fevereiro 28, 2009

Haicai #7

(mas só hoje...)

Há uns dias atrás brinquei com a derrota do Sporting frente aos Alemães. E para me redimir, hoje, durante noventa e picos minutos, vou ser Sportinguista de corpo e alma !

fevereiro 27, 2009

Haicai #6

Boa Sorte

Escolhe...

A pedido, aqui fica a tradução do post anterior, pela mão da Tradutora de serviço do Ministério.

"Escolhe a vida. Escolhe uma carreira. Escolhe uma família. Escolhe uma televisão grande como o caralho. Escolhe máquinas de lavar roupa, carros, leitores de CD e abre-latas eléctricos. Escolhe saúde, colesterol baixo e seguro dentário. Escolhe planos de reembolso hipotecário com taxa fixa. Escolhe a primeira casa a comprar. Escolhe os teus amigos. Escolhe roupa de tempos livres e bagagem a condizer. Escolhe um fato de três peças e combina o caralho do tecido. Escolhe o faça-você-mesmo e pergunta-te quem és tu num Domingo de manhã. Escolhe sentar-te naquele sofá, a ver concursos entediantes e estupidificantes, empanturrando-te de comida de plástico. Escolhe apodrecer no fim de tudo isso, mijando-te numa casa miserável, que é nada mais que uma vergonha para os pirralhos egoístas e lixados que geraste para te substituir. Escolhe o teu futuro, Escolhe a vida.

Mas para que quero eu fazer semelhante coisa? Escolho não escolher a vida. Escolho outra coisa. E os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem a heroína?

fevereiro 26, 2009

Choose Life...

Choose life. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players and electric tin openers. Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three-piece suit and arrange the fucking fabrics. Choose DIY and wonder who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch, watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable hole, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats that you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life.
But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose something else. And the reasons? There are no reasons. Who needs reasons when you've got heroin?
in Trainspoting

hoje...

São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Sim Paulo, foram cinco!

fevereiro 25, 2009

Pensamento pós Carnaval

Mais um Carnaval em que não atirei balões de água a ninguém. Nem pus cola na maçaneta das portas. Não atirei ovos e de seguida farinha. Não enchi as bisnagas com água e outros líquidos. Não atirei bombinhas de mau cheiro para dentro das lojas. Não colei moedas no chão do passeio. Não prendi foguetes ao rabo dos gatos. Não fiz telefonemas anónimos. Não prendi palitos nas campainhas. Não pus balões nos tubos de escape dos automóveis. Tanta merda que não fiz, imaginem que nem o raio de uma serpentina atirei !!! Tudo isto por ser crescido, e ser crescido não presta, e isso chateia-me !

Um Ano Muito Antigo

fevereiro 22, 2009

Great Night



Esta é uma das minhas noites preferidas. Enquanto as estrelas não chegam ao Kodak Theatre, vou preparar os petiscos, pois a noite vai ser longa. Uma tábua de queijos, desde os mais suaves aos mais fortes, a acompanhar com uns frutos secos, noz, caju, amêndoa e avelã, e também o damasco a ameixa e o figo, ligam sempre bem! O pão branco, o pão de centeio, e os palitos de sésamo. Quanto ao vinho optei por um Dão Quinta da Murqueira tinto 1999...já que foi oferecido, eheheh. E assim sozinho, vou fazer a festa. Agora chega de conversa !
Até depois...

A Póvoa em dias de sol, fica assim:


As ruas cheias de gente...

Passeios pela marginal

Há quem tente a sorte ao robalo

Há quem deixe escritos na areia

Os habituais jogos de praia

Apanhadores de conchas e búzios
E agora deixo-vos com um pensamento:

Só existe o que é olhado durante um certo tempo"

TV Nostalgia




A sombra sou eu

(foto by me)

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
(Almada Negreiros)

Olha quem fala...

Cinco minutos com a entrevistada... Hipatia

O que te assusta ? - A impotência: não poder agir, reagir, mudar, ficar fechada no meu corpo
As aparências iludem ? - Sempre! Talvez por isso não me canso de tentar ver para além
O que te fascina ? - Tudo o que não compreendo ou que, para além de qualquer explicação, ainda assim parece impossível
Tens alguma pedra no sapato ? - Muitas. Demasiadas. Mas são as minhas pedras e eu sou um Sísifo na minha vida, ora
O que te faz mais falta ? - Dinheiro e paciência, sem dúvida
Rir é o melhor remédio ? - Quase sempre. Mesmo quando não chega a remediar, é panaceia
Que livro andas a ler ? - "A Lâmpada de Aladino" de Luís Sepúlveda
Qual a tua memória de infância ? - A primeira de todas? Ainda não sabia andar sozinha e tinha um "voador". Lembro-me de ir contra o frigorífico.
A melhor forma de relaxar ? - Um banho bem quente
A Literatura é o sentido último das coisas ? - Não. Está demasiado malbaratada e qualquer cromo se pensa escritor. Mas ajuda perscrutar o sentido das coisas com o olhar de um bom poeta
Quem premiavas com um Óscar ? - Ralph Fiennes, obviamente
Quem convidarias para dois dedos de conversa ? - Edgar Morin
Uma viagem ? - A Marte
Um lema ? - Para a frente é que é o caminho

fevereiro 21, 2009

É O QUE DÁ FAZER A FESTA ANTES DO FIM !
E FORÇA BENFICA OLÉ, OLÉ...

(2) Descobrindo...

Muito interessante este "Portfólio de Portugal", basta clicar nos distritos no mapa, e descobrir todo um Portugal em fotografia, quem sabe esteja lá a tua terrinha !
Para seguir viagem clica...Aqui

Descobrindo...

É caminhando que se faz o caminho, e é caminhando que se vai descobrindo coisas novas na internet, como este jardim em Marysville, habitado por esculturas fantásticas feitas de terracota!




Take a tour

fevereiro 20, 2009

#14

"Noite de quinta-feira. Jantara com um amigo, daqueles que sempre a fazia sentir-se desejada, mas não ameaçada. Pelo menos, sabia, ou acreditava que, na companhia dele, era senhora da sua vontade, da vontade do seu corpo. O amigo era um rapaz decente; culto, meigo, generoso e, principalmente, tímido. Era esta sua última característica que mais a tranquilizava. (...) Mas agora era outro que, claramente, a cortejava." In, Invisão, Mário Cunha

Foi assim que ela começou a história quando lha contei. Disse-lhe que não omitisse nada, mas sei que tenho de ser eu a prosseguir, porque lhe conheço os pudores que a limitam na íntegra captação daquilo que é realmente importante. Ela, a minha outra metade, a mulher a quem as palavras não assustam, desvela-se na poesia de um encontro e fixa-se no tremeluzir da vela que, sobre a mesa, sombreia o olhar e o aproxima da paixão.

E eu, a metade ousada, direi que o outro me cortejava, sim, e que os meus olhos davam voz de comando às mãos, que, por sobre a mesa, desvendavam o caminho que levava ao corpo e que, ali mesmo, decidiu-se a ida para casa, que o desejo ardia, alojado em todos os poros. Tinha bebido o suficiente para que a tontura fosse gostosa e a promessa de uma noite em glória elevava-me o volume da satisfação, visível quer no rubor das faces, quer na dimensão da parte superior de um decote escolhido para a ocasião. Esperava eu que a elevação fosse bilateral e, de preferência, duradoura.

Revelo também que fechei os olhos, quando, ainda no carro, ele me desarticulou as formas, deformando-me e enformando-me, para depois me ver sacudir em êxtase o desejo que me curvava e recurvava. E que depois aguardei, ainda de olhos fechados, o momento da fusão brutal dos corpos. E que de olhos fechados permaneci, enquanto ele, calado e moribundo, se recolhia ao vexame de mais um fracasso.

Disse-mo depois. O que vi e ainda me aflige a tranquilidade das mãos, foi a pele arroxeada e morta de uma coisa sem uso, desgraçadamente abandonada à má sorte. Porque ele era cortês, sim, mas de uma cortesia quase medieval, naquilo que a Idade Média tinha de mais obscuro e frio. Até a saliva do beijo era fria.

Por isso é que depois, ao contar à outra metade de mim – a que agrupa as letras exibindo a cor das cenas – lhe pedi que terminasse a história com a lembrança daquele que me satisfazia a vontade do corpo. Silenciado na timidez própria de uma juventude decente, culto na rigidez das nádegas mas bonitas que alguma vez vi, meigo nos olhos e mais ainda nas mãos, generoso na persistência e principalmente tímido por se encontrar, corpo a corpo com uma mulher mais velha, tranquilizava-me, depois de esgotadas as longas horas da paixão.

Por: Fausta Paixão

fevereiro 19, 2009

#13

“O Outono chegou, húmido e frio; os jardins cobriram-se de uma cor de ferrugem, e as florestas negras, direitas como ferro, mancharam-se, aqui e além, de castanho; um vento molhado soprava, empurrando para o rio pequenos ramos cortados. Todas as manhãs, chegavam ao alpendre carros cheios de linho, puxados por cavalos macilentos.” In, A Família Artamonov, Máximo Gorki

Vinham num trotear desengonçado, eles e o mundo todo, queixosos de um cansaço sem sol, que homens e bichos sofrem da mesma privação, uns mais na alma e outros mais no corpo, quando a ferrugem cobre os jardins e o vento sopra molhado e fustiga o caminho que traz o rio às manhãs e as cobre de névoa.

E eu, sentada no alpendre, esperava a nesga de sol que me tirasse da letargia e me trouxesse as memórias. A garota pusera-me o xaile sobre as pernas e a bengala ao alcance da mão. Disse-me para não sair dali, que o chão estava escorregadio e o meu equilíbrio já conhecera melhores dias. Um lagarto entre as frinchas, pensava, enquanto esticava as pernas e olhava os troncos das árvores, direitas como ferro em desafio humilhante à minha curvatura.

Todas as manhãs a cor da ferrugem dos jardins me recordava a impossibilidade da renovação. Porque eu sabia, entre as muitas coisas que eles diziam que eu esquecia e perguntava repetidamente, eu sabia que havia um Outono que chegava húmido e frio e se instalava, teimoso, nos meus ossos deformados, empurrando para o rio pequenos ramos cortados à minha lucidez. E o que ficava era um esqueleto desarticulado, que me fazia repetir a pergunta todos os dias: e ele, a que horas chega?

Por: Elipse

Um desafio de 2007 !

Ao caminhar pelas imensas ruas da blogosfera, a Gata2000, descobriu o “Desafio as Palavras”, um blog onde eu arquivava os desafios que o Ministério ia fazendo, mas que, por falta de tempo, fui acabando por deixar de o fazer. Ontem recebi um e-mail com a resposta a esse desafio que lancei em 2007. Aqui vai:

Abismo de sensações

Este está a ser um Inverno difícil, não sei se é da chuva que me fustiga e me impede de fugir, se é desta paixão que me consome.Tento não lembrar-me das tuas mãos nas minhas coxas, ou dos risos que partilhámos no chão do teu quarto, tento esquecer os teus traços, porque se te conseguir esfumar espero não te desejar tanto. É uma luta que travo comigo própria mas que não consigo vencer, tenho em mim o sabor da tua boca e ferve-me o sangue sempre que te sinto aproximar, não te resisto, embora saiba que contigo por perto não tenho vontade própria. Consegues com um gesto transformar a minha prosa estudada em murmúrios incoerentes, perdendo a noção de quem sou, apenas sabendo que o que quero és tu, e que o prazer está à distância de um toque. Quando me fundo em ti, sinto torrentes de sentimentos que me esmagam, mas tu és como um íman que me atrai para o abismo. Disseste-me um dia que me tinhas vencido, que tinhas conseguido derrubar um por um os tijolos que erguia em muro à volta do meu coração, acho que me amansaste, que me tornas-te dócil, só para me poderes manipular a teu belo prazer, creio que não sou mais do que matéria de estudo, ver até onde podes ir antes de me enlouquecer. Creio que a frieza é uma preeminência tua, não sentes e por isso não sofres, mas vais deixando cravada em mim a tua marca, e enquanto isso eu vou-me transformando em fragmentos do que era."
Obrigado Gata2000

fevereiro 18, 2009

#12

“Pois é, eu fugi de casa quando ainda não tinha vinte anos. Foram os escritores que me obrigaram. London, Dreiser, Sherwood Anderson, Thomas Wolfe, Hemingway, Fitzgerald, Silone, Hamsun, Steinbeck. Encurralado, barricado contra a escuridão e a solidão do vale, eu sentava-me à mesa da cozinha por trás de pilhas de livros da biblioteca e ouvia as vozes que de lá me chamavam para conhecer outras cidades.” In A Confraria do Vinho, John Fante

Uma fuga para casa

O cheiro do Aipo, o odor do mangericão, os perfumes do rosmaninho e do alecrim, o paladar do gengibre, o picante que nos vem de Cayenne, os poejos e o coentro, a textura da couve lombarda, o desafio da utilização das trufas, o corte do salmão e do arenque, as ovas do esturjão, os tintos alentejanos e os brancos de Palmela, a picanha e o acém, o lombo e a vazia, o pernil do porco e a sua orelha e de novo a couve roxa e a segurelha, o nabo e a cenoura, a cebola e o alho.

Foram eles acima descritos os grandes culpados. Eles e os escritores que nas suas fugas, nas suas voltas ao mundo, nas suas aventuras me incentivaram a descobrir, de Norte a Sul, outras cores e outros sabores. E se hoje não lamento um Rioja ou um Valdepeñas, um Bordeaux ou um Côte du Rône, um Val Maipo ou um Val Rapel, ou Napa Valley ou um Santa Clara quando tenho em frente um Terras do Sado, um Estremoz ou um Borba, um Cortes de Cima ou um Terras Durienses, não lamento também a demora que se faz sentir em me voltar a sentar à mesa com o goulash ou o bife tártaro, o fois gras ou o camembert, o eisbein ou a sauerkraut, a paella ou o cochinillo, o sushi ou a tempura. Tenho no Queijo da Serra e no de Azeitão, nas favas com entrecosto e no robalo na grelha, na caldeirada e na chanfana, os sabores mediterrânicos onde me estacionei. E tenho azeite, do mais puro que se come por esse mundo inteiro.

Mas tenho de agradecer, mais uma vez aos escritores todas estas descobertas. Hoje já velho e cansado, pousei os tachos e as facas e vivo dos prazeres que me trazem à mesa. E se agradeço ao meu amigo Hemingway me ter ajudado a descobrir o mojito e o daiquiri, peço-lhe desculpa por hoje não o acompanhar com Compay Segundo. Não tinha o disco à mão e o Camané sabe de um rio…

Por: PreDatado

1º Grande Concurso da Choradeira

Talvez seja o desafio escrito, mais difícil das vossas vidas!

Regras e Votações - Aqui

#11

"Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado. (...) Nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia." In: “Ficções” - José de Almada Negreiros

A Vontade

“Mas que raio faz um cágado sozinho no meio da estrada?” – pensou. Aproximou-se. E o cágado, que caminhava lentamente no seu passo de cágado, parou e recolheu-se na sua carapaça. O homem, que era senhor da sua vontade e nunca tinha visto o tal cágado da zoologia, questionou-se se aquilo seria mesmo o tal cágado. Acercou-se e, talvez por pensar que o cágado lhe responderia ou talvez porque era tão senhor da sua vontade e seguisse sempre os seus ímpetos, perguntou ao cágado o que estava ali a fazer. “Estava à tua espera, que achas?” – respondeu o quelónio de dentro da sua carapaça, com uma voz quase feminina e trémula. O homem, o tal senhor da sua vontade, que nunca tinha visto um cágado, o tal da zoologia, não estranhou que o réptil lhe respondesse sendo, segundo os livros, animal irracional. “À minha espera? Como sabias que viria? Podia não ter vontade! E se me esperavas, porque te escondes agora?” – retorquiu.
Desta vez fez-se silêncio. Teria sido imaginação sua, a resposta do cágado? Então o senhor da sua vontade inclinou-se, apanhou o cágado e espreitou pelo abertura da carapaça. Que viu ele? Uma jovem esbelta, completamente nua, que lhe acenava com um sorriso de sereia.
Seria mesmo verdade, ou teria sido tudo fruto da sua vontade?

Por: Mushu

fevereiro 17, 2009

As 3 Mentiras

Quase todos acertaram, mas em apenas uma, mais concretamente, a Nº 7

6- Não, nunca fiz uma exposição de fotografia (mas talvez um dia...)

7- Não, não sou alérgico a morangos nem a castanhas (nem a nada, penso eu)

9- Não, a primeira coisa que reparo numa gaja, não é o tamanho das mamas (as mamas estão em terceiro lugar)

Parabéns à Fatyly e à Didas que erraram todas :)

#10

“Deitado de bruços, sobre a caruma do pinhal, com o queixo apoiado nos braços cruzados, ele ouvia o tempo soprar entre a ramaria das árvores. A encosta da montanha, no ponto em que repousava, tinha pouco declive, mas mais abaixo tornava-se íngreme e ele via a curva negra da estrada alcatroada que seguia o desfiladeiro.” In Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway

OLHANDO O FUTURO

"Ouvia o tempo a soprar entre a ramaria das árvores" e sentia o sol, quente, desse dia de inverno, enquanto deitado, olhando agora o rio que acompanhava a estrada negra e que em contraste refletia o azul do céu, pensava na missão que lhe tinha sido entregue.
Lentamente, irresistivelmente, virou-se de costas para apanhar os raios de sol que se infiltravam por entre a ramaria em pleno rosto, sentindo-se viver, sentindo a energia fluir que fazia o seu coração bater com uma intensidade desconhecida, como se latejasse , o peito todo latejando.
Por uns momentos esqueceu tudo e todos.
Pouco depois, voltou à posição inicial, não tirando os olhos daquele pequeno rio, que se perdia no horizonte, junto com a curva da estrada, sem saber onde acabava o azul da água e começava o azul do céu.
Via, estremeceu, via o campo onde estava, cheio de corpos estropiados, as árvores meias desfeitas, e, ah! viu também aquela figura feminina que se debruçava a cada novo corpo que encontrava, recortada pela luz encarniçada de um poente majestoso, sem saber onde acabava o sangue que empapava aquela terra e começava o céu.
De vez em quando, ela punha-se de cócoras e com esforço virava o corpo que de borco se encontrava. Naquele último…naquele último, percebeu que chorava pelo estremecer dos ombros.
Não conseguiu ficar longe dela, que parecia tão frágil enquanto percorria as mãos pelo rosto, pelo corpo, do homem que ali estava junto aos seus joelhos, enquanto a ouvia repetir desesperada, não! Não! Não!
Tocou-lhe os ombros e quando ela separou o seu rosto do rosto do homem amado, viu-se ali deitado e viu os olhos dela que suplicavam.
Deu por si, olhando aquele rio e aquela estrada, gritando também como ela, não! Não! Não! Gritando, Maria! Maria! Maria!

Por: Maria Anónima da Silva

fevereiro 16, 2009

As 3 Mentiras

A Maria do Chez e a Didas do Amparo desafiaram-me a dizer nove coisas sobre mim, em que três delas, são pura Mentira. Ora cá vai :

1- Representei um monólogo que mais tarde foi um sucesso em Angola.
2- Já desmaiei quatro vezes enquanto tomava banho.
3- Tenho um ferro e nove parafusos no meu corpo.
4- Concorri ao Big Brother II, ficando em 19º lugar.
5- Fui campião regional zona norte de ténis de mesa.
6- Já fiz uma exposição de fotografia no Casino da Póvoa de Varzim.
7- Sou alérgico a morangos e castanhas.
8- Já me livrei de uma multa por excesso de velocidade, só por ser Benfiquista.
9- A primeira coisa que reparo numa gaja, é o tamanho das mamas.

Passo o Desafio a quem ainda não foi desafiado.

#9

“Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia.” In Crónica - Um pouco de ternura, Baptista Bastos

Por: Tia Brites

Ela diz que não os compreende!

Vejam só quem Voltou!

#8

“São ruas e caminhos labirínticos os que cruzam esta cidade, cheios de vozes vagas e tristes a chorar fados que não acabam, de gente dolente e sem esperança, que sonâmbula procura o caminho que a todos una num desígnio com um verdadeiramente nobre, verdadeiramente nacional. Um desígnio que seja mais que um destino, mais que um fado a que já não se conhecem os acordes iniciais, esquecidos que estão estes entre cantos e mensagens sobrepostas ao longo da História.” In Invisão, Mário Cunha

Dos Porcos

Julgava ter feito tudo. Não conseguia sentir-me feliz, nem tão pouco reconhecido, mas julgava ter feito tudo quanto podia. O teu silêncio era de compreensão. Sabias que não servia de nada falar-me. Fosse em voz alta, ou ao ouvido. Falavas-me mais com o teu silêncio. Com a companhia.

Não sentia frio. Não tinha calor. Não sentia nada. De livro pousado sobre a perna esquerda e ainda com o polegar a marcar a página onde me encontrava. Tinha baixado os braços, ficado a meditar. De olhos postos na outra margem, oposta àquela onde nos encontrávamos. E pensava eu como sempre tinha estado na outra margem, toda a vida. Estive sempre na margem oposta àquela onde todos estão. Lutei bem contra eles, venci uns quantos, fui derrotado por outros. Nem sempre com as armas limpas. E quantas, quantas vezes com sorrisos no rosto, com apertos de mão húmidos. Lembrava-me bem. Lembrava-me de quantos se tinham cruzado comigo escorrendo sujidade, pingando copiosamente todo o seu cinismo, a hipocrisia, a mentira, falsidades e políticas de proveito próprio. Quantas vezes havia eu conspurcado as minhas mãos, oferecendo-as a uma saudação socialmente correcta, para a seguir as esconder nos bolsos e correr a lavá-las. Tantos porcos por esse país fora, tantos. Fora dos lameiros. Porcos de fato, porcos bem arranjados, de cheiros variados, com riscas ou padrão, sapatos brilhantes e faces de pureza. Que tão porcos que eram e que são. E eu ali, no meio deles, a tentar mudar o mundo. Sem comer e a evitar ser comido.

Julgava ter feito tudo. E ninguém sabia. Nem reconhecia. Os porcos brilham nas grelhas, largam a sua gordura pegajosa. Os outros, os que não são porcos, passam de fininho e em silêncio, ninguém dá nada por eles. Há qualquer coisa que separa o brilho e a gordura do verdadeiro Serviço. Afasto os olhos do que está longe e retomo a minha leitura. A tua mão, com a pele menos rugosa que a minha, repousa agora sobre o meu ombro. Tu sabes. Sabes onde estão os porcos e o que fiz. És a única que conhece todo o meu esforço. Nem que fosse apenas por isso, devia sentir-me satisfeito. Mas não consigo.

Por: João

fevereiro 15, 2009

Até Pró Ano Correntes D'Escritas

E assim se passaram quatro magníficos dias, onde comi , bebi e dormi com letras. Mais de uma centena de escritores passaram por aqui. Acompanhei as dez mesas de debate, umas mais animadas do que outras, mas todas interessantes. As dezenas de lançamentos de livros. As sessões de Poesia. E agora que acabou, volto ao vazio e cinzento dos dias. Afinal de contas aquele mundo não é o meu! Mas é muito mais cativante, por isso gosto de lá passar.

fevereiro 13, 2009

Um Dia Parvo !

"Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas", já dizia o poeta maior. E disse-o muito bem, porque realmente são ridiculamente ridículas. Não seria amor se ridículo não fosse. É próprio do amor ser-se ridículo. O amor é cego, logo, é ridículo. "O amor é um lugar estranho", logo, é um lugar ridículo. Não há nada mais ridículo do que um casal de namorados. Eu já há muitos anos que fui ridículo, e fui ridículo, pelo que escrevi, pelo que disse, pelo que amei. Fui ridículo como todos aqueles que ridiculamente amam. O dia de amanhã consegue ser mais ridículo, do que todas as cartas de amor ridículas que um dia escreveram às vossas "Ofélias". Um dia Parvo !

Sejam ridículos mas escolham outro dia.
Sejam originais!

#7

“O Homem pára, tacteia, segura a porta, espera, escuta, expectante. Os seus gestos denunciam que é invisual. Evita que a sua presença seja imediatamente detectada. Depois, decididamente, empurra a porta devagarinho.Ao sentir a luz na cama, a Mulher tira abruptamente o Macho de cima de si e com gestos ordena que se mantenha ali em silêncio.” In, Fumos de Glória, António Faria

Durante alguns segundos, daqueles que equivalem a uma eternidade, três pessoas ficaram ali, imóveis e silenciosas. O homem nu, de pé, encostado à parede tentando não tremer nem respirar, transpirava e quase se conseguia ouvir pingas de suor a cair sobre os seus ombros, o seu peito, e no chão. O coração batia descontroladamente. A mulher sentada na cama, expectante, cobriu-se com o lençol naquele gesto involuntário que denuncia o desconforto e olhava para o homem parado junto à porta entreaberta sem qualquer expressão que pudesse traduzir as suas intenções. Uma mosca esvoaçava tentando sair pelos vidros daquele nono andar, batendo neles repetidamente. Até que finalmente, o homem que tinha entrado, exclamou calmamente, como se estivesse a falar para si próprio: - Ora, afinal não está ninguém em casa! – e voltou-se para sair.
O alívio iluminou os rostos dos dois. Mas só até se aperceberem que, ao sair, o outro tinha fechado a porta por fora. À chave. E que a tinha levado consigo.
Por: Didas

fevereiro 12, 2009

#6

“Havia no corpo de Bianca um grau de pureza incorruptível, por mais que lhe passassem pilas pelas mãos, pela boca, pela vagina, ou pelo ânus, se a tanto ela se dava. O seu jeito de saltar febrilmente sobre ele largando suspiros de luxúria corroborava a sua opinião, fazia-o como a mulher a dias que passa a roupa da patroa a ferro, como a empregada de limpeza que lava a escada do prédio, como a dactilógrafa que redige cartas comerciais. O seu ofício era foder e queria fazê-lo depressa, despachá-lo para depois repousar um descanso merecido, sem virtuosismos ou exibicionismos excessivos, mas ao mesmo tempo com o brio pda rofissional que não descura o seu trabalho e faz questão de o deixar bem feito.” In Invisão, Mário Cunha
Faz de mim a tua puta

Sempre que conto as notas no final de cada dia há uma satisfação que me acaricia cada fragmento do meu corpo e bendigo o dia em que mandei línguas e literaturas modernas às urtigas e a hipótese de limpar o ranho dos filhos dos outros. Se fosse hoje talvez me leiloasse na net e de seguida abrisse um outro negócio mas não ajudaria tanta gente.

E caramba sou competente no meu trabalho que não há pila que eu não descubra a forma de a espevitar mesmo que não seja de um cliente habitual. O professor de sessenta e tais anos continua a voltar pelos meus broches que a partir das sucções iniciais na cabecinha o aconchegam inteiro na minha boca até ao soluço final sem esquecer no durante umas serpenteadelas de língua no mastro e umas mãos persistentes a afagar-lhe os tomatinhos. Ou o gerente de loja que só se sacia a comer-me de quatro esperando que eu estique os dedos pelos seus testículos em escorregadelas constantes e que na fase de aceleração o meu médio se introduza no seu rego lavadinho que é prazer que não consegue pedir à esposa. Isto é como ser mecânico de automóveis que tanto garante o arranjo do carro qualquer que seja o problema como simplesmente faz uma mudança de óleo.

Não contam com a minha lubrificação no máximo e os gemidos são colocados no momento certo como os aplausos em programas televisivos mas tropa é tropa e conhaque é conhaque e sei que presto um serviço eficiente ou não regressariam. Não tem nada a ver com quando me apaixono e esse turbilhão me limpa as memórias anteriores permitindo que a simples visão do outro me espete os mamilos e humedeça os genitais num crescente frenesim e até me acrescente requebros adocicados na voz como se dissesse faz de mim a tua puta.

Por: maria_arvore

fevereiro 11, 2009

#5

“Enquanto escrevo isto, estamos sentados a uma mesa em frente um do outro. Não é grande, mas é suficientemente grande para nós os dois. Ele tem uma chávena de café e eu estou a beber chá. Quando as folhas estão metidas na máquina não consigo ver o rosto dele. Desta maneira estou a pôr-te a Ti à frente dele. Não preciso de o ver. Não preciso de saber se ele está a olhar para mim.” In Extremamente alto e incrivelmente perto, Jonathan S. Foer

Volta Sempre

Aliás, até preferia que não o fizesse. O olhar dele queima-me a pele. É demasiado exigente aquele olhar. Dantes achava-o profundo e vasculhador da minha alma. Agora acho-o incómodo. Dantes escondia-me naquele olhar, segura e confortável na sua intensidade. Agora escondo-me dele como o diabo da cruz. Ele não tem culpa, mas paga as consequências. Em dias como este, não sei como lidar com a presença dele. Não sei o que pensar dele estar aqui a beber do meu café, sentado na minha cadeira, à minha mesa, na minha sala. Já me lembrei de perguntar porque não se vai embora. Porque continua a estar aqui. Já sei qual a resposta… nunca foi porque nunca pedi. Tal como Tu me dizes isso. Que nunca vieste porque eu nunca pedi. E era preciso pedir? Não vias que era o que queria? O que precisava?
Agora só o tenho a ele. E não sei como me livrar desta presença que me incomoda até ao centro de mim. É aí que estás, sabias? No meu centro. Vivo e respiro-te para dentro de mim como se a minha vida dependesse disso. E depende. Mas tu não vens e ele não vai.
Desapareceu. Não sei para onde foi. Espreito por cima da folha e não o vejo. A chávena continua lá. No mesmo sítio. O café ainda deita fumo. Intocado.
Às vezes faz isso. Desaparece sem mais nem menos. Desconfio que consegue perceber que estou a escrever para Ti. Nunca pergunta, mas sente-se que sabe.
Lembrei-me da última vez que falámos. Tu e eu. Lembras-te? Foi há tanto tempo. Lembras-te de me dizeres que estavas disposto a ajudar-me? Lembras-te que te disse que não precisava de ajuda? Eu não te menti. Estava certa disso. Hoje seria mentira. Na altura não o foi.
Ainda não voltou. Estamos sozinhos. Ainda bem. Assim sinto-me mais próxima de ti. Mais perto. A chávena devia ser tua. Nossa.
Ele desapareceu. Desaparece sempre que escrevo para ti. Já percebi isso. A chávena continua no mesmo sítio onde a deixei depois de ter feito o café.
Só quando escrevo para ti é que desaparece. Só volta quando tiro a folha da máquina e a tapo para não apanhar pó. Ele sabe que tu não me respondes porque nunca chego a enviar o que escrevo. Talvez seja por isso que não desaparece de vez?
Se recebesses estas folhas virias ter comigo? Virias oferecer novamente a tua ajuda? Acho que a aceitava. Não sei. Estou cansada de estar sozinha. A presença dele só me faz perceber até que ponto o estou. Fazes-me falta. Estares aqui para não haver espaço para mais ninguém. Estares aqui para todos os espaços serem teus. Nossos. Ele só desaparece quando falo contigo.
Nem tocou no café. É sempre assim. Nem sei porque ainda me dou ao trabalho.
Vou-me despedir. Sinto-me cansada hoje. Esta casa vazia pesa-me. A escuridão cega-me. O silêncio mata-me. Vou descansar.
Sei que amanhã volta. Volta sempre. Gostava que não o fizesse. Mas não há nada que eu possa fazer. Ele volta sempre. Devia ter-te deixado vir para mim. Como querias. Como disseste que podia e devia ser. Que todos iam compreender que eu tinha de refazer a minha vida. Talvez ele não tivesse voltado. Talvez tivesse ido de vez.
Despeço-me.
Até breve, meu amor. Em breve volto para ti. Só assim ele desaparece e eu fico sozinha contigo.
Até breve, meu amor.

Por Me

À espera do autocarro!

O Filme escolhido pelo Ministério já foi legendado.

Obrigado Ministra das Legendas

#4

“Há um aparecer que é próprio deste mundo. Muito amiúde, há sonhos. Por vezes deve retirar-se a tela para a cama e mostrar os corpos que se amam. Por vezes devem mostrar-se as pontes e as aldeias, as torres e os miradouros, os barcos e as carroças, os personagens nas suas moradas e com os seus animais domésticos. Por vezes é suficiente a bruma ou a montanha. Por vezes uma árvore que se inclina sob as rajadas do vento é suficiente. Por vezes a noite é suficiente, e não o sonho que torna presente à alma aquilo que lhe falta ou que perdeu.” In Terraço em Roma, Pascal Quignard

Geografia Limitada

Penso no meu Norte e no quanto sou pertença desta terra, como a trago inscrita na alma, como se enche de surpresas e de espantos no mapa mental da minha geografia limitada.

Mais do que as igrejas a enfeitarem os cimos das serras, ou as penedias transformadas para a oração, ou o granito talhado, talvez a comunhão mais profunda se faça no meio das serras frondosas, engalanadas de vida. Sou, verdadeiramente, pó e ao pó voltarei. Mas também sou seiva e luz coalhada e brisa fresca e margens de rios frescos e impolutos. Sou como a estrada perdida, bordejada de campos e vinhas que, por trás de cada curva, insinua mais um espanto. Sou como as estrelas que se voltam a ver e o luar novo que nada alumia. Ou como as barreiras amuralhadas que escondem casas brancas e ruas limpas, rasgadas apenas pelo vento norte e fazem ainda frente a um inimigo que já não há, enquanto os canhões silenciosos se cobrem de musgo e, por entre as pedras das flecheiras, nascem pequenas flores amarelas.

Sou esta terra alegre, verde e quente. Sou velha como as pedras de que herdei a história no sangue. Sou como a brisa e a água, frescas e sempre presentes. Ou aqueles dias em que o calor se desprende dos sabores, da malga de vinho verde tinto, da boroa e dos rojões. Ou as estradas marginais onde nos perdemos até encontrar um pequeno riacho cantante, sombreado ainda de carvalhos frondosos, com resquícios do visgo druídico e da mátria feita deusa de carnes fartas, férteis.

Sou o verde do minifúndio em pousio, a erva doce e perfumada. É em camas de urze que guardo os sonhos e por isso sonho esta terra, amo esta terra, deixo que ela me ame de volta e seja testemunha silenciosa dos amores onde me perco.

E enquanto tiver esta terra não preciso que, em sonhos, me mostrem o que ainda não perdi.

Por: Hipatia

fevereiro 10, 2009

#3

“Lavar o pátio à mangueirada era uma boa coisa: animais e crianças espalhavam-se com satisfação quando as tinas, cheias de sabonária, inundavam o chão, e o mais pequeno de todos, Spiuni, corria vacilantemente, fugindo e guinchando, feliz, através das lágrimas, quando a água lhe apanhava os calcanhares.” In Enterrem-me de Pé, Isabel Fonseca

Lavar, lavar, lavar.... Ela não fazia mais nada, senão lavar. Lavou escrupulosamente cada cantinho da cozinha. Só assim, sem parar de lavar, conseguiu tirar as nódoas de sangue do chão e das paredes.
Mais tarde havia de lavar o pátio à mangueirada, para ser um lavar diferente. Para purificar a alma. Agora tinha de se desfazer das roupas e de mais umas quantas coisitas. Nada de deixar fosse o que fosse ao desvario. Nada. Tudo tinha de ser meticulosamente pensado a partir de agora. Afinal, um erro fora cometido. Um erro. Não tinha sido de propósito, estava inocente. Testemunhas não as havia, se assim fosse seria mais fácil provar a sua inocência. Sem elas quem acreditaria em si?
Mais tarde havia de lavar o pátio à mangueirada. Sim. O pátio. Todos gostavam do pátio. Um local de reunião, de brincadeira, de alegria. As crianças adoravam. Sobretudo o mais novo. O seu pirolito lindo era quem se divertia mais. Os cães juntavam-se-lhes sempre, correndo e ladrando de alegria. O pátio parecia um ringue de patinagem artística, pois a água com sabão tornava-o propício a verdadeiras demonstrações artísticas.Ah!
Que satisfação era pensar naquele pátio e na festa que era sempre lavá-lo à mangueirada. Mas... Mais tarde. Mais tarde que agora uma nuvem cinzenta tinha-se-lhe apoderado do espírito. Outras "lavagens" lhe ocupavam a mente.
Lavar, lavar, lavar.... Mais tarde. O pátio. As crianças. Não. As crianças, não. Vermelho. Medo.

Por Fabulosa

#2

“Ele, porém, queria gozá-la, sentir-lhe calmamente a textura aveludada da vagina e sentia-se nesse direito enquanto cliente detentor da razão, como sempre acontece – afinal é ele que está a pagar, pelo que revirou-a do avesso e pôs-se em cima dela, de modo a ser ele a controlar o andamento do dueto a seu gosto. Afundou-se então nela com o requinte de quem saboreia uma iguaria rara, primeiro movendo-se lentamente para lá e para cá, depois mais rapidamente até ejacular num extraordinário turbilhão de prazer arfado e dor gritada, findo o qual sucumbiu, derrubando todo o seu peso no corpo dela, exauto e aliviado.” In Invisão, Mário Cunha

Contrastes

Tinha aceitado aquele desafio, afinal desde a primeira vez que soube do mesmo que ficou excitadíssima. A colega falara-lhe na proposta: 500€, um lugar desconhecido, fantasias por cumprir, proibição de pronunciar palavras e como recompensa apenas o prazer que conseguisse retirar do momento.
Receberia as instruções vindas por sms e não deveria parecer-lhe estranho o facto do remetente não ser identificado.
Não tinha muito mais indicações, aliás mesmo mais nenhuma informação. Os dias foram deslizando lentamente pelo tempo. Mais uma manhã que se adivinhava esquecida na proposta que havia aceitado pelo que, levantou-se da cama, tomou banho, espalhou o hidratante pela pele. Vestiu uma sóbria saia preta que lhe definia as curvas, uma blusa branca cujo decote morria junto aos seios provocantemente amparados pela renda escura que se fazia adivinhar e nas pernas as meias de seda presas às ligas do cinto completavam com os sapatos altos que lhe anlaçavam os tornozelos com a fivela sustida nas fantasias por concretizar.
Saiu de casa de cabelo solto, caído nos desejos que sentia na pele, e na face o traço sóbrio dos olhos que se queriam despidos.
Já no carro o som dum sms no telemóvel. No visor um local e a indicação para lá estar dentro de 10mn, remetente desconhecido. E de repente um pulsar galopante tomou conta do seu peito, da sua mente e de todo o seu corpo, fazendo-a chegar ao local pretendido, nos diminutos 10mn que lhe haviam imposto.
Enquanto imobilizava o veículo mais uma mensagem "nº 213, ao fundo do corredor". Olhou em seu redor, nenhuma alma se avistava na acalmia que a rua transmitia.
Passou pelo portão entreaberto que se fechou automaticamente à sua passagem encerrando, do lado de lá, os medos do desconhecido. Agora só sentia tesão, fascínio por aquele lugar, e ao longe avistou um vulto a afastar-se da janela. O perfume forte vindo do jardim mesclou-se com o da sua excitação enquanto entrava e se dirigia para o fundo daquele corredor enorme, quase tão grande quanto o seu desejo e elegantemente decorado.
Uma poltrona e uma mensagem "Senta-te. Põe-te à vontade. Á minha vontade! Faz dos teus dedos os meus, das tuas mãos as minhas. Despe apenas a saia"
A sala estava escura sem no entanto parecer sombria. Largou a mala juntamente com os receios, abandonou o casaco e a saia no chão e aninhou-se na poltrona branca que contrastava com o negro dos seus desejos, com o preto das meias que pareciam querer reter toda a sensualidade daquele momento. Ao fundo da sala, resguardado, adivinha-se um vulto masculino no sofá do canto. No ar a música calma e embriagante deixou-a fluir de si dando início à viagem.
Desapertou a blusa apenas o suficiente para que pudesse acariciar os seios já avolumados, deixou uma mão nos peitos abandonando a outra na suavidade das pernas a caminho de se perder por entre elas. E sentia…
A pele arrepiada, quente,
Os dedos soltos, frios
Os olhares escondidos, ansiosos,
Os fôlegos mais cadentes, os Joelhos trementes e a cada minuto que passava sentia-se mais excitada e ao fundo o mesmo vulto, quase imovel, que a observava a estimular-se.
Seria fácil chegar até ela e apoderar-se do corpo mas de nada lhe serviria a pele se não viesse acompanhada pelo desejo fervente da mente pelo que continuou penosamente a observá-la. Contorceu-se, encolheu-se, sentia-se fogo ao afundar os dedos e os peitos que gritavam pelas suas mãos.
Ao fundo ele já notara a cadência mais ritmada dos dedos sobre o clítoris, o ondular constante da pélvis e na face os sinais evidentes do abandono, da rendição, vindo juntos com as contracções e uns leves gritos que não conseguiu conter quando o orgasmo se apoderou do seu corpo.
Sentia-se demasiado atraída por aquele homem que estivera a observá-la aparentemente calmo. Levantou-se, deixou escorregar a blusa que caiu no soalho e lentamente aproximou-se dele. Passou uma perna pelos seus joelhos, sentou-se virada para ele enquanto lhe deslizava os dedos pela boca dando-lhe a provar o sabor da sua excitação. Desfez-lhe o nó da gravata, desabotoou a camisa e enquanto as bocas se devoravam, desapertou-lhe as calças já sem espaço para o seu sexo latejante.
"Ele, porém, queria gozá-la, sentir-lhe calmamente a textura aveludada da vagina e sentia-se nesse direito enquanto cliente detentor da razão, como sempre acontece – afinal é ele que está a pagar, pelo que revirou-a do avesso e pôs-se em cima dela, de modo a ser ele a controlar o andamento do dueto a seu gosto. Afundou-se então nela com o requinte de quem saboreia uma iguaria rara, primeiro movendo-se lentamente para lá e para cá, depois mais rapidamente até ejacular num extraordinário turbilhão de prazer arfado e dor gritada, findo o qual sucumbiu, derrubando todo o seu peso no corpo dela, exausto e aliviado."




fevereiro 09, 2009

#1

“O maior desgosto de Domingos Dias Santos era não saber escrever. A sua vida estava cheia de desgostos, mas todos se resumiam em um único – não saber escrever.” In Ficções, José de Almada Negreiros

O Drama de Domingos Dias Santos
Domingos Dias Santos era um palhaço dos grandes. Trabalhava no Circo e tinha precisamente 1,93 metros. Esse era um dos seus desgostos, pois fazia com que a anã Julieta, do baixo dos seus 137 centímetros, o rejeitasse, pois não gostava assim tanto de sexo oral e tinha medo de ser transformada numa espetada humana. Para alguém que se chamava Domingos Dias Santos, Domingos Dias Santos não fazia justiça ao seu nome, uma vez que era ao Domingo que o trabalho apertava, com um show de manhã e outro à tarde.
Aí, Domingos Dias Santos (começo a ficar farto de escrever este nome) colocava o seu nariz vermelho, os seus sapatos esguichadores e inundava a arena com as suas quedas e tropeções, para gáudio da criançada. Pelo canto do olho via Julieta a cavalgar um porco, enquanto lhe afagava carinhosamente as orelhas. Ah, como ele gostaria de ser porco... esse era outro dos seus desgostos, tinha uma paranóia com a limpeza, tudo na sua roulotte tinha de estar imaculado, mesmo o tecto onde batia constantemente com a cabeça, deixando ocasionalmente uns salpicos de sangue. Sim, também tinha desgosto em viver numa roulotte.
Mas o maior desgosto de todos, se não leste a frase inicial, era não saber escrever. Soubesse ele manejar a caneta sem ser para tirar o cerume das orelhas e poderia então dissertar a Julieta, oferecendo-lhe poemas incendiários de paixão. Poderia escrever ao dono do talho, contando-lhe do paradeiro do porco que lhe tinham surripiado. Poderia escrever ao dono do circo, protestando pelo facto da sua habitação ser tão baixa. Mas não o fazia, porque não sabia escrever. E porque é que Domingos Dias Santos não sabia escrever? Porque além de mudo era burro que nem uma porta...

fevereiro 08, 2009

Atenção Rapazes

Mulheres seduzem homens pela Internet para os...

Eu sempre tive curiosidade em conhecer mulheres pela internet, mas sempre que marco encontros, elas nunca aparecem !!!

fevereiro 07, 2009

fevereiro 05, 2009

Novo Desafio

Se ainda não recebeu o convite, ou se estiver interessado(a) em participar neste novo desafio, envie um e-mail a dizer "Eu Também Quero", ou deixe a mensagem na caixa de comentários. Em que consiste o Desafio ? Só posso dizer que é diferente :)

Até já

David Lanz - Christofori's Dream

fevereiro 04, 2009

Leituras

Um conto de 81 páginas para ser devorado, numa só noite, embora o conteúdo fique a vaguear pela nossa mente durante muito mais tempo, quiça...dias, ou mesmo semanas, depende da “Loucura” de cada leitor !

"A sua carne palpitou e – só com a carne – amou a estonteante atrizita. Numa embriaguez dos sentidos, possuiu-a nos mesmos divãs desse atelier, onde costumava estreitar o corpo de Marcela. Horrorizado com o «sacrilégio», determinara não o repetir, mas... O eterno mas: a carne é fraca. Durante a execução de Afrodite, depois de uma hora de trabalho, seguiam-se duas de amor se amor se pode chamar à prática luxuriosa dos vícios mais requintados." (pág 59)

"Ouve-me, compreende-me, e não tenhas medo: vou despedaçar a obra-prima do teu rosto..." (pág 77)
in Loucura, Mário de Sá Carneiro

O Ministério adverte: A ingestão de bebidas alcoólicas durante a leitura desta obra, pode provocar gravíssimas conclusões cerebrais.

Cartão Deputado (Modernices)

127 Mil Euros - Lá vamos ter de pagar mais uma factura com este novo cartão, para que os deputados possam autenticar a sua presença na sala de plenário, e pronto, assim está criado mais um brinquedo em tempo de crise. C'est la vie

Contornar a Crise

O dono de um restaurante em Londres acredita que descobriu a forma de contornar os efeitos da crise económica e a consequente diminuição de clientes, deixando o pagamento das refeições ao critério das pessoas. "Só peço aos clientes que paguem o que consideram ser o valor dos alimentos e do serviço" afirmou o dono.
Hummm...não estou a ver ninguém em Portugal a pegar na ideia!

Pinócrates (Paaalhaçada)

Muito sinceramente, já não tenho paciência para ver este tipo de cartazes. Não tenho simpatia por partido nenhum, nem morro de amores pela política. O País está na merda e precisa de soluções, e não de brincadeiras infantis.
Fooooda-se!

fevereiro 03, 2009

Silêncio

Muitos me disseram que o silêncio carrega todas as incertezas do Mundo. Outros disseram que vive a paredes meias com a solidão. Houve quem dissesse que o silêncio era um monstro com forma humana (este mais tarde viria a ser internado) . Outros não têm certeza daquilo que o silêncio é feito, mas afirmam que por trás de todas as palavras ditas e escritas, se pode encontrar o silêncio. Ou que o silêncio é feito de poemas inacabados. Que é feito de todas as coisas vivas. A estrangeira na esplanada preferiu dizer-me ao ouvido: “Silence is a precious token”, sorriu e voltou a sentar-se. Outros ainda, dizem que é feito de pedaços de Alma. Um velho disse-me que o silêncio era feito das esmolas que lhe deixavam. Um poeta disse que o silêncio se pode encontrar no centro da espuma das águas (mais tarde morreu afogado) . Outros ainda, disseram que é feito de monólogos. Feito de diálogos imaginados. Um fadista não me respondeu, apenas apontou para o que estava ao seu lado, então percebi que o silêncio também era feito das notas de uma guitarra. Beethoven terminou a sua nona sinfonia com o silêncio, mas isto ninguém sabe, só eu sei. Muitos mandaram-me calar. Houve quem me tivesse chamado de louco. Uma velhinha mandou-me ir trabalhar, e um até me mandou à merda. Um dia afirmaram-me de olhos em riste e voz zangada, que o silêncio era todo eu. Respondi prontamente que; eu era nada, logo sendo nada não podia ser o silêncio, porque o silêncio é tudo, tudo! Viraram-me as costas, e foram-se embora. Fez-se um grande silêncio, diferente de todos os outros a que estou habituado, e então percebi, que o silêncio é feito de tudo aquilo que quisermos. Agora sei que o meu silêncio é feito de páginas viradas.

fevereiro 01, 2009

Um tempo...

Necessito de reinventar-me. Reinventar uma maneira de seguir em frente. Levantar os pés e a cabeça. Não fazer projectos. Não criar nada. Não chegar ao topo de nada. Seguir em frente apenas. Uma nova vida, mas com vida. Um novo descobrir. Acordar todas as manhãs numa outra cidade. Um outro País. Uma mulher diferente todas as noites. Encontrar uma forma diferente de me expressar daquela que as palavras não dizem. Sentar-me todas as tardes numa esplanada esquecida. Uma mulher diferente todas as tardes. Encontrar-me nessas Praças da Europa. Praças do Mundo. Visitar Gaudí no parque Guell. Fotografar jardins. Ruelas e becos. Prostitutas de esquina. Idosos à janela. Um cão rafeiro que passa. Uma criança que brinca. Roupa estendida. Artes de rua. Fotografar. Sempre. Talvez seja a forma mais correcta de me expressar. Fotografia o espelho de mim. Não. Não tenho a certeza. Sem certeza de nada. A maturidade torna-me chato e deprimente. Esqueço os nomes. As chaves. Nem sempre só os nomes. Nem sempre só as chaves. Outras coisas. Necessito de reinventar-me. Reinventar uma maneira de seguir em frente. Deitar-me todas as noites num lugar desconhecido. Uma mulher diferente todas as manhãs. Um beijo madrugador. Finalmente encontrar-te no fim de todas as paragens. Esperar por ti. Reinventar-te. Ter-te. Mas não é possível. Não acredito que seja possível. Não basta acreditar. Não. O meu tempo não é este. Não. Não.