janeiro 31, 2008

Novelo

Acordei a cantarolar que nem um pardal ou pintassilgo, ou seria mais um canário, de olhar esgazeado e voz rasgada, com letras de Mariza Monte e sonoridades de Devestations num quase-filme de Dead Can Dance com tímbalos a encerrar o show. Uma sensação estranha e nada normal, visto não fazer parte da rotina dos meus dias a boa disposição, alegria ou felicidade, ou outros adjectivos terminados em um, Smile. Este não é o meu acordar, definitivamente. Volto a deitar-me virado para lugar nenhum (o melhor lugar) . Um emaranhado de visões à Maldoror, faz com que o cérebro pareça demasiado grande para o meu crânio. Algumas memórias atingem-me com a força de uma bola de demoliçoes. A memória tem essa força, quanto mais perturbadora mais persistente se torna. Fecho os olhos com força até doer e tento esvaziar a mente. Uma comichão nas bolas se apudera de mim. Consolo-me até à chegada do sono !

janeiro 29, 2008

A pergunta

O lugar de onde somos é aquele que estamos a deixar ou aquele onde temos as nossas raízes ?

janeiro 28, 2008

Sobre a bancada de trabalho tenho esta janela virada para o céu, e é daqui que vejo todos os dias as partidas e chegadas dos aviões. E é também daqui que todos os dias parto um pouco nessas viagens que nunca foram minhas.

Leituras

“Tenho noventa anos. Ou noventa e três. Uma idade ou outra.
Quando temos cinco anos, sabemos a nossa idade com uma precisão que chega aos meses. Mesmo quando temos vinte e poucos, sabemos quantos anos temos. Dizemos, eu tenho vinte e três ou, talvez, vinte e sete. Mas quando chegamos aos trinta, começa a acontecer uma coisa estranha. Começa por ser um mero soluço, um instante de hesitação. Que idade tens? Ora, tenho – começamos confiantes mas, a seguir, paramos. Íamos dizer trinta e três, mas não é essa a nossa idade. Temos trinta e cinco. E depois estamos incomodados, porque nos perguntamos se isto é o princípio do fim. É claro que é, mas irão passar décadas antes de o admitirmos. Começamos a esquecer as palavras: estão na ponta da língua mas, em vez de acabarem de se libertar, permanecem aí. Subimos as escadas para ir buscar alguma coisa e quando lá chegamos já não nos lembramos do que é que procurávamos. Chamamos o nosso filho pelos nomes de todos os seus irmãos e, por fim, pelo nome do cão, antes de chegarmos ao dele. Por vezes, esquecemo-nos de que dia é. E, finalmente, esquecemo-nos do ano. Na realidade, não se trata bem de eu ter esquecido. É mais como se tivesse parado de contar.
Tenho noventa anos. Ou noventa e três. Uma idade ou outra.”

“Água aos Elefantes” de Sara Gruen

janeiro 15, 2008

"As palavras dançam nos olhos das pessoas conforme o palco dos olhos de cada um."

Almada Negreiros - "A Invenção do Dia Claro"

Evite burocracias

janeiro 13, 2008

Leituras (não lidas)



Não, este não li, mas achei o título muito engraçado e a capa muito bem conseguida, mesmo sendo eu Benfiquista...e crescido :)

janeiro 12, 2008

«Não estou aqui a fazer poses»



Aos interessados :

A última entrevista que o Luiz deu antes de morrer, a 5 de Janeiro, é hoje publicada na Revista Tabu, suplemento do Jornal Sol (mas não comprem) . Comprei , li-a, e fiquei surpreso, algo não batia certo, o Luiz estava muito soft, resolvi ir ao site do Jornal, e reparei que a entrevista tinha sido completamente cortada do original !!! Agora sim, o Luiz como só ele, sem papas na língua, a voz incómoda, o verdadeiro. Podem ler AQUI a versão original !

Reflexão para o fim de semana

Comentário do Dia

(Em resposta à pergunta do post anterior)

"Já soube mas agora não me lembro. Acho que me esqueci. Embora me lembre que já soube, sinceramente não me lembro quando é que se me varreu. Tenho uma vaga ideia que sabia e recordo-me ter lembrado disso um dia em que estava a recordar as memórias que entretanto tinha perdido. E lembro-me que nessa altura ainda me lembrava. Mas são memórias bastante antigas que já devo ter esquecido. Pode ser uma amnésia passageira mas não me lembro de outra vez em que tenha esquecido. Além disso sempre tive dificuldade em decorar números. Se entretanto me lembrar volto cá. Admitindo que não me esqueço."

Por: ikivuku

janeiro 10, 2008

A pergunta:


Qual a distância entre a Memória e o Esquecimento ?

Leituras

"Estava a brincar com o pensamento. Era com o que mais brincava. Não tinha mais ninguém com quem brincar. Brincava a pensar em catástrofes, acidentes, doenças, mortes e outros danos irreparáveis. Então regozijava. Era um consolo que tudo pudesse ser pior, muito pior. Se o apartamento ardesse, por exemplo, na véspera de natal, a árvore podia pegar fogo e tombar por cima dos presentes e eu era o único sobrevivente e era encontrado nos escombros carbonizados da mãe e de Fred e de Boletta e tinha de ficar deitado ligado a uma máquina para respirar durante pelo menos três meses, enquanto dezoito médicos lutavam pela minha vida e pelo que restava de mim, então, a música seria outra. Seria, seria. Então, a maioria das pessoas que tinham feito pouco de mim iam ficar com tantos remorsos que viriam de joelhos pedir perdão, e os jornais iriam estar cheios de artigos sobre a minha sina, livros seriam escritos sobre mim, realizados filmes, quadros pintados e óperas compostas e, na verdade, essa era a única coisa que sonhava: que tudo ia ficar diferente, diferente do que era. Vi-me a andar por aí com a cara queimada enrolada em gaze, só e grandioso. Assim sonhava."

"Meio-Irmão" de Lars Christensen, pág 242

janeiro 09, 2008

Pensamento do Dia

" O que importa é que a mente vá funcionando em todos os segundos da nossa vida. Ao contrário dos telemóveis, que apenas vão funcionando, quando lhes dá na...rede! "

By: Fisolofo Finú

janeiro 08, 2008

Texto VI

Analfabeta-me

Tirem-me o A de todos os Amores vividos e por viver, o B dos beijos, a ver se me importo;

Tirem-me o C da Cama que levam também o C dos Cornos;

Tirem-me o D dos dias felizes ou o E dos Encontros que encontrarei outras formas de enfrentar a vida.

Tirem-me o G de todos os Gostos e eu arranjarei desgostos abençoados;

Tirem-me o H da História que às vezes me enfastia de tanto a saber de cor, o I das Ilusões efémeras, o J de todos os Jogos com falsas terminações e o L da Libido dos sábados à noite e eu terei todos os outros dias da semana.

Tirem-me o M das Melhores sensações que levam também o M dos piores Males.

Tirem-me o N das Noites mais suadas ou o O dos Ódios que nunca guardei para depois e eu suarei durante os dias mais gelados.

Tirem-me o P dos Prazeres benditos e eu converterei os malditos em satisfação.

Tirem-me o Q de todas as Questões impertinentes; o R dos Restos, o S da Sarna que em certos dias arranjo para me coçar.

Tirem-me o T de Todas as Tentações e eu tentarei tornar-me Tentadora.

Tirem-me o U do Último dia que preciso Urgentemente de adiar e o V das Vitórias mal digeridas.

Tirem-me também o X dos Xaropes que não curam e o Z das Zangas que nunca melhoraram.

Porém… deixem-me o F.

Depois de me tirarem todas as letras não poderei mais ser eu. Só me resta pois um grito: Fooooooda-se!!!!!!!!!!

Por: Fausta Paixão

Texto V

Este Galo canta há mais de um século, dizem. Se isto é verdade temos que o silenciar, porque começar a tentar sobrepor-se às nossas tradições e às melhores coisas que conseguimos levar da vida, é um poucochinho exagerado, não? Um prato de bacalhau com batatas regado com azeite galo não se assemelha a uma boa queca, nem por sombras.

A luz arroxeada com pálidas colorações argênteas da cidade, naquela alvorada, levaram-me a sair pelas ruas com o meu pai, num passeio inesquecível, com um amigo que eu sabia que andaria sempre a meu lado. A mão dele no meu ombro, áspera e acolhedora, leva-me a sentir à distância, a espuma das ondas que quebram violentas contra a suavidade das rochas cravadas ao longo das praias portuguesas, onde o sol de inverno, em tonalidades inesquecíveis, me inunda de memórias que não se comparam com nada deste mundo. A poesia sonora da guitarra portuguesa ouve-se ao longe, num gemido esculpido por gigantes abraçando as ruas de Lisboa. Se me sabia bem agora uma alheira ou uma posta de bacalhau? Até que sabia, mas porra!!! Vamos medir bem as nossas prioridades.

Por: Paulo Vinhal

janeiro 06, 2008

Texto IV

Tirem! Tirem! Tirem!

Tirem-me Setembro.
Tirem-me o Salazar e o estado novo e este novíssimo também.
Tirem-me a ditadura e a censura e a emigração para a América.
Tirem-me as alpergatas e as ceroulas e os campeonatos do Benfica.
Tirem-me a guerra de África e a do Iraque e a do Afeganistão.

Tirem-me Outubro.
Tirem-me a cauda da Europa e o corno de África.
Tirem-me as vitórias no atletismo de fundo.
Tirem-me a Amália, o Eusébio e o Pedro Abrunhosa.
Tirem-me a república, a monarquia e a independência.

Tirem-me Novembro.
Tirem-me a revolução e o muro de Berlim.
Tirem-me o folclore, as 770 novas Amálias e o Roberto Leal.
Tirem-me as castanhas e a água pé e a ginginha.
Tirem-me o verão de S. Martinho e o café descafeinado.

Tirem-me Dezembro.
Tirem-me o vinho, tirem-me a carta, tirem-me as próteses.
Tirem-me as couves galegas e o bolo rei com fava e brinde.
Tirem-me as mensagens do Cardeal, o ano novo do Presidente e o Last Christmas dos Wham.
Tirem-me a maior árvore de Natal do mundo e do universo.

Tirem-me Janeiro.
Tirem-me o Escudo invisível.
Tirem-me as tias, Cascais e o IC19.
Tirem-me a casa, o carro e as jóias da família.
Tirem-me o peso, a gordura, o cigarro e a saúde.

Tirem-me Fevereiro.
Tirem-me a máscara e os dias a menos.
Tirem-me a quarentena, o jejum e a indigestão.
Tirem-me a fé, a esperança e a criatividade.
Tirem-me o sono, o sexo, a cama e a mesa.

Tirem-me Março.
Tirem-me o pai, a mãe e a restante família.
Tirem-me uma fotografia para renovar o bilhete de identidade simplex.
Tirem-me o colete salva-vidas e o colete de forças e o colete encarnado.
Tirem-me o pão, a sopa e os convites da autarquia para ir ao teatro.

Tirem-me Abril.
Tirem-me a democracia, o parlamento, a vida e a liberdade.
Tirem-me Fátima, o Fado e o Futebol.
Tirem-me a minha marquise, a minha unhaca do mindinho e a SporTV.
Tirem-me o meu lugar cativo no estádio e o concerto dos três tenores.

Tirem-me Maio.
Tirem-me o emprego, os biscatos ou mesmo o meu posto de técnico de arrumação automóvel.
Tirem-me os sonhos e a gasolina barata e o passe social.
Tirem-me o subsídio de almoço, a bica e os pastéis de nata.
Tirem-me as espigas e as raparigas e o avô cantigas.

Tirem-me Junho.
Tirem-me o Camões e o Fernando Pessoa e os eléctricos de Lisboa.
Tirem-me a Expo, o casino e o parvalhão do futuro.
Tirem-me o Santo António, o S. Pedro, o S. João e a lúcida Lúcia.
Tirem-me as "trivelas", a "sustentabilidade" e o "então é assim".

Tirem-me Julho.
Tirem-me o subsídio de férias e a devolução do IRS.
Tirem-me a tenda vitalícia na Costa da Caparica.
Tirem-me a vocação para a matemática e ciências naturais dos meus filhos.
Tirem-me o passado e o presente deixado no chão pelo cão do vizinho.

Tirem-me tudo, tudo isto, mas não me tirem Agosto.
Que nessa altura estou de férias na pacatez das praias do Algarve, bem untado com protector solar factor 15, óculos de sol e vigilante, "derivado às gaijas boas e aos tsunamis que hádem acontecer".

Por: Lino Centelha

janeiro 03, 2008

Texto III

Tempera-me

Como no anúncio do Azeite Gallo ele dá-me um sabor saudável à vida. Estamos em Portugal e os seus quarenta e muitos encafuaram-no no rol de desempregados. Não vamos ao cinema nem assinamos o Funtastic. Não assistimos a concertos e desde que nos gamaram o auto-rádio que nem uma musiquinha nos anima as voltas de carro. Não compramos lençóis de seda e ainda não trocámos os sofás já coçados pelo tempo e pelas acrobacias dos nossos corpos quando a programação televisiva por mais que se zapping ou tem legendas ou não vale a ponta de um chavelho e optamos por produzir o nosso próprio filme.

Mas quando ele encosta o seu nariz ao meu pescoço e eu faço o mesmo ao dele fico feita azeitona pronta a ser triturada no seu alambique. Aquele cheiro conhecido projecta-me memórias de momentos agradáveis e os efeitos sonoros que a sua língua consegue ao revolver os meus lóbulos das orelhas levam-me as mãos gaiatas a ir directas ao brinquedo com o deslumbramento infantil de quem molda plasticina.

Não acredito no romantismo do amor e uma cabana mas estamos em Portugal e não me elogiando ele as formas por ser cego não é um macho imbecil. Enquanto em vez de me ouvir facilmente me escutar e me contemplar os anseios e manias só lhe digo faz de mim a tua posta de bacalhau e tempera-me.

Por: maria_arvore

Texto II

Descubro Portugal quando recordo a areia das praias da minha infância, quando as palavras que me digo são em português, quando sei que partilho emoções e histórias particulares deste país. Não preciso de visão, audição, de nenhum sentido exterior...só preciso de me sentir a mim para que exista Portugal!

Por: Chloé

Texto I

SENTIDOS

Tira-me o ar aniquilado
desse rosto
em desatino
tira-me a voz desafinadade palavras
sem sentido
tira-me da mão o tacto
de dedos
putrefactos
tira-me os olhos vítreos
do momento inesperado.
Mas não me tireso gosto burilado
da maresia
do meu mar...

Por: Paula Raposo

janeiro 01, 2008

Desafio-te

Inspira-te neste excelente texto do anúncio ao Azeite Galo.

Tirem-me a vista.

Tirem-me para sempre a luz de Lisboa, tirem-me as encostas do Douro, o Tejo e o Alentejo, tirem-me a calçada dos passeios e os azulejos de parede.

Tirem-me o ouvido.

Tirem-me para sempre o choro da guitarra e o pranto do fadista, tirem-me os pregões das mulheres do bulhão e a pronúncia de norte a sul, tirem-me a fúria de espuma das ondas e o grito do golo.

Tirem-me o tacto.

Tirem-me para sempre o sol de Inverno a bater na cara, tirem-me o barro a ganhar forma entre os dedos, tirem-me o rosto queimado da minha mãe e a mão áspera do meu pai.

Tirem-me tudo isto, mas não me tirem o gosto.

Porque se eu ainda for capaz de saborear a alheira a rebentar de sabor, ou o bacalhau com todos a nadar em azeite, serei capaz de dizer, se não me tirarem a fala, que estou em Portugal.

(Claro que este anúncio muito bem conseguido só faz sentido quando aplicado ao Azeite Gallo, e o vídeo do mesmo, chega rápido ao cérebro, e mais rápido ao coração pelos símbolos que contém. Porque todos, ainda, continuamos a querer ver a luz das cidades, ver os rios o mar e as calçadas portuguesas. Continuar a ouvir a guitarra, as pronúncias, o golo, a fúria das ondas e os pregões deste Portugal. Sentir o sol de Inverno e a chuva de Verão na cara, o barro a nascer entre os dedos, sentir sempre o rosto queimado da mãe e a mão áspera do pai. Continuar a saborear a nossa rica gastronomia. E só com todos os sentidos podemos dizer, se não nos tirarem a fala, que estamos em Portugal.)

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