, chega rápido ao cérebro, e mais rápido ao coração pelos símbolos que contém. Porque todos, ainda, continuamos a querer ver a luz das cidades, ver os rios o mar e as calçadas portuguesas. Continuar a ouvir a guitarra, as pronúncias, o golo, a fúria das ondas e os pregões deste Portugal. Sentir o sol de Inverno e a chuva de Verão na cara, o barro a nascer entre os dedos, sentir sempre o rosto queimado da mãe e a mão áspera do pai. Continuar a saborear a nossa rica gastronomia. E só com todos os sentidos podemos dizer, se não nos tirarem a fala, que estamos em Portugal.)
Tirem-me a vista.
Tirem-me para sempre a luz de Lisboa, tirem-me as encostas do Douro, o Tejo e o Alentejo, tirem-me a calçada dos passeios e os azulejos de parede.
Tirem-me o ouvido.
Tirem-me para sempre o choro da guitarra e o pranto do fadista, tirem-me os pregões das mulheres do bulhão e a pronúncia de norte a sul, tirem-me a fúria de espuma das ondas e o grito do golo.
Tirem-me o tacto.
Tirem-me para sempre o sol de Inverno a bater na cara, tirem-me o barro a ganhar forma entre os dedos, tirem-me o rosto queimado da minha mãe e a mão áspera do meu pai.
Tirem-me tudo isto, mas não me tirem o gosto.
Porque se eu ainda for capaz de saborear a alheira a rebentar de sabor, ou o bacalhau com todos a nadar em azeite, serei capaz de dizer, se não me tirarem a fala, que estou em Portugal.
(Claro que este anúncio muito bem conseguido só faz sentido quando aplicado ao Azeite Gallo, e o vídeo do mesmo, chega rápido ao cérebro, e mais rápido ao coração pelos símbolos que contém. Porque todos, ainda, continuamos a querer ver a luz das cidades, ver os rios o mar e as calçadas portuguesas. Continuar a ouvir a guitarra, as pronúncias, o golo, a fúria das ondas e os pregões deste Portugal. Sentir o sol de Inverno e a chuva de Verão na cara, o barro a nascer entre os dedos, sentir sempre o rosto queimado da mãe e a mão áspera do pai. Continuar a saborear a nossa rica gastronomia. E só com todos os sentidos podemos dizer, se não nos tirarem a fala, que estamos em Portugal.)
Textos a enviar para:
dezembro 31, 2007
dezembro 30, 2007
No prelo
“Factos podem sempre ser alterados ao contar-se uma história. Mas desta vez preciso de ter cuidado, porque não é uma história ficcionada o que vos vou contar. Relatarei os acontecimentos exactamente como os recordo; afinal de contas preciso que acreditem neles, o que já será suficientemente difícil.”Brevemente nas livrarias!
dezembro 29, 2007
Leituras
"as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. não é heresia, pensa bem, se se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam. precisam de nos parecer sem alcançar igualdade, que para isso estamos cá nós. e depois, beleza assim até aumentada, o que lhes tirou deus em préstimo de espírito deu-lhes em curvas e cor, servem perfeitamente para nos multiplicar e muito agradar. mas isso da inteligência é como te disse, cuidado com o que sabem porque acham mais do que sabem. pois a mim bastar-me-ia mulher burra, até calada, pouco fazedora ou aviada, que servisse só para noites de companhia e algum conforto de olhares quando queremos tanto ter cúmplices delicadas em nossa felicidades e tristezas, respondeu o dagoberto.""estás apaixonada por ele, ermesinda. não, baltazar, só te amo a ti, disse rápida, sem espera. e porque sofres tanto, perguntei. porque me deixou de conversas dom afonso, para que me mantenhas o corpo. mais que me estragues nem viver poderei, e assim tão medonha me tenho que nem reconheço minha antiga vantagem. a minha ermesinda já tinha pé torto virado para dentro, braço que não baixava com mão apontada para céu, outro braço flácido e sem mão a partir de pulso, mais olho esquerdo nenhum, só direito. era como estava..."
valter hugo mãe, o remorso de baltazar serapião, pág: 121, 134
(Um soberbo livro onde o autor numa escrita inovadora, retrata o passado medieval numa linguagem rude do povo, chamando a atenção para a violência doméstica contra as mulheres.)
dezembro 28, 2007
Leituras
"Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espectáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste."
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, pág 170
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, pág 170
dezembro 27, 2007
Leituras
"A tragédia principal da minha vida é, como todas as tragédias, uma ironia do destino. repugno a vida real como uma condenação; repugno o sonho como uma libertação ignóbil. mas vivo o mais sórdido e o mais quotidiano da vida real; e vivo o mais intenso e o mais constante do sonho. Sou como um escravo que se embebeda à sesta - duas misérias em um corpo só."
Fernando Pessoa, o Livro do Desassossego, pág 180.
Fernando Pessoa, o Livro do Desassossego, pág 180.
dezembro 26, 2007
dezembro 25, 2007
a quem pertenço ?
a quem me assemelho ?
oco da fala:
por isso escrevo,
especulo,
vazio, seco,
abro janelas e peito...
na folha frágeis sentidos,
descritos,
em vão...
definitivamente,
não acelero,
não paro...
não acelero,
não paro...
vou passo a passo,
e ultrapasso os percalços,
apontando o futuro,
aceitando o destino...
aceitando-me !
e ultrapasso os percalços,
apontando o futuro,
aceitando o destino...
aceitando-me !
na praça,
a céu aberto,
recolho o alheio,
viajo, mas não transmigro...
a céu aberto,
recolho o alheio,
viajo, mas não transmigro...
Nenhuma liçao a tirar desta viagem,
e de outras...
e de outras...
e de outras...
dezembro 23, 2007
dezembro 18, 2007
Via e-mail
dezembro 16, 2007
A Prenda de Natal
dezembro 15, 2007
A Pergunta :
O descuido na forma de vestir, não é mais do que o reflexo de algum descuido em relação ao exterior, ou mesmo ao, interior ?
Desafio ( texto XIII)
As minhas mãos
Estão velhas e enrugadas...
Minhas mãos são minhas armas
Desde o dia em que nasci.
Ergui-as, trémulas e frágeis
Mas gritei: Estou aqui!!!
Com elas desbravei florestas,
Com elas derrubei gigantes,
Estrangulei fantasmas,
Derrubei barreiras,
Conquistei instantes.
Com elas agarrei os sonhos
Que a vida me deu p'ra sonhar.
Com elas afaguei e amei meus filhos
Como só uma mãe sabe amar!
Com elas colhi as rosas
Sem ter medo dos abrolhos.
Com elas sequei as lágrimas
Que me escorreram dos olhos!
Nas minhas mãos enrugadas
Que parecem não ter valor,
Tenho um tesouro guardado:
O meu infinito AMOR!
Por: Leonor Costa
Estão velhas e enrugadas...
Minhas mãos são minhas armas
Desde o dia em que nasci.
Ergui-as, trémulas e frágeis
Mas gritei: Estou aqui!!!
Com elas desbravei florestas,
Com elas derrubei gigantes,
Estrangulei fantasmas,
Derrubei barreiras,
Conquistei instantes.
Com elas agarrei os sonhos
Que a vida me deu p'ra sonhar.
Com elas afaguei e amei meus filhos
Como só uma mãe sabe amar!
Com elas colhi as rosas
Sem ter medo dos abrolhos.
Com elas sequei as lágrimas
Que me escorreram dos olhos!
Nas minhas mãos enrugadas
Que parecem não ter valor,
Tenho um tesouro guardado:
O meu infinito AMOR!
Por: Leonor Costa
Desafio (texto XII)
Olha na minha mão
As recordações de outro tempo.
Olha a minha mão envelhecida
Calejada pelo tempo
Que pega na foto
Como no dia a dia
Olha a foto
Da saudade
A eternidade
De uma coisa vivida
Olha para eles e para mim
Olha para a cara de felicidade
De um dia vivido
Cheio de cumplicidade
Por: Psique
As recordações de outro tempo.
Olha a minha mão envelhecida
Calejada pelo tempo
Que pega na foto
Como no dia a dia
Olha a foto
Da saudade
A eternidade
De uma coisa vivida
Olha para eles e para mim
Olha para a cara de felicidade
De um dia vivido
Cheio de cumplicidade
Por: Psique
dezembro 13, 2007
Última hora
Tratado da Treta
"Almoço oferecido pelo Presidente da República aos chefes de Estado, governo e ministros, deixa de fora o Ministério da Soltura e seus respectivos ministros, por falta de empenho nas funções delegadas"
"Almoço oferecido pelo Presidente da República aos chefes de Estado, governo e ministros, deixa de fora o Ministério da Soltura e seus respectivos ministros, por falta de empenho nas funções delegadas"
dezembro 11, 2007
Leituras

"Os homens engendram guerras por uma questão de lucro e de dinheiro, mas combatem nelas por questões de terras e de mulheres. Mais cedo ou mais tarde, as outras causas e motivações diluem-se no sangue derramado e deixam de ter significado. Mais cedo ou mais tarde, a morte e a sobrevivência sufocam os sentidos, Mais cedo ou mais tarde, sobreviver é a única lógica, e morrer é a única voz e a única visão. Então quando os melhores amigos morrem, gritando, e os homens bons enlouquecidos com dor e fúria perdem a cabeça na cova sangrenta, quando toda a integridade e justiça e beleza do mundo são destruídas por braços, pernas e cabeças de irmãos, filhos e pais, então, o que faz os homens continuar a lutar e a morrer, ano após ano, é a vontade de proteger a terra e as mulheres.
Para sabermos que tudo isto é verdade, basta escutá-los nas horas que precedem uma batalha. Falam sobre as suas casas e sobre as mulheres que amam. E sabemos que é verdade quando os vemos morrer. Quando um homem agonizante está próximo da terra, ou deitado na terra, nos últimos instantes procura sempre alcança-la, agarrando um punhado na sua mão, Se puder, erguerá a cabeça para olhar para a montanha, para o vale ou planície. Se estiver longe de casa pensará nela e falará sobre ela. Falará sobre a sua aldeia, ou cidade natal, ou sobre a cidade onde cresceu. No final , a terra assume importância. E, no último momento murmurará ou gritará o nome de uma irmã ou de uma filha ou de uma amante ou da mãe, até mesmo quando disser o nome do seu Deus. O fim reflecte o princípio. No fim, o que existe é uma mulher e uma cidade."
In: "Shantaram" de Gregory David Roberts, pág: 703
dezembro 10, 2007
Desafio (texto XI)
À minha avó
No espaço dessa mão estão as minhas rotas silenciosas; está esta crença que tenho em mim de que repetirei os teus passos de forma nova, mas ainda assim com os mesmos caminhos. Está a evidência genética do que sou, esta coisa em que me transformo enquanto as minhas rugas, ainda tão diferentes das tuas rugas, se vão construindo em desenhos semelhantes.
E está em ti hoje toda a minha noção de eternidade, avó: uma eternidade que cabe na palma da tua mão enrugada; que está nessa essência que sou sendo parte de ti, parte da mãe que pariste e que me pariu a mim; nas pernas que herdei orgulhosa; no formato do corpo, no tom de voz, na falta de mariquices…
Chegasse eu a ter essa mão feita pano enrugado, cinzelada a linhas de história e de crescimento, sei que seria muito parecida com o que és hoje: pequenina, frágil, com medo da morte que é cada vez mais como a vizinha que te pisca o olho todos os dias. Chegasse eu a essa idade, ia querer ter essas mãos sulcadas pelo destino. Chegasse eu à tua idade, queria ter uma palma da mão onde coubesse ainda a família, num retrato desbotado pelo tempo, quando o tempo ainda era medido em mais do que instantes.
É que sei que herdei nos genes isto que me faz tão parecida contigo, mesmo sendo tão diferente. É que sei que a eternidade se mede não num qualquer paraíso que tantos julgam intuir como verdade, mas sim na memória que os outros não querem perder de nós. E uma mão assim sulcada é uma mão eterna: já acariciou e foi acariciada por tanta gente que, ao ser tão amada, será eterna enquanto permanece indelével na memória daqueles que seguraste nas tuas mãos, contra o teu peito, no teu carinho.
Por: Hipatia
dezembro 08, 2007
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