junho 23, 2005

Leituras (III)

Menato - "Diga-me lá francamente, compadre, no meio de uma escaramuça você não dizia "Ah ! Se eu me apanhasse agora em casa ?" Baixinho, só para si ? Não tenha medo, compadre, comigo pode falar à vontade."

Ruzante - "Ah ! Se vossemecê tivera passado por onde eu passei, teria dito o mesmo uma data de vezes. O que é que você julga que é estar numa trampa de país, onde não se conhece ninguém, onde não se sabe para onde ir, e só se vê gente a berrar: "Dá-lhe, dá-lhe ! Mata, mata ! Esfola" ? E os canhões e espingardas, a metralha; e ver um amigo ao lado morto morrido, e outro que vem morrer ao pé de si. E quando a gente julga que foge dá consigo no meio dos inimigos; e um que foge mesmo e apanha logo um tiro nas costas. Só lhe digo que é preciso uma grande coragem para fugir. Quantas vezes é que vossemecê pensa que eu fingi de morto e deixei passar por cima de mim toda aquela cavalaria ? Não me mexia nem um pintelho, mesmo que me caísse em cima uma montanha! Digo-lhe eu que é pura verdade: para mim um tipo que conserva a vidinha é que é mesmo um homem de coragem."

Menato - "Porra, compadre, não se podia enfiar num buraco de um salgueiro, ou trepar para cima de um carvalho ? Ou pôr-se de cócoras atrás de uma sebe, como quem...percebe o que eu quero dizer ?"

Ruzante - "Para dizer a verdade, não. Podia-o ter feito em caso de aperto, mas é que não era uma boa saída !"

(Trecho do texto de teatro "Falatório do Ruzante de volta da Guerra" de Ângelo Beolco)

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