junho 15, 2008
Um dia vingo-me !
Estou a ficar farto de fazer compras visuais. O chato destas compras é que chego sempre a casa de mãos vazias !
Teoria sobre os saltos
A 2ª parte do salto para cima é descer, mas a 2ª parte do salto para baixo não é subir - pensava o senhor Juarrez. Se do chão saltares para cima ao chão voltarás, mas se de um 30º andar saltares para baixo é provável que não voltes a subir ao 30º andar. De qualquer maneira, o senhor Juarrez, por preguiça, usava sempre o elevador.(Gonçalo M. Tavares)
junho 14, 2008
junho 13, 2008
Sexta-Feira 13 !!! (2ª parte)
O Euromilhões não saiu...mas consegui um Empregoooo !!!
Abençoada Sexta-Feira 13 !
Abençoada Sexta-Feira 13 !
Go
Costas direitas. Não te esqueças. Costas direitas. Direita. Esquerda. Sobe. Sobe. Sobe. Direita. Esquerda. Cuidado. Não olhes para baixo. Não olhes! Não, não olhes. Respira. Mais um degrau. Vá. Depressa. Costas direitas. Cabeça erguida. Vá. Olha em frente. Respira bem. Não olhes para baixo. Sobe. Sobe. Mãos abertas. Não te agarres a nada. Vá. Sobe. Sobe. Sobe. Costas direitas. Um degrau de cada vez. Sobe. Sobe. Sobe. Mãos. Respira. Não olhes para baixo. Não olhes. Não podes voltar para trás. Em frente. Para cima. Sobe. Sobe. Sobe. Depressa. Respira. Direita. Esquerda. Direita. Costas direitas. Esquerda. Não pares. Sobe. Sobe. Sobe. Depressa. Sobe. Respira. Não olhes. Sobe. Direita. Respira. Sobe. Esquerda. Não. Olhes. Não. Direita. Pares. Não. Esquerda. Não. Olhes. Sobe. Sobe. Sobe.Desafio aceite por Me
Gato
Eu sou o GATO. Simplesmente o GATO.Há quem goste e quem não goste.
Os que gostam, não precisam de razões.
Os que não gostam, de razões precisam!
É verdade... Há humanos que não gostam de mim, que acham que eu sou traiçoeiro. Mas ser (ou não) “traiçoeiro’ é uma característica humana! Os humanos, sim… traem, mentem, magoam com intenção. Nós, os animais, não! Nós somos amigos dos nossos amigos. Nós perdoamos. Nós, até, esquecemos. E estamos sempre “lá”.
Quem não gosta de nós e acha que somos traiçoeiros é porque ele(a) próprio(a) é traiçoeiro! Porque tem algo a esconder, porque tem algo a temer, porque não é verdadeiro! E eu já conheci tantos humanos assim… Mas também conheci e conheço humanos… humanos! Pessoas que nos defendem, nos tratam, nos amam. Pessoas que nos dão o melhor de si, sem conveniência e interesse, sem nada pedir ou esperar em troca.
É verdade... Há humanos que não gostam de mim… ora, paciência! Agora, não me acusem de ser uma coisa que não sou, apenas para disfarçar ou ocultar uma coisa que vocês são!!!
Eu sou o GATO. Simplesmente o GATO.
E tu… quem finges que és?!
Desafio aceite por Gata
junho 09, 2008
Circo
Fácil ficar escondida tipo gato de rabo de fora, ou o tigre que ruge mesmo de barriga cheia. Fácil ter e defender uma opinião. Fácil ser tinhosa muitas vezes e bombástica em alguns dias. Fácil também, se estiver para ai virada e tiver os fósforos à mão, deitar fogo e ficar a ver o circo a arder. Fácil – cada vez mais – não deixar que as tendências pirómanas tomem o melhor de mim. Fácil verter o fel que, por vezes, me envenena o dia, passando a vilã pelos minutos que levam a compor um post. E fácil, naqueles dias que me correm bem, vir para aqui distribuir abraços e beijinhos e contar histórias do coração. Fácil vir. Fácil permanecer. Fácil saber que há sempre a hipótese de regresso, mesmo quando penso que o espectáculo já acabou. Fácil ficar no meu canto. Fácil manter algum recato. Fácil ainda rir. Fácil saber que sei ir à guerra, mas recuso pegar em armas só porque sim. Fácil manter leituras, como foi fácil deixar de ler tantos e lamentar por outros que já não posso ler. Fácil vir só ao fim da tarde. Fácil nem lembrar durante o dia. Fácil saber-vos por cá comigo.Para além de mim (mas comigo sempre), a máscara que me apetece vestir, a personagem. Apenas um nick com uma pessoa por trás, igual a outra pessoa qualquer, cheia de defeitos e algumas virtudes, criatura e criador em comunhão.
E este blogue, como a vida, é uma arena de circo onde me cabe também aquecer sob a luz forte, suar um bocadinho, abrir um sorriso e deixar o espectáculo continuar.
Desafio aceite por Hipatia
Voz Toze
junho 08, 2008
Por entre nuvens
Ameaçava! E a primeira gota de chuva fez-se chegar ao ritmo do nosso primeiro beijo. Deixámos que a doçura da água nos cobrisse, que o silêncio da noite que chegava se tornasse porto de abrigo. Abraçados desde o nosso refúgio, esperámos a chuva passar, observámos como as nuvens se afastavam para outro lugar. Pareceu mágico, como se aquela água tivesse vindo apenas para abençoar um beijo e torná-lo eterno. Entreolhámo-nos como se os nossos pensamentos cruzados tivessem sido um só, e sorrimos. No céu brilhava agora, na nossa direcção, a mais bela estrela. É a nossa! - Disseste-me subitamente. - Quando estivermos distantes ela brilhará para ti. Saberás nesse momento que penso em ti. E dar-te-á todas as noites aquele beijo especial, que te fará sentir que apesar de longe és parte de mim. Hoje, à semelhança daquele dia as nuvens cobrem o céu, ameaçam uma chuva intensa...e tu não estás! Mas estou tranquila, sei que apesar de tudo a nossa estrela existe, e por entre as nuvens encontrará uma forma de me entregar o beijo que de longe me mandas e me faz sentir-te tão perto.Desafio aceite por Sorriso da Lua
Tudo em ti é luz.Tudo é puro. Imaculada pele… veludo ao toque!
Teu semblante fechado, não me retrai nem me oprime.
Todo ele é luz!
Todo ele brilha!
Todo ele sorri… para mim…
Tudo em ti é luz. Tudo é fogo.
Ardente coração… flamejante, apaixonante…
Parece gélido à vista, mas ao toque aquece e reconforta.
Todo ele é Luz! Todo ele brilha!
Todo ele se abre… para mim…
Tudo em ti é luz. Tudo é paz.
Teu abraço… leito onde me deito.
Ninho onde me protejo.
Manto que me cobre quando o frio me atinge.
Todo ele é Luz! Todo ele brilha! Todo ele me protege…
Quando a escuridão se abate, e a luz negra nos assola, tuas sombras se levantam…
Clareiam que nem estrelas… e, ao invés das trevas, nos guiam para o Éden que é teu sorriso…
Onde tudo é Luz, onde tudo brilha, onde tu és tudo… para mim.
Desafio aceite por Marte
junho 06, 2008
Vou mudar-me !
Não vou mudar de cara
Não vou mudar de nome
Não vou fugir de nada
Vou mudar-me !
Vou mudar de casa
Vou mudar de cidade
Vou mudar de ares
Vou mudar-me !
Não levo os livros nem os cd´s
Não levo as fotografias nem os quadros
Esses pertencem à casa que deixo
Vou mudar-me !
Começar de novo...outra vez
Talvez seja bom, no fim de contas...
Até já...
Não vou mudar de nome
Não vou fugir de nada
Vou mudar-me !
Vou mudar de casa
Vou mudar de cidade
Vou mudar de ares
Vou mudar-me !
Não levo os livros nem os cd´s
Não levo as fotografias nem os quadros
Esses pertencem à casa que deixo
Vou mudar-me !
Começar de novo...outra vez
Talvez seja bom, no fim de contas...
Até já...
A Visita
Desta vez fui eu o desafiado, e com muito prazer aceitei o convite da Madalena, a escrever um texto para o seu Aliciante recanto.
"Olhámo-nos sofridos de ausência para nos voltarmos a visitar quando as saudades apertarem..." (continue a ler)
"Olhámo-nos sofridos de ausência para nos voltarmos a visitar quando as saudades apertarem..." (continue a ler)
junho 05, 2008
Fenos e Fadas
… e depois ele começou a contar-me aquelas histórias de príncipes e princesas e de palácios e castelos, de um pai rico e mercador, das relações com a corte, da amizade feita em criança com os meninos (os príncipes é claro), falou-me até do futuro…Falava tudo isto com um misto de seriedade e ternura, pleno de entusiasmo, que eu me via vestida de sedas turcas, espartilhos que me transformavam a silhueta numa ninfa inspiradora de bardos e trovadores, via-me como dama de companhia da rainha, sonhava, traiçoeiramente, quiçá em vir a ser concubina do rei. Não me faltariam iguarias que nunca tive, ouro que só via reluzir ao longe na distribuição do pão aos pobres, vestes que deslizavam em corpos esbeltos e aperaltados sempre separadas por um cordão intransponível de soldados de peito metálico. Brincos nas orelhas, pendentes no pescoço.
E quando desatou o nastro que lhe prendia a melena e cofiou o bigode, embora num corpo pouco atlético mas esbelto e convenhamos de considerável argumento, enredei-me numa teia feita de odores em que os âmbares se confundiam com o feno do dossel improvisado.
O cheiro a feno nunca mais me abandonou.
O abastado mercador ofereceu-nos a sua carroça, o copo de cristal é um jarro de lata e o pendente é um corno. E ele é o meu rei.
Desafio aceite por PreDatado
junho 04, 2008
Última hora
Tribunal proíbe RTP de emitir touradas parlamentares
(...por considerar que o programa é violento e susceptível de influenciar no futuro negativamente crianças e adolescentes.)
Ler notícia
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Lugar
Tinham-lhe dito que aquele lugar estava cheia de fantasmas. Não acreditava. Nunca tinha acreditado nessa possibilidade. Enquanto criança, achava engraçado conseguir provocar o terror nos amigos e amigas quando dizia que queria ir até lá ver os fantasmas. Nunca ninguém quis.Anos mais tarde, numa visita rápida à família, lembrou-se do casarão. Fazia frio. Pegou num casaco e foi dar uma volta.
Queria ir lá ver se continuava a não acreditar. Passeou pelo bosque à volta do casarão. Olhou. Viu. Apurou os sentidos. Olhou melhor. Não ouvia nada. Silêncio.
Tinha esperança em descobrir que afinal acreditava. Não lhe parecia. Não sentia nada.
Mexeu os pés por entre as folhas. Parou junto a uma das muitas árvores em frente à entrada principal e respirou fundo. Lembrava-se daquele ar. Lembrava-se bem daquela frescura a entrar-lhe pelos pulmões. Lembrava-se.
Viu as paredes escritas e riu-se. Afinal havia mais quem se atrevesse a ir até ali, sem medo. Aliás, sem medo ao ponto de provocar. Não precisava chegar a tanto. Respirou.
Foi-se embora. A esperança morrera. Sorriu perante essa noção. Não se importava. Sossegou. Apertou o casaco e foi-se embora.
Se nem mesmo quando o casarão possuía ainda toda a nobreza que janelas e paredes intactas conferem acreditava, não era agora, perante um fantasma do que aquele lugar já tinha representado, que iria dobrar-se. Não.
Foi.
Desafio aceite por Me
junho 03, 2008
Duo
- Onde vais?- Onde queres ir?
- Não sei… escolhe tu.
- Está bem. Mas se escolher eu, não podes ver. Fecha os olhos.
- O quê?- Não podes ver. Fecha os olhos.
- Mas…
- Fecha. Fechou. Por força do cetim, fechou os olhos.
- Não confias em mim?
- Confio.
- Não confias nada.
- Confio!
- Mentes.
- Juro-te.
Ela sabia o caminho. Queria fazê-lo. Sempre quis. Conhecia-o de cor. Era dela. Não queria partilhar o caminho com ninguém. Apenas o destino. O caminho era dela.
- Já chegamos?
- Não sentes nada?
- Não. Estamos lá?
- Penso que sim. Mais um pouco e estamos.
- Então, mas não sabes se chegamos?
- Sei. Sei. Espera.
Não sabia. O caminho não era o que esperava. Demasiado acidentado. Teria chegado? Não sabia. Sentiu-se incomodada. Não devia saber se tinha chegado ou não? Não devia sentir-se? Sempre tinha confiado que assim que chegasse saberia. Olhou-o. Perdido. Ele estava perdido. À espera que o situassem.
- Estás perdida?
- Não… Não sei. Tu estás?
- Confio em ti.
- Não me mintas!
- Estou contigo. Tão perdido quanto tu. Deixa-me abrir os olhos. Ajudo-te.
- Não! Não quero. Eu sei o caminho. Eu sei o caminho.
- Deixa-me ir contigo. Não me leves; deixa-me ir. Eu vou.
- Não…- Deixa.
- Não.
Agarrou-o. Prendeu-o. Sentia medo. Onde estava o destino? Onde? Ela devia saber quando chegasse! Prendeu-o. Não queria estar sozinha no caminho. Não queria. Queria que parasse. Queria parar. Mas não era capaz. Tinha de lhe provar que sabia o que estava a fazer.
- Deixa-me abrir os olhos. Posso ajudar. Ver-te.
- Não. Não quero.
- Podemos ir para onde quiseres. Mas deixa-me ver-te.
- Tu não aguentas.
- Estou aqui, não estou?
- Porque te prendi. Porque te tapei os olhos.
- Porque eu deixei.
- Porque eu quis!
- Porque eu deixei. Deixa-me ver-te. Quero ver.
- Chegamos.
Não tinham saído do lugar. Destapou os olhos. Viu-a. Pequena e menina à frente dele. Abraçou-a. Ela chorou. De olhos fechados. Chorou. Não queria aquele caminho. Apenas o destino. O destino que a abraçava e a fazia sentir-se sem vontade de se mexer. Queria parar. Parou.
- Vejo-te. Não dói, pois não?
- Dói.
Pegou na fita. Enrolou-a e colocou-a no chão. Pegou-lhe na mão.
- Sei um bom caminho para fazermos.
- Sabes?
- Vens?
- Para onde vai esse caminho?
- Onde tu quiseres. Escolhe tu.
- Escolho aqui.
- Então, chegamos.
- Sim. Chegamos. Sinto-o.
Tinham chegado. Sentiam-no.
Desafio aceite po Me
junho 02, 2008
D. Arlete
A D. Arlete é visita quase diária. No nosso serviço e, como sabemos por ser uma figura já familiar, num banco do jardim que fica em frente, a alimentar os patos do lago. Só falta (a uma e a outra obrigação) quando tem que ir aos tratamentos ou quando afazeres extraordinários a impedem de aparecer. Poderia dizer-se que vem para reclamar, não fora o facto da D. Arlete se dirigir sempre aos outros com a mesma aspereza duma borboleta ao pousar num malmequer. Como se adivinhasse, nas almas alheias, uma fragilidade igual à sua.Nesta última vez, a D. Arlete vinha mais sentida do que é habitual. Como uma criança pequena, sentou-se e amuou. Porque nunca tinha sido convidada para nenhum dos passeios que são organizados, a espaços, para os idosos do concelho.
- Nunca fui a nenhum! Nem um! Nunca me convidaram! Todas as senhoras lá do bairro já foram menos eu! Nem sei o que isso é, meninas!
A funcionária, paciente, explicou-lhe que as participações nos passeios são por inscrições, não por convites, e que se ela nunca tinha ido é porque nunca se tinha inscrito em nenhum. A D. Arlete lamentou-se:
- Ai menina que eu não sabia! Pensava que os convidavam!...
Que não. Mas que não havia problema nenhum porque, voluntariou-se imediatamente a colega, lhe ia buscar um impresso e fazia-se já ali a inscrição para o próximo que houvesse. Era garantido!
Quando ela chegou com o papel, a D. Arlete hesitou uns segundos, como se se tivesse acabado de lembrar de qualquer pormenor extremamente importante, e disse:
- Ah pois é! Mas eu não posso ir a passeios, amor! Não tenho vida para isso!
E, posto isto, levantou-se, despediu-se de todos educadamente e saiu… para voltar no dia seguinte.
Desafio aceite por Manga dalpaka
junho 01, 2008
Fake Plastic Women
She looks like the real thingShe tastes like the real thing
My fake plastic love.
Gela-se a alma enquanto lá fora chove ainda e faz frio, nesta Primavera que não desgruda o Inverno que não se vai e nas montras das lojas, mulheres perfeitas e plásticas, anunciam as roupas da estação nova que ninguém pode vestir.
Gelam-se os abraços frios de mulheres perfeitas, plásticas, de braços sempre abertos e disponíveis para o figurino que a moda quer vestir e em números deprimentes onde só mulheres perfeitas, plásticas, teimam em caber, com sorrisos estáticos e mãos sempre abertas, mas que nessas mulheres perfeitas, plásticas, são apenas mãos sem rasto, sem traço de vida.
Gela-se o interesse das vidas que passam pela montra e olham só o preço das roupas penduradas em mulheres perfeitas, plásticas, ou então já nem chegam sequer a olhar para os braços apenas abertos cheios de coisa nenhuma de manequim de montra sem vida, plástico, perfeito, carregando as roupas novas, deprimentemente decotadas e curtas, da estação que não chega para quem passa vivendo, longe das montras carregadas de perfeição a ganhar pó.
Gela-se…
Desafio aceite por Hipatia
maio 31, 2008
O final que ninguém viu
Já repararam que a vida não passa apenas de um filme, em que uns vivem plenamente , tal como deve ser vivida, e outros limitam-se simplesmente a viver, porque não têm outra alternativa. Mas todos terminam muito antes de assistir aos créditos finais !
Monotonia Vs Cérebro
"Durante a realização de uma tarefa monótona o cérebro começa a economizar e faz menos esforço para a completar. É nessa altura, de menor atenção, que se cometem erros."
Mas pior do que a monotonia das tarefas, é a monotonia dos dias sempre iguais, aí então o erro é uma constante, a todas as horas, minutos, segundos, o cérebro abranda, abranda, abranda...
Mas pior do que a monotonia das tarefas, é a monotonia dos dias sempre iguais, aí então o erro é uma constante, a todas as horas, minutos, segundos, o cérebro abranda, abranda, abranda...
Libertar-me-ei
É noite, a ante-sala me sufoca. O cheiro nauseante das úmidas paredes mofadas, me engulham. Sou tomado de calafrios. Frio. Preciso de ar. Preciso da cálida luz da lua. Aberta a porta, titubeio. Não sou livre, não sou senhor de mim. Um títere disforme de um ser humano. Obrigo-me ao primeiro passo. A cidade opressiva, senhora cruel dos destinos, me espera. Libertar-me-ei dos grilhões enferrujados, enfim.Tragam-me outros.
Desafio aceite por Ricardo Rayol
maio 30, 2008
Uma mosca
Uma mosca na réstia do leite que atapeta o fundo do copo. Deve ter estado ali a noite toda, a debater-se com a morte naquele líquido lençol branco, enquanto eu me debatia com a vida entre os lençóis duma velha cama prisional. Primeiro com dificuldade, que nem os lábios jovialmente frescos duma ruiva com menos dez anos do que eu me despertavam o corpo, e a fálica excitação do meu pénis resumia-se a uma pequena frustração noctívaga. Depois ela cansou-se de tentar e adormeceu.Uma mosca na réstia do leite que atapeta o fundo do copo. Aproveito o sono daquele anjo sem asas para percorrer a solidão do corredor do estabelecimento prisional abandonado onde, por causa dum erro profissional, passei quase toda a minha vida. Trabalhava para uma seguradora como assassino profissional. Era um trabalho fácil e bem pago: só tinha que dar um tiro de vez em quando em alguém que se preparava para gastar uma pipa de massa ao patrão, fosse numa operação num hospital privado, numa reforma milionária ou noutra merda qualquer.
Uma mosca na réstia do leite que atapeta o fundo do copo. Algumas gotas lácteas mancham os lábios do anjo, agora que volto à cela que já foi minha, e é pela Via Láctea que o anjo me vai levar. Adormeceu de barriga para baixo e o rabo dela é uma maçã à espera do pecado. Penetro-lhe o sono sem ter a certeza se lhe penetro os sonhos, em movimentos tão lentos como os seus bocejos. Ela morde o próprio dedo indicador da mão esquerda.
Uma mosca na réstia do leite que atapeta o fundo do copo. Lembro-me de ter a arma apontada à mulher com quem agora me fundo. Eu tinha vinte anos e ela dez. Ia receber um transplante de coração demasiado caro para a Seguradora. Foi a única vez que falhei. A última também. No momento em que ia premir o gatilho ela olhou na minha direcção e eu tremi. Ela lambia um gelado e mordia o próprio dedo indicador. A bala passou-lhe a dez centímetros da testa e alojou-se no papagaio duma loja de animais.
Uma mosca na réstia do leite que atapeta o fundo do copo. Ainda não me vim mas ela muda de posição. Abre as pernas e pede que eu lha faça um minete. Aliás, ordena-me. Eu faço. Costumo fazer tudo o que ela me pede desde que a conheci nesta prisão onde agora sou um sem abrigo. Talvez deva humedecer os lábios com o que resta do leite, para também ela sentir alguma frescura na língua, mas gosto de ver a mosca a bater-se pela vida naquele branco antro de morte.
Uma mosca na réstia do leite que atapeta o fundo do copo. Também eu sou uma mosca a proteger o que ainda significa vida em mim. No fundo ainda sou um prisioneiro, só que agora sem guardas nem trancas na porta. Apenas com um anjo com uns lábios e um rabo excitantes. O ano passado detectaram-me um tumor no cérebro. Agora ando fugido dos assassinos da seguradora, que me colocou na lista dos segurados a abater. Foi assim que ela apareceu aqui, para me matar. Acabámos por fazer amor.
Desafio aceite por Bagaço amarelo
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