março 29, 2009

Lá vem lobo !

"Ora, o que na história do avô se contava era que um pequeno pastor de ovelhas, talvez para entreter as suas solitárias horas no monte, decidiu um dia gritar que vinha o lobo, que vinha o lobo, em modo tal que a gente da aldeia, armada de chuços, cachaporras e algum bacamarte da penúltima guerra, saiu em tromba para defender as ovelhas e, de caminho, o zagal que as guardava. Afinal, não havia lobo, tinha fugido com os gritos, disse o moço. Não era verdade, mas, como mentira, parecia bastante convincente. Satisfeito com o resultado da mistificação, o nosso pastor resolveu repetir a graça e, uma vez mais, a aldeia acudiu em peso. Nada, de lobo nem cheiro. À terceira vez, porém, ninguém moveu um pé da sua casa, estava visto que o zagal mentia com quantos dentes tinha na boca, que grite, já se cansará. O lobo levou as ovelhas que quis, enquanto o moço, empoleirado numa árvore, assistia impotente ao desastre. Embora o tema de hoje não seja esse, vem a pêlo recordar as vezes que muitos de nós também gritámos que vinha o lobo. Foram muitos mais os que negavam que o lobo viesse, mas afinal veio e trazia uma palavra na coleira: crise."
By José Saramago

março 28, 2009

Está tudo bem. Dorme

'O que é que disseste, papá?
Nada. Está tudo bem. Dorme.
Vai correr tudo bem, não vai, papá?
Vai, sim.
E não nos vai acontecer mal nenhum, pois não?
Claro que não.
Porque nós transportamos o fogo.
Sim. Porque nós transportamos o fogo'.

In "A Estrada" de Cormac Mccarthy

março 27, 2009

Dia Mundial do Teatro

Impulso

Depois de ter entregue a encomenda na morada indicada, num repente, invadiu-lhe o desejo de beijar aquela mulher sem que alguma vez a tivesse visto. A mulher olhou-o franzindo o sobrolho e antes que ele pudesse dizer fosse o que fosse, pôs-lhe as mãos sobre o peito, empurrando-o para fora, fechando a porta de seguida. Ficou ali imóvel, no patamar, a pensar no que teria acontecido. E ainda mal refeito da humilhação, o estafeta desceu as escadas e saiu. A vizinha do lado debruçada no parapeito da janela, sorriu-lhe simpáticamente. Num repente, invadiu-o novamente aquele doloroso desejo de beijar aquela mulher sem que alguma vez a tivesse visto. Aproximou-se. A mulher já sem o sorriso no rosto, olhou-o franzindo o sobrolho e antes que ele pudesse dizer fosse o que fosse, fechou a janela violentamente, enquanto nesse preciso momento dois vasos voavam na sua direcção, aterrando a seus pés. Ficou ali imóvel, no passeio, a olhar para os sapatos cobertos de cacos, terra e flores, a pensar no que teria acontecido. Ainda mal refeito da humilhação, virou-se e seguiu caminho com o desejo.

março 26, 2009

Anúncio dominical

"Aproveito para vos anunciar que, enquanto for responsável por esta paróquia, não faço intenções de baptizar nenhum menino chamado Lucílio. Queiram dispor para tais propósitos dos serviços de uma paróquia vizinha"

Padre João Eleutério

Apeteceu-me

“Depois de algumas horas conversando, alta noite, à frente de uma mesa, por onde já passou vinho de mais e os petiscos da amizade com certeza, com aquela ansiedade natural de quem quer correr todos os caminhos que ainda houver para descobrir na vida, pediste-me uma vez, irmão mais jovem nestas causas por cumprir, que te ensinasse opções, que te aconselhasse e sugerisse, e eu em nítido nulo disse-te nada, e nada realmente foi uma ausência de palavras bem escolhido. Mas de todos os silêncios que há na noite, um outro grande fez-se nos teus olhos, a meio caminho entre a busca e a devoção e um império de perguntas reflectido. Decerto desejavas muito mais do que aquilo que eu te oferecia, mas não há outra resposta, outro sentido, outro nome, outra cara, outro apelido…Procuravas em mim decerto o conselheiro mais velho e sabedor, mas terás de conformar-te se não te aponto caminhos ideias, nem elucido, que o homem que conheço e habito, sempre resistiu de mais ao outro, ao poeta a que presido.Contudo, se queres mesmo que te diga alguma coisa, sempre te adianto o que souber, e desculpa lá se não fizer muito sentido…Não há ontem que não durma, nem hoje que não morra no amanhã, e o futuro não tem cor nem tem partido. Caso a caso a espaços ser feliz, usar excessivamente a vida, mesmo quando não lhe estamos a ver muito o sentido. Agitar sempre antes de usar, como diz no prospecto, e deixar aos outros, embora vigiadamente, os cuidados peçonhentos da gestão, apurar em fogo brando as coisas do afecto, em labaredas a saltar soltar paixão, pouco mais te pode adiantar quem fôr artista, a cada minuto olhar o céu, beber o mar, as pedras da montanha e a fé toda! A cada minuto olhar este país a navegar, é por isso que eu olho o mundo inteiro e olho toda a gente, e cada riso, a cada árvore festejo a boda triunfal da natureza aqui presente, e tenho os animais, e tenho os meus amigos, e tenho o fogo á noite, e tenho o teu sorriso, e tenho a história sempre e a serra ali à vista… Embriago-me todos os dias de futuro e de saudade, embriago-me todos os dias como se fosse eu próprio a liberdade, vou-me bastando a mim mesmo na conquista, que mais posso dizer-te companheiro?.... Que amei tudo de mais!....”

Pedro Barroso

março 25, 2009

Vá-se lá saber porquê!



Faço tensão de todas as noites .
Sentar-me de frente para o mar.
Deixar nas minhas costas a cidade adormecer.
Sintonizar-me no eco do vaivém das ondas.
Eu, o areal, o mar, e algumas rochas.
O piscar de olho do farol, as traineiras ao longo.
Descobrir constelações no céu nocturno.
Basta-me o que a vista alcança.
Por vezes, basta-me isto.

Não quero o marketing irritante das Vitrines decoradas. Nem o ruído dos automóveis e a poeira dos escapes. Não quero esplanadas cheias de “gente ci-vi-li-za-da”. Nem palmadinhas nas costas só porque fica sempre bem. Não quero Praças enfeitadas em dias de festa. Nem sorrisinhos de Presidentes disto, daquilo e dacoloutro. Mais as Senhoras Finas “humildes e educadas” que se passeiam com seus lulus enfeitados a largarem os cócos no caminho.
“Ah! Coitadinho, apeteceu...”
Contra os cocós! Marchar! Marchar!
Contra os cocós! Marchar! Marchar!
Não quero abortadeiras gananciosas à espreita no vão da escada. Nem bebâdos deitados no próprio vómito, ainda de garrafa na mão. Camas de cartão debaixo das sacadas. Copos de plástico, latas, papéis e beatas pelo chão. Não quero mais uma cidade dessarumada. Não quero nada disto.
Lavem-me esta cidade!
Porra !!!!
Faço tensão de todas as noites.
Sentar-me de frente para o mar.
Esquecer de vez a cidade nas minhas costas.
Sintonizar-me no eco do vaivém das ondas.
Eu, o areal, o mar, e algumas rochas.
O piscar de olho do farol, as traineiras ao longo.
Descobrir constelações no céu nocturno.
Basta-me o que a vista alcança.
Por vezes, basta-me isto.
Vá-se lá saber porquê!

março 23, 2009

Colectivo Silêncio da Gaveta

Voz - João Rios
Texto - Isabel de Sá


(Noite de 21 de Março)

Aos Pais Interessados

I Festa do Livro Infantil de Lisboa

De 27 de Março a 5 de Abril, na Praça da Figueira.

Finalmente, segunda-feira !

março 22, 2009

Só promessas...

AAS aconselha Sporting a boicotar a Taça da Liga

Apoiado. Acho muito bem.
Quanto menos equipas na Taça da Liga, melhor !

Sem Comentários

22 de Março Dia Mundial da Água.

O 5º Fórum Mundial da Água terminou hoje na Turquia -
sem reconhecer a Água como um bem essencial à Vida

março 21, 2009

Da Árvore e da Poesia

(Póvoa de Varzim ficou adormecida neste dia)

Assim acordou Vila do Conde no Dia Mundial da Árvore e da Poesia. Uma iniciativa do "Colectivo silêncio da Gaveta".

E assim, logo pela manhã as árvores traduziam em seiva e fruto as palavras dos Poetas.


Dezenas de árvores. Centenas de poemas. E sons.

Enquanto caminhava, filmava e ia saboreando cada fruto.

Uma variedade enorme, uns amargos, outros doces...

E ia dizendo em voz alta, o quanto me sabiam bem.

Talvez alguém me tenha achado louco ou um pouco estranho, por andar a falar com as árvores, mas na altura não me preocupei com esse pormenor. E talvez mais logo volte com um escadote para chegar aos frutos mais altos...

Hino ao Bêbado

O bêbado na confeitaria
pergunta ao senhor Carneiro
quantas vezes foi à lua

Esta tirada é um achado
verdadeiramente genial
diria o Jaime Lousa
que também se embebedava
muitas vezes
Os bêbados são muito mais interessantes
do que os sóbrios
a vida dos sóbrios é, muitas vezes,
absolutamente insípida, sisuda, previsível
já Baudelaire dizia que deveríamos
estar sempre embriagados
Os bêbados cantam, riem e discursam
e fazem os outros rir
Hoje só não apanho uma bebedeira
porque vomitei no avião
vim há pouco da Suiça
e lá há bêbados como aqui
e o bêbado continua a discursar
pode ser que lhe saia outra tirada genial
e o bêbado volta a cantar
o patrão começa a irritar-se
os bêbados cantam e os patrões irritam-se
é uma cena que vem da antiguidade
há-de haver sempre bêbados e patrões
a menos que os cafés passem a ser
auto-geridos pelos bêbados
o que até nem era má ideia
olha, alliás, todos os negócios deveriam
ser geridos por bêbados
e era a festa completa
Agora o homem fala do Cavaco
temos discurso à nação
um bêbado à presidência da República!
um bêbado a primeiro-ministro!
O homem até fala que é preciso sentido de Estado
e civismo
o homem está a preparar a candidatura
a disparar à esquerda e à direita
a piscar o olho ao eleitorado central
um bêbado à presidência
e acabava-se a crise

Álcool gratuito para toda a gente!
Uma cerveja para comemorar!

A. Pedro Ribeiro

março 20, 2009

Experiência, para que te quero!

-Está disponível para um horário nocturno ?
-Estou disponível para qualquer horário !
-Tem experiência ?
-20 anos de experiência !
-E que mais tem para nos dar ?
-É só isso que tenho para vos dar !

Uma semana depois via telémovel:

"Lamentamos mas não foi seleccionado,
boa tarde e boa sorte!"

O que eu gostava de ter dito...

(Sobre o filme - Gran Torino)



Podes ser um velho patife, podes ser um jovem imbecil. Podes ser amargo e solitário, podes ser a vítima ou o assassino. Podes ser um sobrevivente, ou podes ter tido sorte, simplesmente. Podes vir das colinas do Laos ou das planícies do Midwest. Podes emigrar e podes imigrar. Podes roubar automóveis ou consertar máquinas de lavar roupa. Podes ser intolerante, podes ser liberal, podes ser virgem como um padre sincero ou podes ser promíscuo como um paneleiro sem marido. Podes ser violada, podes ser humilhado, podes ter ganho a guerra ou perdido a batalha, podes ter morto 13 coreanos ou mais. Podes cuspir sangue, podes ir confessar-te. Podes odiar os teus netos e amaldiçoar os teus filhos, podes viver com valentia e teres vergonha disso e podes ser um cobarde sem remorsos. Podes ter tuberculose e podes ter saudades. Podes ser o que tu quiseres, na vida. Porque é a forma como morres que te define.

Um post literalmente gamado ao Paulo, autor do Blogville

março 19, 2009

As Metamorfoses de Ouvido

"A sua vida não tinha interesse algum, e compensava isso vendo filmes, muitos filmes. Ía ao cinema, várias vezes ao dia, em todos os dias da semana - cada vez mais, a vida dos filmes substituía-se à sua. Quando foi participado o seu desaparecimento, a polícia começou por procurar o seu nome no genérico dos filmes em cartaz." José Eduardo Lopes

Morreu o Pai de Mr Magoo

Quem não se lembra do pitosga ?

março 18, 2009

Hoje Vi Ana


Não sei se Viana me viu a mim
Basílica ou Igreja de Santa Luzia.
Fiquei surpreso por saber que esta obra
foi concluída há pouco mais de meio século !!!

Um dos vitrais das rosáceas

O mesmo, do lado de dentro
Os jardins da Basílica

Uma das vistas sobre Viana
a partir do Zimbório

"havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana"

Achei piada ao nome da Viela

Escultura do Beato no seu Burrito,
que inclui vários painéis em alto relevo
que envolvem o pedestal. Muito original.
Quando tirei a foto ao Navio Gil Eanes
veio-me logo à memória a história do Gastão Ferraz,
operador de rádio do Navio, e que era espião ao serviço da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. E pensei logo:
"Isto dava um grande Filme !"

março 17, 2009

Preservativo Religioso

A Sida não se combate com Preservativos

Parece-me que o Papa acabou de fazer mais um apelo anti-natura para combater a Sida. A medida abstencionista está mais que gasta. E lá foi o Papa em mais uma viagem a África, apenas a pensar no futuro da Igreja. Caça aos fiéis.

Gosto de Igrejas (vazias) enquanto magníficos monumentos, mas só por isso!

março 15, 2009

Casa de Pedra


Voltou ao lugar da infância. Demorou a aproximar-se. Apreensivamente abriu os portões da quinta, e da memória. Logo em frente, estava o velho castanheiro, companheiro de todas as horas, de todas as brincadeiras e segredos, a sombra de todas as leituras e sonhos. O baloiço de corda ainda preso aos ramos mais fortes murmurou ao soprar do vento, como se o convidasse a sentar para mais uma brincadeira. Sorriu. Voltou-lhe à memória a manta de retalhos estendida sobre a sombra do castanheiro, onde se deitava de bruços e deliciado seguia o trilho do exército de formigas. Começou a subir o caminho de terra batida que leva à casa de pedra no cimo da quinta. O caminho por onde fez grandes descidas no seu carrinho de rolamentos, e que terminava sempre com o capotar, e logo, um esfolar de joelhos e uma risada ou uma lágrima. Mas voltava a pegar no carrinho como se nada tivesse acontecido, subia o caminho rapidamente, e mais uma vez tentava chegar ao fim da descida atribulada, sem capotar. Vezes sem conta tentou. Capotou sempre. Seguiu em frente, ao lado do caminho avistou o lago onde costumava largar os barquinhos de papel, depois sentava-se na beira do lago e batia lentamente com os pés fazendo círculos na água para que os barcos navegassem para longe, até ao outro lado. Olhou triste para o lago já seco, quase coberto pelas ervas, esquecido - o tempo altera todas as coisas – pensou. Proseguiu caminho, em frente, no cimo, lá estava a velha casa de pedra, adormecida. Sentiu-se exausto. Deixou-se afundar nas memórias da casa. Lentamente foi-se recompondo, ergueu a cabeça, levou a mão ao bolso do casaco e retirou a chave apertando-a entre os dedos como se fosse algo sagrado. Subiu os três degraus do alpendre e demorou-se com a chave, rodou a maçaneta e a porta deslizou com um gemido ferrugento. Prontamente sentiu as passadas do pai, o cheiro e o chamar da mãe. Uma lágrima desceu-lhe no rosto. Tinha perdido a coragem uma vez mais. Fechou a porta. Desceu apressadamente o caminho de terra batida sem mais olhar para trás, sem voltar a olhar para o lago ou para o velho castanheiro, saiu batendo o alto portão da quinta atrás de si que se fechou num estrondo. O vento que se fazia sentir cessou imediatamente. O baloiço imóvel. O tempo parado. Desalentado deixou cair os ombros, a cabeça, os braços – talvez outro dia – pensou.